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O Batman de Xangai (Foto: Priscila Dal Poggetto)

O Batman de Xangai (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Todo aquele discurso inflamado sobre trabalho escravo e mercado negro é esquecido assim que uma chinesinha simpática começar a falar com você em espanhol te oferecendo bolsas. As pescadoras de clientes surgem do nada nos bulevares de Xangai e te abordam com um folhetinho que você mal consegue ler, tamanha a pressa delas em te arrastar por vielas estreitas e sombrias. E você, refém da curiosidade, segue a criatura sem pensar no risco de virar vítima de uma quadrilha internacional de tráfego de órgãos (ué, vai saber).

Mas é bem assim que funciona. Elas te abordam e te levam por bibocas feias, mulambentas e gordurosas (chinês adora uma friturinha e esse cheiro fica suspenso no ar por toda parte). Até que você chega a uma lojinha bem simples, cheia de cópias mal feitas de bolsas de grifes francesas e italianas. Há também lenços de seda, mas isso é de verdade porque a China é um dos maiores fabricantes do mundo do elegante fio.

Onde tudo começa: calçadão no centro de Xangai (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Onde tudo começa: calçadão no centro de Xangai (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Diante de tanta coisa “lado B”, você torce o nariz e diz não. Como uma palavra mágica,  o que custava 700 “dinheirinhos” vira 30. O não permanece. Aí é que a lojista saca que você tem bom gosto e quer algo nível “A”, que no dialeto da muamba significa cópia perfeita ou carga original desviada. Em um piscar de olhos, ela abre uma passagem secreta, girando uma estante falsa com bolsas fajutas. Dá medo, mas a safada da curiosidade faz você voar para dentro do submundo do desejo de consumir.

Ruas do centro de Xangai (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Ruas do centro de Xangai (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Trancada na salinha moqueada, um paraíso de Fendi, Chanel, Louis Vuitton, Coach e por aí vai se abre diante de seus olhos. E foi assim, que passei por ela. Era ela. A Miu Miu dos meus sonhos. Uma luz desceu dos céus e nos iluminou. Ouvi o dobrar dos sinos e notas de Vivaldi, cobrindo de alegria a lenta esticada de braço até tocá-la. Saio do frenesi quando ouço da chinesinha:

– Two, two, zero, zero.

– Noooooooooooo!

– One, seven, zero, zero.

E assim começa uma negociação de dígitos socados no botão da calculadora da mulher. Pechinchar é uma arte na China. Cheguei a um valor correspondente a R$ 200. Fui inocente, poderia ter levado por R$ 100. Mas tudo bem. Uma Miu Miu como esta sairia por R$ 5 mil no paulistano Shopping JK.

Ingrata, a paixão traz ilusões que custam a evaporar. Para mim, aquela era uma Miu Miu original, desviada por um funcionário serelepe que colocou o meu destino sob sua blusa e entregou nas mãos de um gentil contrabandista em troca de 10 dinheirinhos locais. Um Bolsa Família “palalelo”, praticamente.

Minha Miu Miu, só que não (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Minha Miu Miu, só que não (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Mas como em toda paixão, o torpor passa, o príncipe vira sapo e a pseudo legítima bolsa perde o logo de metal, aquele que um segundo atrás estava incrustado no couro fashionista. Quando escuto o tilintar do metal batendo sobre o chão do trem do metrô paulistano, olho de canto de olho, sem querer acreditar. Como após tomar a bota do amado, faço cara de indiferença e olho fixamente para o ponto do mapa que indica a estação aonde vou.

Porém, a vida sempre desliza a mão sobre sua face com um tapa seco e sarcástico. Um velhinho, com toda a cordialidade aprendida em uma época que hoje não existe mais, agacha, pega a plaquinha de metal e me entrega em mãos. Agradeço, mas desdenho o objeto como um caco de vaso quebrado. Jogo o “Miu Miu” metálico dentro da bolsa falsa e me despeço de todo o glamour ilusório que vivi com tanta alegria por duas semanas, ao voltar da China. Levanto o rosto e me mantenho ereta. Lágrima alguma escorreria na estação Paraíso.

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Ruas do centro de Xangai (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Ruas do centro de Xangai (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Fugir das frituras é algo difícil na China. Mergulhar tudo no óleo quente faz parte do hábito local, até porque é uma boa forma de disfarçar coisas estragadas. Outro ingrediente muito usado na culinária local é o tofu, o queijo de soja. Normalmente, não gosto de nenhuma receita com o ingrediente, mas este que comi em Xangai é bom demais. Para quem gosta de pratos picantes, vale a pena conferir esta receita de tofu assado no outro post. Confira aqui.