A cidade tatuada

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crédito Maurício Dal PoggettoA calçada da Avenida Paulista parecia de algodão para aquele garoto. Passadas leves, largas, mas sem pressa. Ele ajeitava com zelo o plástico que cobria todo o braço e um pouco do ombro. Deparou-se, então, com um enorme graffiti pintado ao longo de um prédio. O desenho parecia infinito. Parou para admirar a obra de arte. Encostou no ponto de ônibus e acendeu um cigarro. Finalmente, identificou-se com essa cidade. Ele e São Paulo, dois tatuados.

Respirou fundo e deu a primeira tragada. Só queria o prazer da fumaça invadindo o sangue carregado de tinta ainda fresca. Finalmente, baforou para a cidade o seu nome. Em 23 anos, nunca havia se apresentado a São Paulo. Agora, assim como ela, tinha identidade própria. Dizia sem precisar falar.

Claro que São Paulo responderia. Quanto mais caminhava, mais o garoto se identificava com muros coloridos ou rabiscados, ora revoltados, ora poéticos. Medianas infinitas. Muros despretensiosos dizendo o que bem querem. São Paulo é todinha tatuada, é autêntica, de personalidade forte. Assim como o garoto e sua primeira tatuagem, que passou a conversar com a cidade do graffiti.

Até que a mesma cidade deu uma resposta torta, atravessada. Toda Gotan City tem seu Batman e seu Coringa. São Paulo tinha um prefeito sem tatuagem e engomadinho, amante profundo de muros caiados. Cal, água e cola. Arma infalível. Era passar por um graffiti que lá mandava cobrir tudo.

Atônito, o garoto parou em frente ao mais impressionante painel, o mais simbólico de todos. O branco escorria entre as formas geométricas, olhos, bocas, alegorias e cores vibrantes . Era como se arrancassem-lhe o braço que acabara de tatuar. A cidade se rendia… “Cadê você?”, pensou inconformado, acendendo outro cigarro.

O homem com o balde de cal na mão pediu um cigarro e se acomodou no chão. O garoto pensou em chutar o balde, mas acabou compartilhando o fumo:

–  Se liga garoto, antes desse desenho aí também tava tudo branco. A gente pinta hoje,  esse prefeito amanhã larga o muro. Político quer é ser presidente. Daí vem outro bando e enche de desenho tudo de novo –  apoucou o funcionário da Prefeitura.

Naquele momento, era como se São Paulo tatuada também acendesse um cigarro, anuncia-se seu nome e seguisse triunfante com seus apertados passos. O garoto olhou para o braço. A tinta fresca ainda escorria sob o plástico.

Beco do Bataman, Vila Madalena

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Para quem curte graffiti, boa parte dos artistas tem Instagram, incluindo um dos meus preferidos, o “Nove”: @digitalorganico – sempre arrumo um tempinho para fazer pose pra foto em frente aos seus trabalhos, como esta daí. O graffiti que aparece na primeira imagem também é dele e a foto foi tirada pelo meu irmão, dono de um Instagram também incrível, este é para quem gosta de fotografia acompanhar: @mauriciodal

Outro artista bem legal pra seguir no Instagram é o Tito Ferrara @titoferrara, dono de projetos bem interessantes.

#ficaadica

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“Ô amizade, um pingado e um pão na chapa, beleza?!” Mais do que  graffiti, barbearia, pizza e coxinha, é o pingado com pão na chapa o oficial representante da cidade de São Paulo. Nada mais tradicional e democrático. Da padoca-risca-faca às boutiques de pães, há sempre um pão quentinho frito na manteiga, acompanhado de  leite açucarado e sua boa dose de café coado. É o afago desta cidade que, muitas vezes, lhe engole, mas tantas outras lhe dá colo. A receita do Pingado e pão na chapa fica no outro post, bem aqui.

(Crédito das fotos: Maurício Dal Poggetto, Priscila Dal Poggetto e Flávia Pegorin)