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Calçadão em Moscou e as flores nas mãos (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Calçadão em Moscou e as flores nas mãos (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Ao pisar em Moscou, o primeiro detalhe que qualquer turista não russo repara é que todo mundo carrega um buquê de flores na mão. Algo chocante para quem vive em São Paulo, por sinal.

#mentira: na verdade, a primeira coisa que se repara em Moscou é que os taxistas falam meia dúzia de asneiras (que você nunca entenderá) e que te largam no hotel errado de propósito, sem o menor apego. Só depois de descobrir que as passarelas são subterrâneas e de ter que cruzar o centro da cidade com a mala nas costas até achar o hotel certo é que você repara nos buquês.

Catedral de São Basílio (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Catedral de São Basílio (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Para onde olhar em Moscou haverá uma troca de flores. Nunca dei muito valor aos buquês, mas naquela cidade você destoa da paisagem sem um ramalhete na mão. As mais escolhidas são as rosas, mas as minhas preferidas, as tulipas, custam em rublos o equivalente a R$ 2. Um presente barato – tudo na Rússia é muito caro – e que colore as ruas envoltas pelos pálidos prédios em diversos tons terracota.

Ao contrário do que o “B” do Bric imagina, os russos de Moscou não são loiros e nem tão frios. É muito comum ver jovens casais apaixonados trocando declarações e carinhos em bancos de praças, nas monumentais estações de metrô e em restaurantes. Sempre com um buquê ao lado, claro. Paradoxalmente, eles são muito machistas. É por isso que as mulheres lá reclamam muito dos homens quando se casam e adoram um brasileiro disponível.

Moscou também não se limita à diferente catedral de São Basílio, aquela que parece um bolo de aniversário fincado na comunista Praça Vermelha. Compreender o russo é, sobretudo, percorrer o mundo subterrâneo de sua capital cortado pelos túneis do metrô.

Para qual estação quer ir? (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Para qual estação quer ir? (Foto: Priscila Dal Poggetto)

A começar pelo direito de ir e vir, um pouco deturpado, eu diria. As pessoas até têm o direito de voltar se desistiram do caminho inicial, desde que pegue um trem e pague outro bilhete. Isso porque pela porta que você entra na estação, não pode sair mais — mesmo se ainda não passou pela catraca. É obrigado a pegar o trem — escada rolante só anda em uma direção, a direção do trem. As baldeações são bem estranhas, por sinal, porque as estações se cruzam. Até hoje não entendi direito esta parte.

Máquina para comprar o bilhete do metrô (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Máquina para comprar o bilhete do metrô (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Mas enquanto você não saca a lógica russa, sem dúvida vai rodar e rodar, trocando de trens e descendo escadas sem volta até sair no mesmo lugar, só que em portas diferentes. E haja escada: as estações são tão profundas que algumas delas serviram de abrigo na II Guerra Mundial.

Ah, todas as placas são em cirílico. Achar o destino se resume a um jogo de mímicas com os russos, porque pouquíssimos falam inglês. Mas fique tranquilo, quando acertar a primeira estação vai conseguir entender o mapa do metrô.

Das estações, a mais interessante delas é a Revolutsii Station. Em uma de suas alas, ela exibe 76 estátuas que representam cidadãos e personalidades russas. Stalin ia tirá-las quando assumiu o país, porque nenhum herói podia ficar acima dele. Diz a lenda que quando o ditador viu as estátuas, desistiu. Durante a segunda guerra, elas foram levadas para os Urais para ficarem protegidas.

Passar a mão no focinho do cachorro de bronze dá sorte - é o que dizem (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Passar a mão no focinho do cachorro de bronze dá sorte – é o que dizem (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Quer ter sorte? Passe a mão no nariz da estátua do cão guarda. O focinho do coitado está até desgastado de tanta mão que passa por ele a cada segundo – os russos são muito supersticiosos. Mas se você quer especificamente sorte no amor, passe a mão no pé da estátua da estudante que carrega um livro. Acho que os russos são bem resolvidos com isso, porque o pé da coitada está inteiro. Na minha análise de pessoas e estátuas, as flores devem funcionar melhor.

***

O único prato autêntico soviético que achei em Moscou durante a peregrinação pelas estações foi uma sobremesa em uma italianíssima pizzaria, que fica em um largo, do lado oposto ao Teatro Bolshoi. Aliás teatro em russo é театр. A palavra foi um dos nossos aprendizados na língua local após pegar um trem no metrô da estação Teatralnaya e sair na porta lateral da mesma estação Teatralnaya, deparando-se com o Bolshoi mais uma vez.

Voltando à sobremesa, ela é chamada de blini, uma panqueca bem fininha feita de trigo sarraceno. A que eu experimentei era recheada de um creme de mascarpone, queijo cottage e calda de frutas vermelhas. Passo a receita no outro post (clique aqui). Desculpem-me, mas fui obrigada a inventar com base no que a garçonete tentou me dizer em inglês “russônico” — cirílico não é pra mim.

O magnífico Teatro Bolshoi (Foto: Priscila Dal Poggetto)

O magnífico Teatro Bolshoi (Foto: Priscila Dal Poggetto)