De Maboneng a Soweto: a festa que não nos convidaram, mas a gente entrou

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Descemos em frente ao restaurante PataPata no badaladinho bairro de Maboneng de um Audi A6, via Uber Black. Três horas depois, com gin e vinho locais na cabeça, o profundo sentimento de que não fomos convidados para aquela festa não tinha passado. Joanesburgo é assim. Uma cidade profundamente interessante, mas que poucos estrangeiros se interessam em passar muito tempo. O motivo é simples, é uma cidade que não foi feita para turistas, como Cape Town. “This is Joburg, man!”, ninguém vai te bajular, a balada não foi feita para você e ninguém vai garantir a sua segurança física pelas ruas.Luvuyo, seu VW e a gente

Sendo assim, o que acalentou a noite foi a excelente banda que tocava reggaes clássicos no PataPata, transfigurado em bar-balada, depois das 19h, pela meia-luz e pelas velas sobre a mesa. Na saída, então, pedimos um Uber comum e foi, assim, que entramos no VW Polo do até então desconhecido Luvuyo, nosso anfitrião na África do Sul. Ele além de nos “colocar na festa”, também nos mostrou muito além do turismo corriqueiro sul-africano. Como o da famigerada rua Vilazaki, no subúrbio negro de Soweto, onde morou Nelson Mandela e berço do movimento liderado por ele, que culminou com a sua chegada ao poder em 1994.

Digo isso porque na ruazinha atrás da Vilazaki estava estacionado um Peugeot 404 (da década de 1960), com dois senhores batendo papo. Luvuyo contava sobre o massacre do hoje chamado “Levante de Soweto”, que aconteceu no dia 16 de junho de 1976 (vejamos, completariam-se 40 anos dali 2 dias), quando os avistou: “Meus Deus, vocês têm muita sorte! Aquele é o meu avô. Ele estava naquele dia, ele é uma lenda por aqui, é parte da história do meu país”.

 

E conhecemos aquele simpático senhor, nitidamente orgulhoso de seu neto e de sobreviver ao tiro levado no fatídico dia. Com toda razão. Por tudo o que lutou, hoje, Luvuyo é um rapaz de 26 anos que entende que, mesmo que o Apartheid tenha acabado no papel, é preciso continuar a luta cultural por meio da Educação, para que as próximas gerações possam sequer lembrar dos anos de segregação racial.

Luvuyo foi o nosso guia por adoção bilateral, digamos. Amizade cativada pela pura empatia desde o primeiro momento que entramos naquele VW em Maboneng. Como queríamos conhecer a alma da África do Sul – e ele sabia toda a complexidade da palavra alma – antes de nos levar à tal Rua Vilazaki, onde fica a antiga casa de Mandela, apresentou-nos um projeto social na comunidade de Kliptown. Provavelmente, você nunca tenha ouvido falar nela. Vou explicar-lhe o por quê. Kliptown não tem casa de Mandela ou lojinhas com camisas da Seleção sul-africana, muito menos trocentos turistas fazendo selfies. Em outras palavras, para que interesse político em Kliptown se não há olhares internacionais?

 

O Marketing  “Nelson Mandela” rende muito mais dinheiro aos cofres públicos do que aquele terreno baldio com cerca de 25 mil pessoas, estas que dividem-se entre os pequenos casebres, feitos com restos de material de construção, e que compartilham banheiros químicos mais limpos do que o de muitos lares por aí. E, assim, fora dos holofotes, forma-se ali a nova geração pós-apartheid. Jovens carentes assistidos por aqueles que ainda acreditam na Educação como a única forma de sair de condições precárias abrangendo miséria, drogas e AIDS.

Nesta inesperada visita, conhecemos outro personagem desta História recente. De fronte a um aviso de que era permitido ficar apenas 20 minutos no Facebook, um dos professores do centro de inclusão social KYP – Kliptown Youth Program – e amigo de Luvuyo – deu um show do que chamo de “coerência de vida”. “Quando chegar ao topo, mande o elevador de volta, assim, você poderá ajudar outros a subir e não se esquecerá de onde veio”. Sabedoria de um negro africano que não carrega ódio do mundo. Ao contrário, leva o mundo até a comunidade por meio da Internet. Ele é professor de informática e mostrava com orgulho os computadores que receberam com as doações.

Por insistência de Luvuyo, no fim daquele dia, visitamos o imponente monumento que os colonizadores holandeses construíram na entrada de Pretoria, cidade vizinha a Joanesburgo. Enorme. À porta, uma mãe holandesa e seus filhos. Foram exatamente os herdeiros dessa colonização branca que criaram o Apartheid. E vai geração para diluir tudo isso. Mas confio no filho de Luvuyo, nos alunos de Kliptown e em qualquer outro como nós, que dá um abraço apertado no amigo de outras terras e enxuga os olhos na hora de falar tchau ao lembrar daquele incrível dia, que acabou com um lindo entardecer no ponto mais alto da região. Um presente holandês à África do Sul, vejamos desta forma.

Lá do alto, recapitulei a minha passagem pela África do Sul, bem longe de Cape Town, e olhando para o por do sol lembrei-me da noite em Maboneng, do mais lindo Jardim Botânico que já vi na vida (Walter Sisulu National Botanical Gardens, em Roodepoort) e das horas que passamos pela região das Cavernas de Sterkfontein, considerada o berço da humanidade por ser onde encontraram exemplares fósseis de Australopithecus africanus. Essa espécie de hominídeo, que viveu entre 2 e 3 milhões de anos atrás durante o período conhecido como Pleistoceno, assopra no nosso ouvido a simples mensagem: viemos todos do mesmo lugar.

 

Viemos todos do mesmo lugar e viagens como esta nos ensina o quanto nossa caminhada também é junta. Kliptown nos mudou. A gente mudou Luvuyo. E sabe-se lá o quanto isso irá se refletir daqui para frente, nas duas vias. No meio de um de nossos passeios, nosso anfitrião sul-africano nos confessou que nosso feliz encontro o fez tomar a decisão de virar guia turístico independente. “Quero oferecer roteiros diferenciados, para pessoas como vocês”. O que dizer a ele? Escolha as estradas, Luvuyo… A gente garante a trilha-sonora e as boas risadas na memória de Joburg.

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Brownie com shot de Amarula do PataPataBons restaurantes não faltam em Joanesburgo e pudemos conhecer alguns deles. Os que ficaram na memória foram o The Local Grill, que grelha as carnes sobre placas de sal rosa do Himalaia; o The Big Mouth, com comida japonesa criativa e por incrível que pareça um dos melhores cheesecakes que comi na vida (de pasta de amendoim); e, claro, o PataPata, este com o melhor brownie de chocolate da vida, servido com um shot de Amarula despejado sobre toda a sua gostosura e que passo a receita aqui (ah, fica a observação que visitamos o Jamie’s Italian, do famoso Jamie Oliver, e nos decepcionamos com sua comida estilo “enlatada”).

FOTOS: Priscila Dal Poggetto, Fernando Ferraz, Cristiane Ventura e Maurício Dal Poggetto