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Nuvens de chuva no Deserto do Jalapão (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Nuvens de chuva vistas do ônibus no Deserto do Jalapão (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Mochila nas costas, despedi-me da foto da rainha da lambada Sarajane, pregada com tachinha no alto do quadro de famosos exibido com orgulho pela pousada que fiquei em Palmas, Tocantins. Dali, meu irmão e eu partimos, em 2007, em uma espécie de ônibus 4X4, para uma das experiências mais incríveis de nossas vidas: uma semana de isolamento no Deserto do Jalapão.

No topo da mais alta chapada do Jalapão (Foto: Priscila Dal Poggetto)

No topo da mais alta chapada do Jalapão (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Do fundo do meu coração, gostaria de ter a genialidade de descrever o que é esse lugar. Mas é impossível. Tanto pela paisagem quanto por viver a quatro horas de civilização, sem celular, sem notícias, sem soro para picada de cobra, sem compromisso. Uma semana no único acampamento permitido na área foi para mim todo um ano vivido em São Paulo em experiência de vida.

A paisagem do Jalapão é formada por chapadas, cachoeiras e oásis no meio de uma areia bem laranja, fruto da riqueza de ferro daquela terra. Trilhas de onça e de preguiça que caminham durante a noite, o por do sol bruto e chapado no horizonte, as estrelas brilhando entre as chamas da fogueira e o banho de rio todo o fim da tarde me fazem escorrer lágrimas nos olhos até hoje, de saudade.

Sem dúvida, o Deserto do Jalapão mudou a minha vida e a do meu irmão. Sempre conversamos sobre isso. E, para minha felicidade, aquele gosto de liberdade na boca e de profunda alegria me veio à lembrança hoje, por isso resolvi escrever aqui. Moro em uma das cidades mais opressoras do mundo e, para minha tristeza, acostumei-me com ela.

Região do Jalapão é repleta de cachoeiras; chamam-no de deserto pela baixa densidade demográfica (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Região do Jalapão é repleta de cachoeiras; chamam-no de deserto pela baixa densidade demográfica (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Mesmo assim, o espírito livre, aquele mesmo que quase cuspiu o próprio pulmão após subir a trilha mais alta da minha vida no Parque Estadual do Jalapão, está aqui dentro. E graças a ele tenho olhos para viver fora dos valores atuais de “carreiras promissoras” e poderes ilusórios.

Vista de uma das chapadas no Jalapão (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Vista de uma das chapadas no Jalapão (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Não me prendi ao Jalapão porque não pertenço a ele, mas tive a permissão daquela terra para carregar no bolso do meu “eu” a areia alaranjada e o ensinamento de um homem que nasceu naquela terra e por lá está imerso em profunda alegria no balanço de uma rede: viver com o coração leve.

Nascente de rio no Jalapão (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Nascente de rio no Jalapão (Foto: Priscila Dal Poggetto)

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O acampamento era rústico, mas muito bem organizado. Tinha cozinha e um cozinheiro santista que preparava tudo com tanto carinho que a gente nem engordava (tudo bem, vai, cinco horas de trilha depois queimam qualquer orgia gastronômica).

O barracão de madeira reunia todos do acampamento à mesa, onde contávamos histórias das nossas vidas, ríamos e dividíamos as vivências de cada dia naquele lugar. Nunca mais vi ninguém, mas jamais me esquecerei deles, assim como me lembrarei sempre de um bolo de coco que comi e, claro, não tenho a receita.

Mas volto aos arquivos dos caderninhos de receita da minha mãe e passo aqui uma que me enche de água na boca só de pensar.