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Vitrine da loja do Willy Wonka russo (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Vitrine da loja do Willy Wonka russo (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Bonequinhas de madeira típicas do interior da Rússia (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Bonequinhas de madeira típicas do interior da Rússia (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Nunca torça o nariz para uma lembrança de viagem que ganhar, por menor, mais feia e sem uso que seja. Tenha certeza, deu trabalho comprar. Especialmente, se aquela bonequinha de madeira cheia de outras dentro tenha vindo da Rússia e não da lojinha de decoração do shopping da Zona Sul. Não que não seja divertido encontrar bugigangas inusitadas. Mas achar o lugar que explore menos o turista, fazer a conversão de moedas esquisitas (como rublo) para real de bate-pronto, achar o tamanho certo entre tanto “P”, “M” e “G” no mundo e carregar sacolas e sacolas com caixinhas, chaveiros e até garrafas de vodka dão um trabalho daqueles — não vou nem entrar no mérito da logística para socar tudo na mala ou no compartimento restrito de cabines de aviões e trens.

Enfim, tão ridículo e gringo quanto andar com um berimbau a tira-colo é trazer 350 cacarecos distribuídos nas vinte mãos que você não tem. Não estarei mentindo se disser que tremo de pavor toda vez que vejo uma matrioshka pela frente (a tal da bonequinha russa) mas, ao mesmo tempo, orgulho-me da tendinite adquirida toda vez que olho para aquela bela garrafa de vodka no armário de bebidas do meu pai.

A vodka mais charmosa do mundo (Foto: Priscila Dal Poggetto)

A vodka mais charmosa do mundo (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Por isso, defendo a teoria de que o presente deve ser entregue com um relatório anexado com a explicação de como aquele objeto foi comprado. Imagine quantas histórias um souvenir pode guardar. No caso da vodka do meu pai, por exemplo, não foi “só ir a um supermercado ou ao freeshop”. Eu descobri a vodka em uma incrível confeitaria em São Petersburgo.

O local parece uma filial da “Incrível Fábrica de Chocolate” da década de 1970, com abacaxis e pirulitos gigantes, vitrines repletas de bombons e balas e cadeirinhas fofas para se sentar. Tinha também o boneco de cera do fundador da fábrica acenando do alto para os clientes, muito mais amedrontador do que o senhor Wonka. E a vodka artesanal dentro de uma garrafa toda decorada foi transportada até o Brasil como uma joia de diamantes. Não deixa de ser uma preciosidade no mundo dos presentes de viajantes.

Além das vodkas, os chocolates desta loja (de nome que deixa pra lá) são incríveis. Tomei um expresso no local e pude experimentar uma bomba de chocolate perfeita antes de fazer a rapa nas guloseimas que ia dar de presente ou comer mesmo na volta. Doces bem diferentes dos que eu comprei no supermercado. Para começar, os chocolates russos industrializados têm mais gordura do que os da Pan. Na prateleira das guloseimas, então, esquisitices não faltavam. Entre elas,  bolinhas com casquinha açucarada que explodem dentro da boca e escorrem geleia de frutas vermelhas. Outra era um tipo de “maria-mole só que não” feita com iogurte — esta tem que comer gelada para ter um pouco de graça.

No alto o senhor Wonka russo de cera (Foto: Priscila Dal Poggetto)

No alto o senhor Wonka russo de cera (Foto: Priscila Dal Poggetto)

As vodkas “Wonka” – jamais vou conseguir pronunciar o nome desta loja (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Outro presente curioso foi o guarda-chuva infantil – com direito a apitinho vermelho pendurado – que a minha amiga comprou com o raio da matrioshka estampada. Ela encontrou o mimo em um camelô em frente à Praça Vermelha, ainda em Moscou, mas na primeira lojinha de São Petersburgo ela o reencontrou. A partir daí começou aquele malabarismo mental absurdo para não ver o preço e correr o risco de ficar furiosa por ter pago mais caro. Depois, veio a vontade de comprar um pra ela mesma. Os olhares reprovadores dos outros dois viajantes a convenceu do contrário. Conclusão, ela não deu o presente. Ficou com o guarda-chuva e, de vez em quando, fica apitando para matar a saudade da Rússia.

Moletom do Zenit (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Moletom do Zenit (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Já a passadinha na loja oficial do time de futebol local Zenit rendeu também um bom rombo no orçamento de viagem e uma hora de passeio perdida com a inigualável frase: “será que vai caber?”. Tem sempre alguém que ganha uma “japona” ou uma “baby look” com aquilo que era pra ser um simples e inocente moletom de passear no shopping.

E, para finalizar a viagem, entre tantas passarelas subterrâneas, camelôs e lojinhas, os locais na Rússia onde mais se oferecem badulaques para estrangeiros – e bem caros por sinal – são as igrejas ortodoxas. Nelas é possível encontrar de réplicas de ovos Fabergé de R$ 300 a bonequinhas de madeira de R$ 200. Se o seu negócio é levar santo para família, esqueça. Igrejas ortodoxas não trabalham com estátuas, aliás, elas são decoradas com magníficos mosaicos e pinturas. Não sou religiosa, mas sou apaixonada por arte e história. Meu conselho aqui é deixar as compras de lado e visitar todas as igrejas possíveis para se maravilhar com tanta relíquia histórica.

Interior da Catedral do Sangue Derramado, em São Petersburgo (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Interior da Catedral do Sangue Derramado, em São Petersburgo (Foto: Priscila Dal Poggetto)

A mais impressionante das que eu vi no país foi a Catedral do Sangue Derramado, em São Petersburgo, construída em 1883. Os mosaicos criados sobre os desenhos dos pintores russos Vasnetsov, Nesterov, Riabushkin e Kharlamov vão do chão às abóbodas. O nome da catedral é este por ter sido construída no exato local onde o imperador Czar Alexandre II foi assassinado. Na Segunda Guerra Mundial, os nazistas transformaram-na em depósito. O restauro só começou em 1970 e foi concluído em 1997.

Na parte de trás da catedral, há uma espécie de camelódromo. Quando estiquei a mão para pegar uns enfeites de Natal para presentear a minha mãe, comentei o quanto eles eram diferentes. Nisso, o dono da barraca abriu aquele sorriso e lançou em inglês: “Brasileiros? A gente adora brasileiros. Vocês gastam hoje tanto quanto os americanos gastavam quando eram ricos.” A imagem do Cristo Redentor decolando na capa da revista Time encerrou com chave de ouro a viagem “R” deste nosso BRIC, onde, meu caro vendedor russo, todo mundo é emergente.

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A receita desta parte da viagem fica para a incrível e francesa “éclair au chocolat” ou bomba de chocolate, em homenagem àquela degustada com muito garbo na loja da incrível fábrica de chocolate russa. Confira no post anterior ou clique aqui.

A Catedral do Sangue Derramado (Foto: Priscila Dal Poggetto)

A Catedral do Sangue Derramado (Foto: Priscila Dal Poggetto)