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Templo Lingyin em Hangzhou (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Templo Lingyin em Hangzhou (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Nagib Mahfuz já dizia, “It’s a most distressing affliction to have a sentimental heart and a skeptical mind”. E com o espírito dessa frase passando pelos pulmões, atravessei a cortina de fumaça de incensos com calma respiração em um dos templos budistas mais bonitos do mundo, o Lingyin ou “Templo da Alma Escondida”. Naquela tarde em Hangzhou, embora tenha tomado um sorvete Häagen-Dazs falsificado (não tenho provas, mas meu paladar aguçado diz que sim), tive uma vivência filosófica bem interessante.

Templo Lingyin em Hangzhou (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Templo Lingyin em Hangzhou (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Primeiro, porque o ambiente era mais do que propício. Lingyin foi construído em 326 D.C., mas foi demolido e reconstruído 16 vezes, enfrentando várias guerras. Uma perfeição arquitetônica de impressionar. Este complexo sagrado abrange diversos locais especiais, o que inclui grutas decoradas com 470 esculturas budistas entalhados diretamente na rocha, onde a luz do sol invade procurando cada canto escondido pelas árvores de folhas bem verdes. 

Templo Lingyin em Hangzhou (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Templo Lingyin em Hangzhou (Foto: Priscila Dal Poggetto)

A caminhada foi acelerada pela falta de tempo — uma tarde é pouco para o local que enche os olhos de qualquer fotógrafo. Logo chegamos a uma espécie de “praça central”, que ligava os dois prédios principais de meditação e cerimônia. Ao centro, tochas para acender os incensos e o grande recipiente para jogá-los. Este foi o segundo motivo da experiência no templo que me comoveu.

Templo Lingyin em Hangzhou (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Templo Lingyin em Hangzhou (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Como todo local sagrado, aquele era um ponto de encontro de pensamentos, entre pedidos, agradecimentos, súplicas por esmolas (não eram poucas as pessoas com deformidade no corpo que esticavam a mão por moedas) e despretensões, no caso de muitos turistas. Foi nessa “praça” agregadora de mundos onde surpreendi-me em meio a um ritual budista – escancarei a minha alma.

Templo Lingyin em Hangzhou (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Templo Lingyin em Hangzhou (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Ganhara três varetinhas de incenso na entrada do complexo religioso. Pela tradição, qualquer ritual que você fizer com este símbolo tem de ser em múltiplos de três. Há quem leve um ramalhete de incensos, mas me contentei com os que foram me dados de presente. Afinal, eram estas varetas as responsáveis por eu me colocar em meio à tal cerimônia solitária — jamais cometeria a desfeita de não acender os incensos.

Apenas não tinha a menor ideia de como fazer isso. Passei uns 15 minutos observando o ritual dos outros para poder copiar. Aí sim comecei o meu. Confesso, cética. Assim que encostei meu incenso no fogo, os melhores pensamentos do mundo invadiram a minha mente e foi impossível não acreditar naquela fumaça e sentir a importância de tamanha fé.

Com as varetinhas acesas, juntei as mãos e fiz uma reverência na direção dos quatro principais pontos cardeais, sempre inclinando bem o corpo e erguendo os braços em direção à testa. Feito isso, coloquei o incenso em uma bela estrutura montada para este fim, quando as varetas repousam até o incenso ser totalmente queimado.

Não sei mesmo explicar o que aconteceu, mas dias desses, lendo Carlos Drummond de Andrade, voltou-me à mente o que senti naquele momento tão isolado e o significado da frase de Mahfuz, que sempre me acompanha. Sem dúvida, é mais angustiante ter um coração sentimental e uma mente cética, porém o sofrimento é opcional:

A cada dia que vivo,
mais me convenço de que
o desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca
e que, esquivando-nos do sofrimento,
perdemos também a felicidade
A dor é inevitável
o sofrimento é opcional

Carlos Drummond de Andrade

***

Com tantas opções de pratos nas mesas giratórias de um almoço chinês, o que foi comido à exaustão foi a… acelga refogada. O prato fez tanto sucesso entre os brasileiros presentes naquele restaurante de nome impronunciável para um ocidental, a caminho do templo, que os chineses ficaram espantados. “Acelga? Com tanta comida cara aqui?”. Sim, nós queremos acelga! E no post anterior vai uma receita adaptada, que lembra aquela lá, só que não.