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Mulher observa da janela de um restaurante tradicional em Wuhu (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Mulher observa da janela de um restaurante tradicional em Wuhu (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Meu pai sempre se lembra de um amigo que definia as boas noites boêmias como aquelas que tinham no ar um cheiro de madeira queimando. Quem gosta de caminhar pelas ruas pouco soturnas ou ficar sentado em cadeiras de botequins sobre a calçada, provavelmente, já sentiu um cheiro de fogueira que inunda o espírito. Em Wuhu, uma cidade industrial na China na província de Anhui (a uns 300 quilômetros de Xangai), tive uma noite destas.

Simpáticos, os moradores de Wuhu são curiosos pela fisionomia ocidental (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Simpáticos, os moradores de Wuhu são curiosos pela fisionomia ocidental (Foto: Priscila Dal Poggetto)

De dia, a periferia da cidade se revela em ruelas sujas, casas bem humildes e carrinhos que, ao invés de pipoca, tinham os pedaços mais estranhos de frango pendurados à espera do mergulho no óleo quente. Nas calçadas, mulheres sentadas arrancavam cabeça e rabo de pitus vivos para serem empanados e fritos mais tarde.

Em Wuhu, o carrinho tem frango, não pipoca (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Em Wuhu, o carrinho tem frango, não pipoca (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Uma das ruelas na periferia de Wuhu (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Uma das ruelas na periferia de Wuhu (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Mas como à noite todos os gatos são pardos, tudo se transforma. Éramos dez brasileiros a caminho da tradicional “foot massage”, a nossa “balada” de todas as noites e um dos imperdíveis hábitos chineses — resumindo, a graça é receber massagens nos pés e beber chá de crisântemo. Porém, o percurso a pé até a casa de massagem, que levava uns 15 minutos, era o que fazia toda a diferença. Mas aquela noite quente de primavera, talvez por ser a última em Wuhu, foi a mais especial. Ao contrário dos outros dias, as ruas estavam cheias e alegres por conta do calor.

Na primeira parte da via principal do bairro, barraquinhas vendiam baratíssimos tênis, botas, roupas, CDs, DVDs, brinquedos e tudo mais o que puder imaginar. Aquele simples camelódromo sob a lua, com lampadinhas penduradas de modo improvisado para iluminar a mercadoria, colocava no chão qualquer feirinha da madrugada no paulistano Glicério. Do outro lado da rua, os donos das barracas de comida olhavam admirados nossos rostos ocidentais e apontavam para a gente como aberrações de circo.

Botecos em Wuhu também têm cadeira na calçada (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Botecos em Wuhu também têm cadeira na calçada (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Feirinha noturna em Wuhu (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Feirinha noturna em Wuhu (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Mais à frente, um boteco ao lado do outro, com direito a cadeiras na calçada, reunia um pessoal jovem, que ria alto e falava mais alto ainda enquanto comia os pitus fritos entre goladas de cerveja local ou namoravam (do jeito chinês). Nós, “os estranhos”, comprávamos tênis, falávamos alto, cantávamos alto, ríamos mais alto ainda e ignorávamos os pitus, considerando ter visto pela manhã o arrancar de rabos e cabeças.

Em meio ao papo jogado fora, vi de longe a prostituta, que observava tudo sentada à beira da cama. Deu uma última espiada, esticou o braço e encostou a porta. Junto com o nosso barulho, o cheiro de madeira queimada adentrou a casa de massagem e afastou a fumaça de fritura que ludibriava o ar.

 ***

Em Wuhu não me arrisquei nos pitus, mas comi muito macarrão de arroz (o milenar bifum) com legumes, algo simplesmente espetacular na culinária chinesa e que nenhum “in box” no Brasil consegue fazer. Aqui vai a receita de bifum com legumes para matar a saudade.

As casas de massagem são as

As casas de massagem são as “baladas” dos chineses