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Becos de Paris

Carreiras de cocaína muito bem formadas nas coxas dos jovens de calças jeans, que deliravam de euforia sentados em um banco na frente da catedral Notre Dame. Esta não é uma das cenas mais poéticas do mundo, ainda mais ao considerar que a praça fica cheia de ratos nesse horário. Não passava muito das 23h e não deixava de ser Paris.

Quando deparei-me com esse ritual aparentemente corriqueiro, lembrei-me das biografias de tantos escritores e artistas que se embriagavam com absinto ou mergulhavam na viagem do ópio causando espanto semelhante na época. Outros tempos, outras drogas e outros poemas, na cidade que também foi palco do assassinato de uma princesa.

Por isso, é impossível pensar em Paris sem recordar de suas calçadas. A cidade tem que ser conhecida a pé, pois nenhum detalhe pode passar correndo pela janela de um carro. Como toda cidade, ela tem seus truques. Prefiro referir-me assim aos seus versos tortos, como se fossem obras de um ilusionista ou poeta embriagado.

Um pouco à frente do tal santuário de jovens drogados fica outro “truque” da cidade. É aquele jardim estrategicamente escondido atrás da Notre Dame, onde é comum ver casais, crianças correndo e idosos passeando entre petúnias e tulipas. Na saída (ou entrada, se você vem da direção oposta à igreja), é onde fica a famosa Ponte dos Cadeados, sobre o rio Sena. Os apaixonados prendem cadeados na grade de proteção como símbolo do amor eterno. Obviamente, de tempos em tempos, a prefeitura tira tudo. Haja espaço para tanto amor com esta leitura moderna das antigas inscrições de coração cravadas a canivete nas árvores.

Entre esta e outras drogas, um “entorpecente” muito comum em cantos nem tão escondidos das ruas parisienses são as vendas de queijo. Normalmente, lojas bem arrumadinhas que só vendem a iguaria — na Europa, queijo sempre é uma delicatessen. E foi no bairro mais boêmio e sujo de Paris, Monmatre, onde fica a famosa basílica Sacré Coeur, onde descobri uma casa especializada em queijo de cabra.

Jovem desenha a Catedral Sacré Coeur

Porém, até chegar ao comércio local, nesta trilha escada abaixo da Sacré Coeur mais outros truques me seduziram a atenção. Fiquei encantada pelo jovem que reproduzia a igreja em profundos e silenciosos traços azuis e pelo perfume de manjericão que saía de uma cantina italiana. Quando me dei conta, já estava na porta do Moulin Rouge — aquele cabaré adorado por Toulouse-Lautrec que hoje em dia de cabaré não tem muita coisa, a não ser as dançarinas de can can que se apresentam em shows de mais de 100 euros.

Só que neste truque de marketing eu não caí e continuei minha busca por um bom queijo. Finalmente, deparei-me com a “Fromagerie Bocquet – Les fromages de Marie”. Não faço ideia de quem seja a tal da “Maria”, dona dos queijos, só sei que a seleção “dela” é simplesmente sensacional. Marie divide as variedades de queijo de cabra por região da França. É um tal de apontar o dedo para a vitrine e perguntar sobre texturas e sabores que você acaba se esquecendo de querer saber qual é a história da Marie. Escolhi um da região Norte do país, de sabor marcante, bem acentuado.

Com a “gourmandise” embrulhada em um papel de seda, voltei à caminhada. Sem cerimônias, desfiz o pacote e saboreei o pedaço de queijo. Os  meus dentes começaram a acompanhar o ritmo dos meus passos. Em poucos minutos, bem alí no quarteirão à frente, eu também me tornara um truque de Paris.

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“Les Fromages de Marie”, fica na rue des Abbesses, 32, XVIIIe. Abaixo, publico a receita de um quiche de queijo de cabra, que se não quiser fazer, pode experimentar um muito semelhante no restaurante La Tartine, em São Paulo. Toda vez que tenho saudade de Paris, vou até o bistrô de preço justo que fica na Rua Fernando de Albuquerque, 267, Consolação. Só tente ir cedo, porque a fila é grande.

Les fromages de Marie fica na rue des Abbesses