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(Foto: Priscila Dal Poggetto)“Lembra-te que és pó e que ao pó voltarás”. A manhã da Quarta-Feira de Cinzas amanheceu ensolarada no centro histórico de Cartagena. Às 9h, o mercúrio do termômetro caminhava apressadamente rumo aos 40 graus Celsius. A cidade, assim como o país, não adere ao Carnaval, mas os rituais católicos do dia de Cinzas lotaram todas as igrejas – sim, são muitas. Em poucas horas, rostos com cruzes pintadas dominaram as ruas, cumprindo a ritualística de traçar a testa dos fiéis com cinza de ramos misturada a água benta.

Eu, entre as poucas pessoas sem o sinal, observava curiosamente o movimento nas igrejas e capelas lotadas. Não foi a primeira vez a notar a forte presença da igreja Católica entre os colombianos. Todas as suas histórias de conquistas têm sempre como pano de fundo um caráter religioso, herdado dos espanhóis, no caso.

Foto: Priscila Dal Poggetto

Foto: Priscila Dal Poggetto

O castelo San Felipe de Barajas, por exemplo, é uma fortaleza militar construída em 1536 e guarda diversos símbolos, como uma bateria de 12 canhões que simbolizam os apóstolos de Jesus.

Vista do alto do castelo San Felipe de Barajas (Foto: Giselli Cardoso)

Vista do alto do castelo San Felipe de Barajas (Foto: Giselli Cardoso)

A força religiosa também explica o fato de Cartagena ter inúmeras igrejas, um mosteiro ativo desde 1609 (chamado de Convento de la Popa ou Convento Nossa Senhora da Candelária) e três enormes conventos na cidade velha. Hoje, dois deles abrigam os únicos luxuosos hotéis entre as muralhas: Sofitel Santa Clara e Charleston Santa Teresa.

Convento de la Popa (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Convento de la Popa (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Para quem gosta da arte da gastronomia, no Sofitel Santa Clara a bênção vem do menu do bistrô francês “1621”. O nome é uma homenagem ao ano quando o convento foi construído. Em 2015, no entanto, a elevação espiritual ficou entre taças de vinho rosé, pão de roquefort com “bolinha de manteiga de restaurante”, vôngole sobre risoto de cogumelos coberto por uma espuma de crustáceo e o toque final de um crème brûlée de café. Amém.

No entanto, naquela manhã ensolarada de Cinzas, decidi cuidar do meu espírito de outra forma: no Spa do hotel Charleston, onde há muito tempo abrigava as monjas carmelitas do convento Santa Teresa – o primeiro da cidade murada. Para quem acha que massagem de óleos medicinais não é uma meditação, engana-se. Posso dizer que fui até o antigo convento em uma viagem astral de cerca de uma hora.

É impossível explicar o que se passou, mas sem dúvida está dentro do contexto do Dia de Cinzas, um símbolo do dever de conversão e da mudança de vida, para recordar a passageira fragilidade da vida humana, sujeita à morte.

(Foto: Priscila Dal Poggetto)

(Foto: Priscila Dal Poggetto)

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Classificado como um dos melhores crèmes brûlées da vida – com direito a bater a colher sobre a casquinha de açúcar à la Amélie Poulain –, fiz questão de comprar o legítimo café solúvel colombiano para adaptar a receita que tenho em casa e repetir o divino momento na minha casa. Coloco aqui, no post anterior, a receita do celestial crème brûlée de café.

Cruz no alto do  Convento de la Popa (Foto: Priscila Dal Poggetto)

Cruz no alto do Convento de la Popa (Foto: Priscila Dal Poggetto)