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Kusadasi, Turquia (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Kusadasi, Turquia (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Kusadasi é aquela típica cidade portuária que recebe muito turista em viagem de navio: é só colocar o pé em terra firme para um mundo de tapetes, artesanato e comidas típicas se abrir diante de seus olhos. A mistura de mel com objetos das Mil e Uma Noites ilude a maioria dos viajantes, mas jamais brasileiros de certidão com sangue italiano correndo pelas veias. A combinação turco + ítalo-brasileiro só poderia dar em presepada sem vendas, para qualquer comerciante amaldiçoar as próximas três gerações do “inimigo” sem dó.

Na Turquia tudo sempre começa em uma loja de tapetes. Fomos conduzidos pelo pessoal do navio até um lugar “de confiança”. Eu realmente queria ver tais obras de arte. O valor é elevado, é. Porém, justo — são fios de seda trabalhados em tear manual de acordo com a tradição oriental preservada há milênios. Difícil é achar os autênticos, mas estes eram mesmo “de confiança” (lição básica número um: o avesso é tão bem acabado quanto a parte da frente).

Kusadasi, Turquia (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Kusadasi, Turquia (Foto: Priscila Dal Poggetto)

O ritual para vendê-los vale o passeio, mesmo para quem não tenha um tostão sequer para comprar uma caixinha de chá. Ao entrar na loja, os turistas são levados a uma grande sala. As cadeiras ficam lado a lado encostadas na parede. Todos se sentam e, em seguida, recebem lindos copos com chá de maçã, servidos em uma delicada bandeja de prata.

Ao primeiro gole da saborosa bebida quente, um homem de cerca de 40 anos entra na sala e desenrola a primeira peça. Os olhos de todos brilhavam sedosamente com tantas cores e desenhos. Acompanhados dos goles, mais tapetes desenrolados no meio da sala e inúmeras explicações sobre técnicas e tradições.

Se no chá tivesse qualquer “aditivo” alcoólico, me esqueceria da desvantagem cambial e da minha falta de capital de giro e acabaria comprando uns três. Porém, no caso, a loja era honesta, o chá era só chá e o meu pai era meu vizinho de cadeira. Conclusão, saí sem nada mesmo.

Kusadasi, Turquia (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Kusadasi, Turquia (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Com aquele sentimento de Yasmin sem Aladim e sem tapete, saí empenhada em achar algo que me lembrasse da Turquia sem falir meus próximos 12 meses. Rendi-me às lojinhas do porto em busca de luminárias de vidro e caixas com marchetaria. Após pagar o vendedor, ele lançou a frase que mudou todo o passeio:

– Vou levá-los à loja de joias do meu primo, é “de confiança”. Lá vocês  podem comprar as “verdeiras” Zultanite por bom preço.

Essa pedra de tonalidade que muda entre verde e framboesa só é encontrada na região de Anatólia, na Turquia. É rara e existe apenas uma jazida. Nós já tínhamos visto exemplares autênticos em uma joalheria especializada próxima ao mercado. Um colar com essas gemas lapidadas não sai por menos de 30 mil euros. Obviamente, não aceitamos a sugestão, mas fomos “elegantemente acuados”.

Kusadasi, Turquia (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Kusadasi, Turquia (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Empurrados para dentro da loja, o primo picareta lançou um colar feio de chorar e o valor de 10 mil euros escrito sobre um pedaço de papel. Com a primeira negativa de compra, ele vai para 7 mil euros e mais um par de brincos. Segunda negativa, e ele baixa para 5 mil euros e traz um xícara de café. Não damos nem um gole e o valor cai para 2 mil euros. Outro aceno negativo de cabeça e o vendedor já começa a ser agressivo, a falar alto e a empurrar o colar por 1 mil euros.

Olho pro meu pai e, nada discretamente, agradecemos e saímos correndo da loja, arrastando a minha mãe. Não é por nada, mas a gente foi perseguido por um tempo. Dentro do mercado, “trombávamos” diversas vezes com os “primos”. Como a gente não sabia qual loja não pertencia à mesma confraria, resolvemos pedir abrigo a uma venda de doces turcos. Perdição é pouco. Mergulhamos em mel, nozes e pistaches, envoltos de massa. Entre uma mordida e outra, lembranças de um dia de tapetes de seda, joias, olhos turcos (do patuá ao literal), chá de maçã e um belo por do sol.

***

Kusadasi, Turquia (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Kusadasi, Turquia (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Os doces turcos são inesquecíveis, mas não vou me atrever a fazê-los. Porém, outra especialidade de Kusadasi é o peixe e deste sim vou passar a receita. Mas antes, preciso falar aqui sobre o inesquecível restaurante Kazim Usta Restaurant, em Kusadasi. Peixes e frutos do mar são fresquíssimos e o chef prepara a especialidade da região com maestria. Pergunte ao garçom sobre a especialidade da casa, um peixe assado com sal e regado com azeite. O ambiente é aconchegante e as grandes janelas para o porto combinadas aos ventiladores de teto dão a sensação de que o Indiana Jones vai chegar a qualquer momento para tomar uma cerveja com você.

A receita que passo aqui é diferente, mas tentei reunir os diversos sabores que tive o prazer de experimentar em Kusadasi.

Serviço
Kazim Usta Restaurant
Liman Caddesi 4, Kusadasi, Turquia