Inbox: em Moema, quarto andar e sem sapatos

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Jantar chez Rosny Gerdes“Traje Esporte Social (por favor, notem que não se transita de sapatos na casa do Chef, haverá chinelos disponíveis para todos logo na entrada)”. Era essa a mensagem que tilintou no meu celular ao final do convite para aquela memorável noite. Eram pontualmente 20h quando cheguei à portaria do prédio no arborizado bairro de Moema, em São Paulo. Ia apertar o botão para me anunciarem, mas, atenta, logo percebi que o casal que se identificava naquele momento ia para o mesmo apartamento.

Apresentei-me sem milongas. Simpáticos, já adiantaram como seria a dinâmica na noite gastronômica, convite que eu aceitara sem pestanejar, mas com a consciência de que cairia de para-quedas. Pois fora os “chinelos disponíveis”, a informação que eu tinha era a de que o chef Rosny Gerdes Filho abriria seu apartamento para alunos de sua escola e “agregados” terem a oportunidade de desfrutar os pratos de seu restaurante, o Phyroza Gastronomia.

Estava interessada na dinâmica, mas confesso que a indicação para tirar os sapatos aguçara ainda mais minha curiosidade, afinal, realmente seria uma imersão na vida de um chef que se recusara a mudar as regras da sua casa simplesmente para atender ou agradar clientes baixinhos ou de meia furada. Se a autenticidade do convite já tinha me fisgado, a recepção conquistou de vez o meu ávido coração por uma vida interessante. Foi o próprio Rosny quem abriu as portas com um largo sorriso de um bom piracicabano que estudou a haute cuisine no Le Cordon Bleu de Paris. Apaixonei-me por ele naquele momento, quando indicava pra mim qual era o chinelo com a numeração 37.

Mal dera as três primeiras passadas e uma flute com champanhe pousou sobre os meus dedos. Estava eu imersa “chez Rosny”, um mundo adornado por esculturas, quadros e mobílias orientais, ao som de baladas francesas, perfumado pelo vapor das panelas vívidas, mas escondidas sobre o fogão em uma cozinha onde ninguém pode entrar. Muito bem acomodados nos sofá, ali estavam meus amigos (entre eles, meu verdadeiro anfitrião por ser de quem recebi o convite). Esse tal de “chez moi” de Rosny é algo tão envolvente que os dois já pareciam parte do apartamento. Achei por um momento que por ser “agregada” estaria um pouco distante disso tudo. Que nada! As entradinhas começaram a chegar, as bebidas, outros casais e, assim, histórias encantadoras e boas risadas.

Ao olhar no espelho do banheiro, enquanto lavava as minhas mãos – à brisa de um leve, mas muito bom, pileque de vinho -, dei-me conta de que, esse jantar do Phyroza na casa de Rosny foi, sem dúvida, foi uma das experiências gastronômicas e de vida mais interessantes que eu já passei. E não falo pela impecável lula recheada, pela impecável harmonização dos vinhos e pelo crème brûlée que faria Amélie Poulain fotografar cada milímetro de sua colher quebrando a casquinha de açúcar. Falo pela alma entre aquelas paredes.

Rosny era executivo em multinacional. Descrevia-se como um grande atropelador de seres humanos. Largou tudo, obviamente. Alguém com tanto brilho interno jamais seria feliz em uma carcaça carreirista. Virou chef de cozinha e passou a entregar um pouco da sua alma às pessoas. Que é linda, por sinal e mexe com todos os seus sentidos. É assim a cada toque de seus pratos à língua, a cada contato visual com os exóticos objetos de decoração, a perfeita trilha sonora para ambientar todas aquelas agradáveis conversas à mesa e, claro, os perfumes das comidas que se mesclam aos das pessoas.

Foi aí que eu entendi os chinelos. Vai além da tradição oriental de não trazer energia ruim e sujeira para dentro de casa. Aquele era o passaporte. Ao tirar os meus sapatos e vestir o par de chinelos entregues pelo chef, meus pés tocaram o mundo de Rosny. Dali para frente eu já era também parte do apartamento 44 daquele quarto andar de Moema.

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Crème brûlée Rosny GerdesA sobremesa pode ter levado o nome “brûlée” e a fama por causa da casquinha formada pelo açúcar derretido pelo maçarico – não à toa o doce é praticamente um personagem no filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain tamanha a vivacidade ao ser quebrada. Mas é o creme aveludado com o adocicado aroma da baunilha como cúmplice que, na realidade, faz toda a diferença aos sentidos. Poucos o cozinha com maestria. Que eu conheça, um deles é Rosny Gerdes. Aquele crème bûlee que degustei no jantar em sua casa foi realmente memorável. Passo, então, a receita deste clássico por aqui. Vale a pena comprar o desafio em busca da textura perfeita. Veja no post da receita: Crème Brûlée Tradicional.