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Brasília e seus poderes (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Brasília e seus poderes (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Todo brasileiro deveria conhecer o Distrito Federal. A gente olha para aquelas duas torres desde criança pelo Jornal Nacional e não tem a menor ideia do que acontece lá dentro. Pude conhecer o Palácio dos Três Poderes com credencial de jornalista, por sinal, todas as vezes que passei por Brasília foi a trabalho. Mas a primeira a gente nunca esquece. O ano era 2007.

Era uma quinta-feira , ou seja, quase não tinha mais nenhum político na cidade. O bom e velho argumento: cada um vai para seu respectivo Estado dar continuidade ao trabalho localmente. Mas um ou outro ainda discursava para uma plateia vazia. Senador de Alagoas, o ex-presidente Fernando Collor de Mello era um destes poucos. Falava, falava e falava. Hipnotizou-me pelas braçadas no ar e a veia saltada no rosto.

Quando os caras pintadas foram às ruas e ele renunciou  ao cargo eu tinha 9 anos de idade, era 1992.  Olhar para ele sob a cúpula convexa do Senado Federal, fez-me entender o Brasil por outra ótica, considerando que quando nasci ainda existia a ditadura militar e vi o Sarney falando com os “brasileiros e brasileiras” — frase que interrompia o desenho animado, mas sabia que também era comigo o negócio. Querendo ou não, sou daquela época de inflação e toda vez que ia ao supermercado perguntava para aminha mãe porque o moço ficava colando etiqueta de preço em cima de etiqueta.  

E tudo continua lá. Pensei nos tais “caras pintadas”, já com seus filho, trabalhando como eu, pagando impostos como todos de CLT em mãos. Ainda atordoada, fui visitar os gabinetes. O recheio das tais torres. Recebi a Constituição da mão de um deputado estadual, e na folha de rosto tinha um carimbo com o seu nome e contato do gabinete, um local muito simples, aliás. Fomos apresentados por um jornalista das antigas, que na época ainda trabalhava para a rádio Eldorado. Falou-se, obviamente, de política.

Brasília e seus poderes (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Brasília e seus poderes (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Ao sair comecei a espiar pelas portas entreabertas dos outros gabinetes. Uns tão simples quanto o que eu acaba de sair, outros tão exuberantes quanto a casa da Laurinha Figueroa na novela das oito (Rainha da Sucata, de 1990).

Pelos corredores e elevadores do prédio que mais parece um formigueiro de tanto gabinete, passavam índios vestidos de índio, baianas vestidas de baianas, gaúcho vestido de gaúcho… Para defender suas “classes”, cada um se veste de acordo. Isso me chocou mais do que o discurso do Collor.

A partir de então, a expressão “máquina do governo” passou a fazer todo o sentido. Respirei o ar seco do Cerrado ao sair, olhei para o céu azul e tentei abstrair a mente daquelas ruas sem esquinas de uma cidade ilusória, apesar de tanto concreto.

 ***

Sob sol escaldante e respirando ar seco, a única vontade que tenho em Brasília é de tomar sorvete e cerveja. Foi lá onde experimentei pela primeira vez o sorvete de tapioca em umas das lojinha especializada em frutos do Cerrado (tá, ela ainda não tinha virado a rede que é hoje). Aqui passo a receita, que não é deles, é da Ana Maria Braga, mas é boa.