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Fotos: Maurício Dal Poggetto

Aí o francês me perguntou:

– Por que brasileiro gosta tanto de cachoeira?
– Como assim, Jeremie?! Cachoeira é algo incrível!
– Sim, franceses também gostam de cachoeira. Só não dão toda essa conotação que brasileiro dá! Parece tudo muito… Como se diz em português? Supersticioso, religioso… místico…
– Não que seja isso, mas você tem que concordar que tomar banho de cachoeira renova todas as energias e dá um gás novo para fazer todo o caminho de volta da trilha pra chegar lá. É uma “vibe” muito boa. É também um pouco de se reencontrar. Ficar um pouco consigo.
– Então! Isso é muito coisa de brasileiro! Francês entra na cachoeira e beleza, é isso.

É, ele tem razão. No Brasil, tomar um banho de cachoeira é um ritual, mesmo que laico. Nada como caminhar 6 quilômetros de trilha, praticamente sem pausa, em terreno de aclive em trilha de pedras – com direito a chuva no meio do caminho que torna tudo escorregadamente mais emocionante – e ser abençoado por uma linda cachoeira no meio do caminho (meio mesmo, porque ainda tem mais 6 km de volta).

Esse foi basicamente o meu dia a dia na Chapada dos Veadeiros com mais 8 amigos (ok, a maioria das trilhas rendia 8 km, não 12). Mesmo assim, era sempre uma cachoeira o objetivo final ou a recompensa por conseguir chegar a pontos extremos. Uma delas foi para as famosas Janelas da Chapada dos Veadeiros, trilha que acaba com as pernas de qualquer cidadão metido a aventureiro. Especialmente aqueles como o meu irmão, fotógrafo da galera, e teve de carregar todo o equipamento nas costas.

Essa história de banho de cachoeira é tão séria para nós, brasileiros, que compilei uma lista de coisas que os franceses deveriam fazer para nos entender:

– 1º passo: admire a paisagem. Toda cachoeira é cercada por uma paisagem incrível.
– 2º passo: encoste o pé na água para sentir a temperatura. Sem dúvida estará ultra gelada. O barato disso é vencer a preguiça e mergulhar de vez e gritar pro resto: “venham, nem está tão gelada assim”.
– 3º passo: Sentir a pedra que esquentou com o sol forte compensar o gelo da água que cai do rio. Relaxe os músculos com a água gelada para ter pique de fazer o caminho de volta.
– 4º passo: Enfiar a cabeça debaixo d’água e agradecer o que quiser a quem bem entender. O importante é deixar limpar a alma e deixar as energias negativas irem embora.
– 5º passo: De alma limpa, emane pensamentos positivos para você e para a humanidade (é nesta hora, francês, que você deve refletir sobre o que quer melhorar na sua vida).
– 6º passo: Ficar meia hora brisando de frente para o arco-íris.
– 8º passo: Medite e respire profundamente o ar puro.
– 9º passo: faça a foto oficial da galera e junte fôlego para calçar meia e tênis com o pé molhado, colocar a mochila nas costas e fazer o caminho de volta.

Estes são os rituais básicos de um brasileiro em uma cachoeira. Há ainda quem curta pular das pedras, jogar malabares, tocar violão ou tomar sol.

No caso da Chapada dos Veadeiros, depois de tudo isso, você pode curtir a noite na Vila de São Jorge que, pelo que constatei, é a mais riponga e a mais legal da região. Fomos bem na semana do dia de São Jorge (24 de abril). Por conta disso, tinha forró todas as noites e tudo estava em clima de festa.

É Jeremie, ir pra cachoeira com brasileiros é bem mais legal, ainda mais se for no Brasil, onde tem licor de pequi, brigadeiro de baru e pão de queijo com requeijão na chapa te esperando no fim do dia após um bom banho – de chuveiro mesmo.

***

Brigadeiro de baru? Sim, pra você que percebeu esta iguaria no meio do meu texto. Foi eleito a melhor sobremesa da viagem, inclusive. Antes de mais nada, o baru é uma castanha típica do cerrado brasileiro e muito consumida na região da Chapada dos Veadeiros. É um tipo de amendoim que pode ser usado – como um amendoim – na culinária. O tal do brigadeiro de baru experimentamos no restaurante Risoteria São Jorge, como sobremesa de uma série de risotos inesquecíveis (entre eles, o de pequi).
Não sei como o restaurante faz este brigadeiro de colher, mas me inspirei nele para fazer a minha versão. A receita do brigadeiro de baru passo aqui.