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Jardim em Hangzhou (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Jardim em Hangzhou (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Não me lembro de ter lido relatos de Marco Polo com algum detalhe sobre buracos na China. Também não faço ideia de como era a louça da casa dele, só sei que chinês faz suas necessidades fisiológicas de cócoras para um buraco – uma espécie de privada embutida. Mas acredito que a reação dele ao avistar o Oriente foi a mesma que eu tive ao encarar o banheiro de uma casa de massagem meia boca em Xangai.

Posso dizer que foi uma boa iniciação para quem iria enfrentar muitos desses pela frente por toda a viagem, e cada um com sua peculiaridade. Nem todos os banheiros da China são assim, mas, acredite, eles sempre aparecem quando sua bexiga está a ponto de explodir. E já aviso que isso inclui shoppings.

A casa de massagem das teias de aranha (Foto: arquivo pessoal)

A casa de massagem das teias de aranha (Foto: arquivo pessoal)

O da casa de massagem ganhou destaque e espanto pela quantidade de teias de aranha que enfeitavam a pequena cabine. Senti-me na tumba de um dos filmes de Indiana Jones, para falar a verdade. O negócio era não perder a concentração entre se equilibrar em pé sobre o buraco — como já disse por aqui, raras devem ser as ocidentais que conseguem fazer xixi de cócoras em ambiente tão inusitado —, não se molhar toda e desviar das teias.

Explicarei melhor a questão do “molhar-se”. Fisiologicamente, mulher não tem mira. Então, para urinar em pé (estou tentando amenizar as coisas com um linguajar mais erudito), é preciso controlar a pressão do jato, que deve ser precisa. Qualquer erro de controle pode instalar a catástrofe: se muito forte, seu xixi vai rebater na “privada buraco” e ser arremessado contra a sua cara; se muito fraco, vai escorrer pela perna e entrar no seu sapato. Aliás, a descarga é no pé, o risco de perder o equilíbrio e cair ali dentro é grande, portanto, cuidado.

Para completar, enquanto o seu cérebro envia tais comandos ao seu corpo, seu fígado está prestes a ter um colapso. O banheiro da casa de massagem era limpo, mas não vamos ter a ilusão de que em um posto rodoviário seria igual.

On road: a caminho de Wuhu (Foto: arquivo pessoal)

On road: a caminho de Wuhu (Foto: arquivo pessoal)

A caminho de Wuhu, em uma cidade que eu não faço ideia, o ônibus parou para basicamente irmos ao banheiro e tomarmos uma água. Entrei no toalete já receosa. E enquanto eu trabalhava a ideia de encarar novamente o buraco, chega um grupo de indianas apertadas para usá-lo. De estômago virado, uma olha na cara da outra com indignada reprovação. Todas desistem do feito. Virei para minha amiga arrasada: “na boa, se as indianas estão achando isso aqui nojento, não sou eu que vou encarar o buraco”. O negócio foi segurar até o destino final, um hotel.

A privada chinesa (Foto: arquivo pessoal)

A privada chinesa (Foto: Sueli Carneiro)

Depois de tantas situações semelhantes, eu achava que já estava experiente no ato de fazer xixi em privada chinesa. Porém, fui surpreendida novamente em um banheiro em um restaurante considerado chique, a caminho de Hangzhou. A cabine era elevada em relação ao resto do banheiro e muito pequena. O problema nem era isso, mas sim o espelho instalado na parede oposta à porta. O negócio era fazer todo o malabarismo tradicional, mas com a diferença de se encarar no espelho enquanto isso. Espero muito, do fundo do coração, que não sejam um daqueles espelhos que o FBI ou a CIA ou a Interpol ou a PF usa para entrevistar suspeitos.

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Em todo posto de estrada tem sempre uma lojinha com guloseimas para seguir viagem. Experimentei diversas delas. Entre folhas de alga salgadas, amendoim estranho, maçã desidratada e paçoca de chá verde (esta é horrível, por sinal), fico com os doces de feijão mesmo.

A culinária chinesas não tem muita opção de sobremesa, mas os bons são feitos ou de pasta de feijão ou de raiz de lótus. Também experimentei um tipo de pastel recheado com creme de gemas, provavelmente, uma herança dos portugueses que andaram por aquelas bandas. Mas aqui vai a receita do doce de feijão, chamado de Anko, que pode servir como recheio de pães e bolos. A receita do pão vai também, guloseima muito consumida na China, no Japão e na Coreia do Sul.