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Regra número 1 do viajante: mesmo na certeza, sempre pergunte a um local. Regra número 1 anexo 1: no México, a regra número 1 sempre dá certo.

A salsa
Perguntei a um habitante local onde os mexicanos se divertiam em Cancun.  Obviamente, a resposta voltou-se ao centro velho da cidade, local bem longe de onde turista comum gosta de olhar. Segundo ele, era a melhor casa de salsa de Cancun. Luzes piscantes em azul e vermelho. Uma pista de dança no alto, como se fosse um palco. Mesas ao redor. Casais, amigas em despedida de solteira e amantes de salsa. Todos se aconchegavam entre uma marguerita e uma dose de tequila até a música começar.

O ritmo contagiante invadiu o Mambo Café com os primeiros acordes dos músicos afinados. Enquanto isso, as doses da aguardente de agave me davam coragem para “bailar”. E deixo claro que tequila de mexicano mesmo não tem nem limão e nem sal, artimanhas de americano para amenizar a passagem pelo esôfago. Tequila no Mambo Café escorre pela garganta na raça — e sem deixar lágrima desabar de canto de olho.

O mar de Cancún (Foto: Priscila Dal Poggetto)

O mar de Cancún (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Respirei fundo, tomei coragem e subi ao palco naquele gingado de quem só samba (nem tanto assim também, assumo). Lembrei-me das aulas de um venezuelano que conheci em São Paulo, no Azucar, uma balada de salsa em moda quando eu tinha uns vinte e poucos anos. Entre um passo e outro ele dizia: “menina, os ombros têm que ser firmes na salsa. Essa mania de se mexer toda é coisa de brasileira, é samba.”

Mesmo fiscalizando os meus ombros animados, diverti-me como nunca entre mexicanos, venezuelanos e colombianos. No fim, a salsa com samba quase virou lambada. Não importa. Vivi a balada “de mexicano mesmo”, que só descobri porque queria fugir de qualquer lugar em Cancún feito para turista.

Plaza Luis Cabrera, na Zona Rosa, Cidade do México (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Plaza Luis Cabrera, na Zona Rosa, Cidade do México (Foto: Priscila Dal Poggetto)

A quesadilla
No dia seguinte, peguei um voo para a Cidade do México. Faminta, de ressaca e sem a mala – extraviada para São Paulo -, cheguei ao meu hotel no bairro Zona Rosa totalmente transtornada. Passava da meia-noite. Nenhum restaurante ou bar aberto (de tantos que existem por lá) e a única informação que eu tinha após brigar horas com a companhia aérea era a de que a capital mexicana é perigosa. Uma benção, não?

Com o maior mau humor do mundo, conheci José (leia em espanhol, por favor), o taxista do aeroporto. Ele passou os 30 minutos da corrida me convencendo de que aquele bairro era o único seguro da cidade, por concentrar os consulados. Deu a dica de que ali perto, uma rua abaixo, eu encontraria um tenda de quesadillas, uma das melhores da cidade. Acreditei. Sozinha, na noite mexicana, desci a tal da rua. Passei por bêbados, moleques suspeitos, mais bêbados, até que achei uma casinha bem feia e detonada, de paredes cinzas, iluminadas por uma luz amarela, com uma portinha pequena escancarada. Na calçada, mesas de metal vermelhas convidavam quem passava a se sentar naquela noite quente.

Bandeira mexicana no Zócalo (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Bandeira mexicana no Zócalo (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Uma senhora mexicana gordinha te atendia e fazia as quesadillas, auxiliada por uma outra mulher. Elas riam e falavam alto, brincavam com os conhecidos. A comidinha de rua virou uma das experiências gastronômicas mais interessantes que já vivi. Tinham várias opções de sabores, mas comi as clássicas, de queijo e de carne com queijo. Refrigerante, era aquele de garrafinha. Para fechar a noite, molho de pimenta bem do jeito que mexicano gosta — mais do que baiano, por sinal.

Eu estava no paraíso. Na primeira mordida o humor mudou. Voltei a sorrir e a esquecer de que, na volta, teria que lavar minha roupa na pia e secar com secador. Ao menos, a companhia aérea forneceu uma esmola para comprar escova de dente, pasta e desodorante.

A ‘macumba’
Tinha combinado com José um preço fechado para ele me levar na manhã seguinte até as pirâmides do Sol e da Lua, um complexo asteca na região da Cidade do México. Cheguei antes do amanhecer, dormi bem pouco. Mas valeu a pena. A magia do sol nascendo e da lua sendo gentilmente ocultada no céu pela claridade do dia faz você entender o poder dos povos pré-colombianos e mergulhar de certa forma na magia espiritual deles.

Pirâmides do Sol e da Lua (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Pirâmides do Sol e da Lua (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Não é por acaso que os espanhóis construíram uma nova cidade e, mesmo assim, a capital do império asteca nunca foi destruída. Está lá, sob a terra. A última escavação na praça central da Cidade do México, chamada de “el Zócalo”, eu pude presenciar. Ao lado da Catedral Metropolitana da Cidade do México, uma construção de metrô teve de ser interrompida após descobrirem rico material arqueológico.

Além das construções, os rituais “pagãos” continuam sendo feitos, ali mesmo, no meio da praça e sobre tanta história enterrada. Da porta da catedral, observei de longe um mexicano alto, troncudo e bigodudo que recebia um banho de fumaça de uma senhora nem tão velha, mas bem enrugada. Ele abria os braços, enquanto ela jogava palavras através da nuvem esbranquiçada.

Ritual no Zócalo (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Ritual no Zócalo (Foto: Priscila Dal Poggetto)

A pimenta
Era meu último dia no México, mas declinei a vivência da fumaça oferecida pela senhora. Optei mesmo pelo ritual de empurrar carrinho no supermercado, onde virei perseguidora de pessoas em prateleiras. Como eu ia saber qual era o melhor concentrado de pimenta entre tantas opções? Poderia perguntar a um mexicano, mas precisava de uma pesquisa mais séria: ver qual a pimenta tinha mais adeptos.

Observada a marca e o comentário do marido para a esposa, “só gosto desta aqui”, comprei três potinhos da El Yucateco, com grau escalonado de ardor, da forte, passando pela extra forte até a extra extra extra forte (está escrito XXXtra no vidrinho).  Como eu já disse, sempre pergunte a um mexicano (ou os persiga).

***

Nem preciso dizer que a receita que indico são as das quesadillas. A massa é muito fácil, mas dá pra comprar as prontas no supermercado. O segredo aqui está no recheio, uma invenção minha inspirada no que pude experimentar neste país apimentado em tradições e sabores. Confira no post da receita.