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Aos poucos fui entendendo aquela comida com pouco sal, pimenta ou qualquer outra especiaria que realçasse seu sabor. A cozinha cubana de simples sabor reflete exatamente uma nação que não pode ser o que almeja, porém dona de um povo de personalidade tão forte que não precisa de tempero. Eles mesmos o são. Divido aqui meu amor pelo povo cubano. Aos poucos cada um trouxe o seu sabor à série de 5 crônicas desta viagem que me fez repensar sobre a vida em si, de complexos assuntos políticos ao amor familiar. Agradeço ainda as incríveis amigas e companheiras de aventura Carol Iervolino e Letícia Iervolino.

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Um Geely (carrinho chinês) surrado fez o nosso transfer do aeroporto ao hotel em Havana Vieja, o lado colonial da capital cubana. Ao volante, Abel tragava seu cigarro Holywood mentolado, enquanto nos explicava a diferença entre os ritmos salsa e reggaeton. Chacoalhava os ombros, cantava aos berros e dizia entre um refrão e outro: Cuba é um país maravilhoso… Para visitar! Morar não.

A sentença aparentemente exagerada carregava no sal as suaves imagens que tivemos ao chegar. O caminho que passava pelos 8 quilômetros do El Malecon dava um ar intrigante ao passeio. Parecia que a cidade apenas tinha parado no tempo e, por isso, um pouco deteriorada. Mas o lindo fim de tarde do 1º de Maio, Dia Mundial do Trabalho por sinal, escondeu muito o que nos demos conta apenas com o sol a pino: hoje, Havana mais parece uma cidade pós-guerra.

Choca os olhos daqueles que carregam, como eu, o romantismo social no peito. Todos são iguais no trabalho suado, como também na casa caindo aos pedaços, no dinheiro contado para poder comer e no desejo de ser qualquer pessoa que entra naquele país para observa-los e desfrutar de coisas que eles dificilmente conseguem. E aqui estou falando de um bom pedaço de carne, sapatos novos e um banho de mar no fim de semana, nada além disso.

Como disse Abel, Cuba é bom para quem tem dinheiro, mas quem tem? Se considerar que quem ganha um pouco mais são os médicos e os taxistas – em média, 30 CUCs por mês, o equivalente a 30 dólares -, para ganhar dinheiro em Cuba tem que ter parente fora do país ou um emprego não oficial, como dar aulas de dança na “clandestinidade”. Mas há ainda uma alternativa mais rápida, pedir comida, roupa e dinheiro aos turistas. Diga-se de passagem é o turismo que sustenta a economia cubana.

Com o tempo, acabamos nos acostumando com pedidos por dinheiro, óculos de sol ou uma camiseta velha. Não sei o que é pior, se habituar com isso ou com cenas como a de uma cabeça de porco sendo atirada no meio da rua. É, as noções básicas de higiene também se perderam com o tempo, assim como as vibrantes pinturas das paredes daquelas casas de traços tão bonitos.

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Mas minha paixão por Cuba surgiu no meio desse caos. Sempre admirei esse povo por lutar por uma sociedade melhor. E ainda os admiro. Porque sorriso como o dos cubanos não há no mundo. Hoje, eles sobrevivem em meio a uma pobreza igualitária, mas sonham com uma televisão nova, carne no prato todos os dias, saúde de qualidade como havia antes e poder exercer a profissão que escolheram. Muitos deles abdicam do sonho para ganhar um pouco mais de dinheiro ou porque não conseguem emprego específico nas suas áreas com autorização do governo.

Abel é um deles. Espera um dia ter a liberdade financeira para simplesmente pegar seu velho carro e ir até uma das paradisíacas praias de seu país passar o fim de semana com um bom charuto para degustar. Nada daquele Hollywood sem graça.

Entre um refrão e outro da animada música que tocava, Abel dava o seu melhor para agradar as já amigas visitantes. Ritmo que tive o prazer de dançar mais tarde, ao som do quinquagenário Buena Vista Social Club. Durante o encerramento do show em Havana, aqueles “hombres sinceros” ecoaram um grito tão emblemático quanto o ideal de Che Guevara ou os ombros bailantes do querido taxista: REVIVA CUBA!

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A comida caseira cubana explora muito os vegetais. Influenciada pela herança espanhola mesclada à africana, é muito comum na cozinha crioula ter como acompanhamento da carne de porco uma porção de abóbora ou batata doce. Aqui faço uma versão com um combinado das duas – aliás casam muito bem com a excelente cerveja cubana  (recomendo a Bucanero). Veja no post da receita: Vegetais ao forno à moda de Cuba.

(Fotos: Letícia Iervolino, Carol Iervolino e Priscila Dal Poggetto)

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