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Aeroporto de Confins em obras para a Copa do Mundo e uma fotógrafa com pressa (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Aeroporto de Confins em obras para a Copa do Mundo e uma fotógrafa com pressa (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Quinze dias para a Copa do Mundo e o Aeroporto de Confins era uma mistura de cimento com tapume fingindo que é “gate”. Tudo bem, quase ninguém ia reparar na poeirada invadindo o saguão, na muretinha de tijolo sem reboque e naquele carpete verde que brotou junto com a construção do aeroporto e por lá ficou. Essa mistura de glamour decadente com espera de bola em campo virou um cenário contemporaneamente romântico para quem trabalha todo dia vendendo os produtos mais inflacionados que se pode ter em um aeroporto mineiro: doce de leite e pão de queijo.

E foi em busca deles – pra variar, a espera no aeroporto é meu único tempo ocioso para compras – que encontrei corações esperançosos. Alguns, pela sexta vitória da Seleção brasileira de futebol. Outros, por um novo amor mesmo. Daqueles de passagem, que começa com um modesto sorriso abrindo o saquinho do adoçante. “Ah, quem sabe um gringo lindo me leva daqui”, suspira a mineira me entregando o café forte.

Fim de tarde em Belo Horizonte a caminho do aeroporto (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Fim de tarde em Belo Horizonte a caminho do aeroporto (Foto: Priscila Dal Poggetto)

E quantos tantos naquele vai e vem de gente não pensam isso? À minha direita, no mesmo balcão, uma mulher examinava o pão de queijo antes da mordida, enquanto contava sobre seu amor platônico. Era um antigo romance que não deu em nada. “Ele é lindo, quase virou jogador de futebol profissional, sabe. Vejo este canteiro de obra aqui para receber a Copa e não tem como não pensar nele”, lamentava.

Olhei para o rodamoinho que se formou na minha xícara depois de mexer o café com um palito de plástico. Filosofava atentamente sobre a conversa das duas. Em tantos anos em aeroportos – vamos lá, uns 20 -, nunca vi um romance avassalador despertar. Nem comigo e nem com ninguém ao meu lado. O máximo que aconteceu no meu caso foi um lindo uruguaio, que flertava sem escalas enquanto sustentava aquela aliança de uns 5 kg de ouro na mão esquerda. Resolvi dormir o voo inteiro de Paris a São Paulo para me esquivar do Don Juan, sentado ao meu lado.

Ao voltar das minhas lembranças, sorri para a moça e disse: pelo menos, você tem um rosto a procurar entre tanta gente aqui. Ela sorriu de volta. Engoli correndo o meu café, era a última chamada para o meu voo. Desejei boa tarde. As duas me retribuíram com “boa Copa do Mundo”. Respondi em pensamento. Boa sorte para nós. E boa sorte para o Uruguai*.

* o Uruguai foi eliminado nas oitavas de final da Copa ao enfrentar a Colômbia.

***

Se tem algo que mineiros e uruguaios sabem fazer muito bem é doce de leite. Confesso que prefiro o uruguaio (Argentina também perde de longe para eles neste quesito). Como não sei o segredo deles, passo aqui a receita do doce de leite que minha mãe fazia quando eu era criança. Ela usava uma panela inventada pelo padrinho dela, em que o leite podia borbulhar à vontade que não escorria no fogão. Uma bela invenção e, talvez, o grande segredo desta versão do doce cuja a graça é ficar talhado. Isso porque não precisa colocar nem limão e nem bicarbonato ao ferver, basta não mexer no doce enquanto cozinha. Confira a receita aqui, no post anterior.