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Prédio na Alemanha Oriental (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Prédio na Alemanha Oriental (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Não precisou de duas semanas completas para dois símbolos de uma era que me confundia na escola dizerem adeus. Quando era pequena, adorava abrir o atlas para conhecer o mundo e mostrar à minha mãe aonde um dia eu iria. Só que todo ano o mapa mudava e um atlas novinho chegava às minhas mãos. Na virada de 1989 para 1990, eu tinha 6 anos. Peguei o atlas anterior e coloquei ao lado daquele que tinha acabado de ser “ticado” da lista de material escolar.

Olhei, e nada de achar uma mudança. Apelei aos universitários e perguntei a ela o que tinha mudado no mundo. Imagina o que foi explicar a uma criança de 6 anos o que era Guerra Fria, União Soviética e o Muro de Berlim. No mapa eu entendi. Tudo o que era cinza, começou a ficar colorido nos anos seguintes — e eu tinha que decorar um monte de nome novo.

Berliner Fernsehturm, a torre de televisão soviética de Berlim (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Berliner Fernsehturm, a torre de televisão soviética de Berlim (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Acho que se minha mãe tivesse me explicado que por trás da queda do muro que mudou o atlas da noite para o dia estava uma “Dama de Ferro” eu não teria dormido à noite (lembrando que não sou da época de Harry Potter, ou seja, ainda não existiam mapas interativos). Pelo Jornal Nacional, eu sabia que essa mulher existia. Mas não fazia ideia que era a Margaret Thatcher quem não dormia direito naquela época. Muito menos o quanto ela temia a queda desse muro, mesmo sendo a responsável por isso ao formar com o presidente norte-americano Ronald Reagan uma verdadeira cruzada anticomunista. A então primeira-ministra britânica tinha receio de que uma Alemanha unificada viesse a dominar a Europa.

Toda vez que visito Berlim, faço questão de ir até o muro e cruzar a linha invisível de um lado para o outro como se eu fosse contrabandear calças jeans para amigos residentes do lado oriental. Os prédios baixos em tons terracota, típicos da arquitetura soviética, dão arrepios na espinha de tão viva que ainda é a energia deixada entre o término da Segunda Guerra Mundial e o fim da Guerra Fria. A disparidade de desenvolvimento urbano em relação ao lado ocidental é ainda nítida.

Portão de Brandemburg (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Portão de Brandemburg (Foto: Priscila Dal Poggetto)

A função do muro caiu em 1989, mas até a semana passada uma parte dele estava em pé, mantendo sobressaltada à vista a memória de tempos estranhos (não preciso nem dizer que tenho uma lasca do muro guardada em casa). Em 27 de março de 2013, o colorido trecho de mais de um quilômetro do Muro de Berlim, chamado de East Side Gallery por estampar pinturas de vários artistas plásticos, foi retirado para dar lugar a um projeto imobiliário de imóveis de luxo. O muro que tanto assustava a Dama de Ferro ruiu de vez pela sede de lucro desapegada à história, filha de um capitalismo que ela tanto defendeu.

Paz em Berlim (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Paz em Berlim (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Porém, desta vez, Thatcher nem percebeu. Há sete anos, a dama sofria de uma doença senil. Seus últimos pensamentos foram embora nesta segunda-feira de 8 de abril de 2013. Querendo ou  não, levaram o mesmo fim dos inanimados pedaços do muro: o pó.

Berlim amanhecer desbotada, enquanto a Grã-Bretanha acordar colorida, enfeitada por opositores felizes com a morte da líder autoritária, mexeu com a minha memória de viajante. Procurei meu atlas. A brochura ainda segurava todos os mapas. Entre cores, nomes e números, corri os dedos sobre a página geopolítica e lamentei pela falta de imaginação da humanidade em continuar sempre a mesma, independentemente do seu tamanho e do formato das linhas entre os oceanos.

E quem diria que no fim deste pensamento estaria sob o meu dedo indicador a Coreia do Norte de 1990, ainda nem reconhecida pelas Nações Unidas. É… Isso aconteceu em 1991 e o mapa só chegou às minhas mãos em 1992, obviamente, através de mais um novo atlas, assim que foi ticado da lista de compras para a escola.

***

Nessa “quizumba” de nações durante e depois da Segunda Guerra Mundial, vou deixar o chá inglês para outro dia e falar agora do melhor italianíssimo macarrão que comi na vida. Advinha onde? Em Berlim.

O restaurante é o Diverso (endereço abaixo). Como eles fazem tudo na hora e na frente do cliente, dá para entender mais ou menos como a massa é preparada e qual é a técnica. É um talharim fresco feito com molho de limoncello flambado sobre uma peça de queijo parmesão e salpicado com lascas de trufas negras — aliás, sai por 20 euros. Aqui passo uma receita com base no que entendi. Obviamente, não é igual. Para quem visita a capital alemã, o restaurante Diverso é, portanto, parada obrigatória. Veja no outro posto ou clique aqui a minha versão como observadora.

Serviço
Diverso
Hausvogteiplatz, 10. Berlim – Alemanha.
Tel: 030 36442756
http://diverso-berlin.de/