Ventos de lavanda

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Lavandário (28)O inverno tem teimado em ir embora. Enquanto o vai-e-vem da garoa fria refresca as calçadas primaverais, o ar mais fresco tem levado minha mente àqueles campos de lavanda de agosto último, de quando o ar gelado das montanhas cortava os cabelos que tentavam proteger o pescoço, mas, ao mesmo tempo, injetava o adocicado perfume daquelas flores lilás nas narinas.

Já sentiu o cheiro de um campo de lavanda em flor? É inesquecível. Se eu tentar de alguma forma descreve-lo em poucas linhas, talvez diria que é o sumo de lembranças maceradas entre o perfume de alguém e a roupa de cama bem passada de casa de vó.

“Arbusto da nostalgia”, apelidei para resumir. O que não tem nada de ruim nisso, antes que a ortodoxia do mindfulness comece a discursar. Saudade pode até não ter cura (nem pontinho para as agulhas de acupuntura), mas também não costuma matar. Pelo menos, é o que dizem.

No lavandário, procurei o ponto mais alto. Dava em um lindo mirante. Lá no alto das montanhas, o vendaval de lembranças calou a manhã. Eu bem que tentava prestar atenção na minha respiração, no mandrake desejo de voltar ao tempo presente. Ah, mas as lavandas me carregavam novamente para o transe nostálgico, ora para 10 anos de idade, ora para 10 meses atrás.

É bom ficar sozinho, muito bom. É quando a gente aprende a se amar – sim, pra amar qualquer coisa é preciso aprender. Se não reparou nisso ainda, repare e tente parar de buscar respostas prontas feito comprimido de aspirina. Passei umas duas horas ali no meu canto. Revirei instantes como se olhasse fotografias instantâneas, tipo Polaroid anos 70. Sorri momentos, lacrimejei outros. Tive boas ideias. Perdoei tanta gente. Abracei quase a minha vida inteira. Ao menos tentei. Masquei 3.459 vezes o meu chiclete. Mentira! Eu não contei as mascadas, mas quase engasguei com ele, tamanho era o meu esquecimento de qualquer coisa fora de mim.

Lavandário (20)Quando despertei a mente, olhei para o lado e vi a minha amiga ainda viajando pelos campos de lavanda. Olhar penetrante para o horizonte. Lembrei-me de uma bonita história que ela tinha me contado uma vez, sobre a letra de música que tem tatuada na perna. Era para registrar a última lembrança que tinha dos pais felizes ainda casados. “Estávamos em uma viagem e cantavam essa música de mãos dadas, felizes”, dizia.

Como no lavandário fazia frio, a tatuagem ficou escondida sob a calça. Pensei com os meus botões, que seria impossível, naquele momento, ela enxergar a boa lembrança. Olhei, então, para todo o lilás pintado a minha frente. Pois é… Lá estava a Primavera invadindo o Inverno com suas nostálgicas lavandas, arrastando tatuagens, retratos e lençóis.

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O Lavandário é um dos principais pontos turísticos da cidade de Cunha, no interior de São Paulo.  Vale a visita pelo inesquecível perfume e a incrível vista. No entanto, como infraestrutura turística não tem nada surpreendente. Ok, dá para comprar os produtos feitos a partir da essência da planta, fazer cursos, comer doces e salgados com pétalas da própria, mas vá sem grandes expectativas. Apenas preparado para inspirações e meditações.

Sendo assim, recordando a minha vivência, criei uma receita de mousse branco aveludado feito à base de brigadeiro de lavanda. É um sabor bem delicado, acreditem. Ah, e ela pode “virar” sorvete. Espero que gostem. A receita você encontra neste post: Mousse de brigadeiro branco com pétalas de lavanda.