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Zion 4Quando o cheirinho de café no bule invadia a casa, Zion esticava a patinha e batia três vezes à porta. Zion era um Fila Brasileiro, daqueles de 80 kg, puro músculo. Mas a sua patinha era controladamente muito delicada para não acordar quem ainda dormia. Zion era assim, gentil. Tinha um olhar profundamente bom.

Amava tanto tudo e todos, de forma tão pura, que muitas vezes se assustava com a complexidade humana. Afinal, por que não só amar? Precisa de algo mais na vida? Zion não pedia licença para adentrar à casa por causa do café, mas sim pelo pão que sempre o acompanhava.

Era a sua segunda paixão (a primeira era o meu irmão mais novo). Pela audição aguçada, ouvia o saquinho fazendo barulho lá da cozinha. Sentava ao lado da mesa e com a cabeça enfiada entre a gente esperava o seu “bom dia” em forma de miolo mole e casquinha crocante.

Antes de o longo fio de baba pendurado pela bochechona cair, ele mordia o pedação de pão – que parecia bolacha tamanha a boca – e saía correndo. Mas voltava. Sempre voltava para deitar aos nossos pés e ouvir horas de conversa (porque os cafés da manhã na chácara sempre duram horas).Zion 6 (FOTOS: Maurício Dal Poggetto)

Dia destes, amanheceu como sempre. Só que ele resolveu fazer um ritual diferente. Comeu o seu pão, mas com leite. Bateu à porta, mas não voltou. Zion era profundo conhecedor da raça humana. Sabia bem que não se conformariam com um adeus pré-datado. Claro, partiria sem se despedir! E assim, sem avisar quem ainda dormia, foi levar seu amor a outros campos. Desde então, a cada amanhecer, levanto da cama e digo à vida: – Um pão com Zion, por gentileza. Zion, foi uma honra.

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Entre tantos pães que sempre alegram aquela mesa de café da manhã, um dos preferidos é o de mandioquinha que minha mãe faz – confira aqui a receita. A gente adora comer com requeijão, manteiga ou geleia.

Zion 8 Zion 2