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Loja de

Loja de “weeds” em Vancouver

O traje era de mendigo, cabelo sujo e sem sapatos. Ele avistou a bela morena de longe e se apaixonou. Não teve dúvidas: acelerou o passo, atravessou a rua e devagar, para que a donzela não se assustasse, pendeu a cabeça para a direita e esticou o beiço. Ele só não conseguiu lascar um beijo daqueles na boca da minha amiga, totalmente distraída, porque a puxamos pelo braço aos berros. Ele sorriu, deu as costas e foi embora.

Andrea, a musa do mendigo e a dona do melhor brownie do mundo

Andrea, a musa do mendigo e a dona do melhor brownie do mundo

O romance platônico de segundos foi uma daquelas situações bizarras que sempre acompanham os viajantes, mas devo admitir que essa surpreendeu até mesmo os mais escolados. Vancouver, a capital do Estado da Colúmbia Britânica, no Canadá, é a cidade propícia para encontrar figuras memoráveis, como a senhora que passeia tranquila ninando um pato confortavelmente acomodado em um carrinho de bebê (sim, um pato de verdade e vivo, não é o pato Donald de pelúcia) ou um malandro de moletom que leva um rato no capuz. Claro, nada se compara ao mendigo romântico que perambula nas proximidades da Granville Street.

Yes, it’s Vancouver, baby.  Uma cidade linda, arborizada, de sol intenso no verão, segura, mas que sofre por causa das drogas. Sem dúvida, qualquer estrangeiro que passe por suas ruas vai rir da peculiaridade dessas pessoas, mas o que se vê, na verdade, é o reflexo de uma sociedade onde tudo está bom, “só que não”.

Dia ensolarado na bela Vancouver em fim de verão

Dia ensolarado na bela Vancouver em fim de verão

É muito fácil comprar drogas em Vancouver. Os vendedores passam de bicicleta ou a pé e sussurram a palavra “weed” no seu ouvido (erva, em inglês). Com eles, você compra de haxixe a heroína sem a menor dificuldade. Já a maconha é parcialmente liberada e um hábito desmistificado. Na cidade, existem bancos de semente, onde você pode plantar a sua muda e lojinhas que vendem diversas iguarias com a erva, os míticos bolinhos são os mais populares.

Se por um lado, quebra-se boa parte do processo de tráfico de drogas, por outro, é triste ver garotas e garotos tão jovens, bonitos e de boa família largados na calçada, estendendo a mão por centavos. Fora os mais velhos, que além de drogados têm Aids e já nenhuma esperança de recuperação. Uma vida com a mesma cor dos cartazes de papelão que eles esticam para dizer aos gringos que estão doentes. Acredite, mesmo quem já está “acostumado” com as ruas da cracolândia paulistana, vai se espantar com tanta gente pedindo dinheiro em Vancouver para comprar drogas.

Harbour Centre, onde o restaurante gira

Harbour Centre, onde o restaurante gira

Apesar de tudo isso, a cidade canadense inspira pela liberdade de escolha. A filosofia é “faça o que quiser da sua vida desde que não atrapalhe os outros”. Tirando o mendigo romântico, ninguém te aborda, ninguém te furta e ninguém enfia uma arma na sua cara. Quem não atravessa a rua na faixa de pedestres, é multado, inclusive.

As pessoas em Vancouver dão uma aula de como viver em comunidade e de respeito ao próximo. Não há notícia de ninguém colocando fogo em índio ou batendo em homossexuais. É um lugar onde todo mundo convive junto e sem preconceito.

A rua mais divertida da cidade é a Robson St. Encontra-se de tudo e é um ótimo lugar para comer e fazer compras. Na Starbucks, por exemplo, há uma bebida sazonal de abóbora. Estive lá em setembro e experimentei as duas versões, frapê e quente, enquanto observava a pose elegante de um senhor de cabelos totalmente brancos e, aparentemente, normal — a não ser pelos sapatos envernizados de salto alto.

Outro lugar interessante na rua é a Daniel, no número 1.105, uma loja só de chocolates. Eles têm de tudo, bolinhos, barras em pedaços, caixas de bombons e maçã do amor. Dá vontade de comer a loja inteira, mas se quiser levar alguma coisa sem que derreta, procure as latinhas com chocolate em pó e pedaços de marshmallow. É só misturar no leite quente.

Vista do alto do Harbour Centre

Vista do alto do Harbour Centre

Outra especialidade local são os frutos do mar e as caras patas de king crab. É possível degustar os pratos caprichados no restaurante do Harbour Centre. Ele fica no alto de uma torre de 130 metros de altura que você sobe em 40 segundos. O legal é que é um restaurante com visão panorâmica da cidade, que fica girando. Uma surpresa de mal gosto para quem tem labirintite, mas um passeio bem diferente para quem consegue comer enquanto roda sem ficar enjoado. Não foi o caso da minha amiga, que quebrou o coração do figura na manhã daquele dia. Ela não gostou muito do movimento do restaurante, mas nos rendeu boas risadas para o resto da viagem.

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Em homenagem aos beijoqueiros e ao chocolate canadense, passo aqui uma receita especial do melhor brownie que eu já comi na minha vida. Não vai nenhum tipo de castanha nele, o que o deixa com uma textura única. Quem me passou esta receita foi a minha amiga/irmã Andrea – aquela que conquistou o mendigo. Toda vez que eu volto de viagem, ela me recebe com este bolo ♥

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