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Homenagem à princesa Diana em frente ao Palácio de Buckingham (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Homenagem à princesa Diana em frente ao Palácio de Buckingham (Foto: Priscila Dal Poggetto)

– A bottle of water, please?
– What?
– Water…
– What?
– I’d like a bottle of water?
– Ah, “wáta”, no “warer”.
– Isso mesmo, inglês ridículo que me entendeu perfeitamente.

Esta é, naturalmente, a primeira reação de qualquer estrangeiro com inglês americanizado que tenta comprar água em Londres. Eles te entendem, te alopram e você fica com cara de gringo tonto (ok, pleonasmo clássico). Mas tudo pode piorar na terra do chá das cinco. Passei (algumas situações foram de amigos, mas eu estava presente, confesso) por pequenas experiências as quais relato aqui o irônico bom humor londrino, o qual demorei dois anos para digerir e respeitar (no fim, eles amam todo mundo). Para facilitar a vida, compilei orientações preciosas de “como ser menos aloprado em Londres”.

Ao comprar água
Bom, como já expliquei, “wáta” e não “warer”. Mas isso não tem muito jeito, eles nunca vão aceitar sotaques e eternamente aloprarão gente da mesma raiz, sejam irlandeses, americanos, escoceses etc.

Double deck (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Double deck (Foto: Priscila Dal Poggetto)

No double deck
Os ônibus coletivos de dois andares são mesmo o máximo. Mas ao entrar em um deles, leve dinheiro trocado e, por favor, não ache que você está no busão da escola para ficar de joelho sobre o assento conversando com os amigos do banco de trás. No double deck tem que sentar bonitinho. Malandro que fica em pé faz o ônibus parar e toma trolada do motorista.

Na Abbey Road
Desencane. Você vai parar para fazer a pose dos Beatles e eles vão buzinar, xingar e ameaçar a jogar o carro. Sim, é um ponto turístico, mas quem está atrasado para ir ao médico se esquece de que seria muito melhor pegar outra rua. Tire os sapatos, as meias, faça a pose e sorria para a foto.

Ao alugar uma bicicleta
Jamais faça isso à noite. London by Night é muito perigosa para ciclistas. Uma, porque desacostumados com a mão inglesa podem pedalar em direção a um double deck (não vou mencionar a aloprada do motorista). Duas, porque existem imigrantes espalhados pela noite que vão querer roubar a sua bicicleta e te jogar no rio Tâmisa. Onde te alopram nisso tudo? Quando você pede ajuda para alguém ligar para a polícia e este alguém inglês fala para você ligar do seu celular. Sim, aquele que te roubaram junto com a bicicleta e o relógio.

Abbey Road, mas com tênis (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Abbey Road, mas com tênis (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Ao beber na balada de um hostel
Nunca aceite drinks promocionais que custam uma libra, especialmente uns azuis com gosto de algodão-doce ou aqueles de cor de catuaba. Apesar de parecerem inofensivos, ao misturar com vodka e absinto têm efeitos catastróficos. No dia seguinte, apesar de você tentar “keep walking”, vai parar no primeiro hospital que encontrar pela frente ou vomitar no meio do espetáculo da troca da guarda e não ver nada. “Disgusting”, eu diria, caso fosse inglesa.

Ao curar a ressaca em um hospital
Fale logo que está de ressaca. Porque quando a médica plantonista perceber que o seu problema não é uma infecção de ouvido, ela não vai te medicar e ainda te dar uma lição de moral “para você aprender a beber direito”. Sem dúvida, pode ser a pior aloprada da sua vida sobre sua vida.

Ao comprar bilhetes de teatro
Tudo bem que os pontos de vendas (para não dizer cambistas profissionais) ficam abertos até as 17h. Mas ofende muito se às 16h45 perguntar se ainda há ingressos para peças famosas como O Fantasma da Ópera ou Hamlet. Chegue um dia antes, por gentileza.

Guarda real (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Guarda real (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Ao tirar foto
Nunca, jamais fale para um português tirar foto de você com seus amigos em frente ao Palácio de Buckingham. É melhor pedir para um inglês e correr o risco de ser zoado até a próxima encarnação. O português vai se esforçar para fazer o melhor enquadramento. Pedirá um passo para esquerda, outro para a direita. Fará vocês dobrarem levemente os joelhos. Tudo para meter um close na cara de todos e descartar completamente o palácio ao fundo.

Defenda-se!
Você pode ignorar, ralhar, responder no seu idioma nativo ou simplesmente dar de ombros, mas eu aconselho ter o gostinho de gritar “Argentina!!!” e “Maradona!!!” na orelha deles e pagar de “yo soy argentino”. É muito injusto o mundo achar que somente os brasileiros são capazes de fazer tudo isso e ainda perguntar se o pub serve fish & chips.

Parafraseando Caetano: 'while my eyes go looking for flying saucers in the sky' (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Parafraseando Caetano: ‘while my eyes go looking for flying saucers in the sky’ (Foto: Priscila Dal Poggetto)

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A cara da garçonete de que “é óbvio que aqui tem fish & chips” não estragou o prazer gorduroso de comer esta especialidade britânica. Para se ter ideia, a iguaria é tão mais velha do que a Dama de Ferro, que Charles Dickens faz referência a um pub e ao prato em seu romance “Oliver Twist”, de 1838.

Príncipe Charles e os friers (NFFF/Reprodução/Divulgação)

Príncipe Charles e os friers (NFFF/Reprodução/Divulgação)

E essa cultura é tão importante na região que até uma associação foi fundada em 1903 por seus cozinheiros, os chamados “friers”, para manter a qualidade do prato. A National Federation of Fish Friers (NFFF) conta com mais de 8,5 mil associados. Se tiver a curiosidade, o site da entidade www.federationoffishfriers.co.uk traz premiações e cursos para quem quer profissionalismo.

Se você é um daqueles que detestam peixe e batata ou tudo isso, azar o seu. A receita da gordice está no outro post. Clique aqui.

Serviço

Em Londres
The Rock and Sole Plaice (faz o prato desde 1871)
47 Endell Street – Covent Garden

Em São Paulo
The Queen’s Head
Rua Tucambira, 163 – Pinheiros
O legal deste pub, além do som e da boa comida, é que ele fica dentro do prédio do Centro Britânico Brasileiro.