De Itaparica a Salvador sob os ventos de Iansã

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img_9836Despediu-se da ilha pela segunda vez. Novamente teve a sensação de que voltaria. Subiu no catamarã confiante em seu sexto sentido e partiu sem a melancolia da saudade. Ao contrário, o corpo balançava nas marolas de boas lembranças, que embalaram o seu sorriso até Salvador. Quando estava na ilha, podia avistar toda aquela grande baía de longe. Engraçado, de Salvador, nada via da ilha, nem sequer seus veleiros lambendo despretensiosamente a maré cheia. Esperou o vendedor de castanha descer da plataforma para, finalmente, fincar pés na Cidade Baixa. Procurava por seus amados poetas, precisava alimentar a alma. Dividida entre Caymmi, Vinicius e Amado, titubeou os dedos do seu pensamento num “uni-duni-tê” imaginário. Brincadeira de criança no mundo dos adultos enquanto rumava à Cidade Alta. Escolheu o Rio Vermelho. Rua Alagoinhas, número 33. Entrava na casa de Jorge Amado.

Encontrou a máquina de escrever do escritor já aquecida pela luz que entrava pela janela. Seus óculos, suas anotações… Elas descansavam bem ao lado. Dali vinham as bebedeiras de Quincas, a malemolência de Vadinho, as receitas de Dona Flor, a rebeldia de Tieta. Corações profundos, como os de muitos naquela sala, pensou. Levantou o olhar e observou os símbolos dos orixás espalhados pelo ambiente, azulejos para Oxóssi e para Iemanjá vindos dos pincéis de Carybé. Imortais. Todos eles.

Ao contrário de Jorge Amado, desconhecia de qual era filha. Ficou com isso na cabeça ao seguir caminho. Já era hora de procurar as melodias de Dorival Caymmi. Chegou ao Elevador Lacerda, subiu ao centro histórico e cruzou o Pelourinho. Tinha compasso nos seus passos, o que chamou a atenção de uma baiana daquelas bem típicas descritas nas canções, pronta para abordar turistas com colares de miçangas e badulaques à venda. Na primeira levantada de braço, a sorridente personagem baiana puxou a fita vermelha de Nosso Senhor do Bonfim grifado em preto e amarrou no braço da heroína distraída: faço aqui três pedidos para você. Só coisa boa, mas não conte a ninguém. Quem faz o bem merece o bem.”

Ela, sem reação pela rápida e inesperada abordagem, abriu um sorroriso, abraçou a baiana. Pois bem, comprou dois colares, mera boa fé. Continuou a toada pela poesia malemolente de “amor dendê”, como gosta de chamar e, assim, desceu a ladeira e pediu um táxi. Tinha um novo encontro, agora com Vinícius de Moraes, sua terceira inspiração.

O sol a pino batia forte em Itapoã. Nem que não quisesse lembrar da folclórica tarde de Vina e Toquinho naquela praia, todos cantarolavam a famosa bossa pela orla. Pareciam figurinhas de uma praiana caixinha de música, pensou. Uma única música que se repetia incansavelmente na boca de quem passasse, assim como o vai-e-vem das ondas. Com a canção sem sair da mente, a moça trançou os cabelos e pediu a bênção ao mar, ao sol, a Vinícius, a Toquinho… Pediu licença também, pois sua tarde não seria em Itapoã. Estava comprometida com o poente no Farol da Barra, onde os barquinhos são carregados pela tarde que cai (parafraseando outra das boas bossas). “Eis o pôr do sol mais bonito de Salvador!”, frase esta que jamais sairá da cabeça e dos olhos.

Ainda sob o suspiro vespertino, sentou-se à mesinha de madeira de um boteco de viela. As bandeirolas de São João a observavam enquanto brincava com a fitinha no braço. “És filha de Iansã, moça! Por isso ganhou essa cor de fita!”, exclamou o guia turístico que passava pela calçada e se encantou pela cena. Naquela hora, as bandeirolas se arrepiaram e começaram a dançar intensamente. Gotas gordas de chuva caíram do céu. Enquanto todos corriam para dentro do boteco, ela continuou a ouvir o homem à sua frente: “Viu só?”, apontou para o alto.

“Iansã é a força dos ventos, o poder da natureza, e aquela que surge quando o céu se precipita em água e ventania. É a garra, a independência e a força feminina. O seu nome significa ‘A mãe do Entardecer’, bela como o pôr do sol. Mulher guerreira, ela acompanha os mais fortes nas batalhas, não nasceu para ficar em casa cuidando do lar. Seus filhos são livres, viajantes… Buscam a natureza, alimentam-se dos pores do sol. Por isso, há tantos quem se magoam por eles, mas há mais daqueles que se encantem. Sedutores, filhos e filhas de Iansã apaixonam-se com frequência, contudo entregam-se fielmente ao amor quando o encontra.”

Lua

Ao ponto final da resenha do guia, vento e chuva pararam. As bandeirinhas de São João não se perderam, pelo contrário, voltaram a observar a filha de Iansã. A noite chegou com lua forte, coroando o início das festividades juninas. Inquieta com a repentina saída do guia no meio desse mistério que sempre envolve o ar da Bahia, levantou-se e caminhou em direção ao ponto mais alto da cidade. Sabia agora que era Iansã o tempo todo ao seu lado. Destemida, esticou-se nas pontas dos pés e inclinou o corpo para frente no para-peito do mirante. Tentava mesmo era enxergar as luzes do outro lado do mar. Hora essa quando uma ventania inesperada passou a balançar toda a ilha, lá do outro lado. Foi assim que coqueiros, veleiros e olhares miraram Salvador.

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01d81d0c03c53d3ef6e3078641209435b857c52e85Esqueça o acarajé por um momento quando estiver em Salvador. Se passar pelo boêmio bairro do Rio Vermelho, tenha a aprazível oportunidade de conhecer o restaurante Dona Mariquita, um dos responsáveis de revolucionar todo aquele bairro tão enaltecido por Jorge Amado e Zélia Gattai. No Dona Mariquita você pode experimentar comidas típicas regionais servidas nas feiras livres da Bahia, comida de rua, comida de raiz, porque Dona Mariquita faz questão de resgatar receitas e ingredientes originais, trazendo do recôncavo da Bahia mariscos, sementes e folhas, dádivas das influências indígenas, africana e sertaneja. O resultado é o verdadeiro sabor da comida baiana. No caso, meu preferido é a maniçoba, que usa como base a maniva – a folha da mandioca – e é uma das receitas queridinhas da culinária das regiões Norte e Nordeste. Na Bahia, uma das cidades mais conhecidas pelo preparo da iguaria é Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Confira a receita aqui neste post: Maniçoba do Recôncavo Baiano.