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Aos poucos fui entendendo aquela comida com pouco sal, pimenta ou qualquer outra especiaria que realçasse seu sabor. A cozinha cubana de simples sabor reflete exatamente uma nação que não pode ser o que almeja, porém dona de um povo de personalidade tão forte que não precisa de tempero. Eles mesmos o são. Divido aqui meu amor pelo povo cubano. Aos poucos cada um trouxe o seu sabor à série de 5 crônicas desta viagem que me fez repensar sobre a vida em si, de complexos assuntos políticos ao amor familiar. Agradeço ainda as incríveis amigas e companheiras de aventura Carol Iervolino e Letícia Iervolino

–LEIA TAMBÉM: O Salgado de Cuba , O Picante de Cuba e O Azedo de Cuba

1228É um copinho de cerâmica redondinho que recebe aguardente, gelo, água, limão e, para quebrar o azedo, mel ao fundo. Essa é a chamada “canchánchara” a tradicional bebida da cidade de Trinidad, outrora um dos polos cubanos de produção de açúcar. Trinidad é uma das cidades mais charmosas que já conheci. Tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade, suas casinhas conservam a arquitetura colonial e, ao mesmo tempo, trazem os dois sabores que sua famosa bebida mescla com maestria.  O azedo e o doce.

Foi em Trinidad que conhecemos as pessoas mais conformadas, digamos, com a igualdade na miséria. Mas percebemos que era mais medo de que algum delator pago pelo governo ouvisse quaisquer queixa do que outra coisa. Existia um azedo em cada comentário, em cada pedido por uma roupa usada como doação e em cada assobio malicioso às mulheres turistas que passavam.

Se em Havana ficamos espantadas com assédios verbais do tipo, “brasileiras hein? Comigo são 25 posições sem nenhuma repetição! Duvido que algum brasileiro faça isso” ou “Táxi 10 CUCs… Filho, de graça!”, em Trinidad o papo era mais pesado. Digamos que caminhar pela cidade é viver eternamente passando na frente de um canteiro de obras.

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Com o tempo fui entender que há uma grande confusão entre machismo e revolta. Não se pode tocar em turistas, mas ninguém disse nada sobre assédios verbais. No fundo, falar baixarias a uma mulher é uma tentativa para muitos cubanos de colocar os outros em um patamar abaixo a como se sentem. Psicologia pesada, mas facilmente observada no dia a dia de um país que sobrevive de um turismo nem sempre cordial. Não foi uma, mas sim inúmeras vezes que vimos gringos corrompendo cubanos por privilégios pífios, como doses mais longas de rum em troca de 1 CUC por baixo dos panos. O estrangeiro precisa se embebedar, mas o cubano precisa comer, comprar o remédio que não tem no SUS local ou mesmo trocar os sapatos. Assim, a conta fica difícil.

Obviamente, nada justifica o desrespeito com as mulheres, apenas estamos falando aqui da vida como ela é. Já ressabiadas com a postura masculina, mas encantadas pelas ruelas de paralelepípedo e sedutoras casas e praças, escolhemos um fim de tarde para caminhar por Trinidad e registrar fotografias de seu cotidiano. O passeio rendeu uma coleção de imagens incríveis (veja algumas delas aqui) e um encontro um tanto quanto “limão com mel”.

Procurávamos o melhor restaurante de Trinidad, indicado por um taxista, em um mapa posicionado na praça onde fica a famosa escadaria da Calle de la Música (um ótimo lugar para dançar salsa e bater papo, por sinal). Foi quando um simpático guia nos ofereceu ajuda para encontrar o local. Hesitamos um pouco, naturalmente, porque a cidade é cheia de bibocas escuras. Optamos por confiar no jovem cubano. Durante a caminhada de uns 10 minutos, nosso amigo de voz baixa bem peculiar nos contou mais outra história triste da vida no país, das dificuldades para sobreviver e do sonho de condições melhores para seu povo.

Fluente em italiano, contou-nos ainda que trabalhava com turismo para ganhar mais, no entanto, negou-se a aceitar uma contribuição por ter nos servido de guia. “É uma gentileza minha, fiquem tranquilas. Apareçam na Casa de La Trova mais tarde, aceito uma cerveja. Vocês são minhas amigas”. Pela nossa cara de jogador de pôquer, ele entendeu que jamais apareceríamos na tal balada de salsa. Dissemos adeus e jantamos um bom camarão à canchánchara, prato inspirado no tal drink.

1237Foi cruzar os talheres e o nosso amigo reapareceu no restaurante. Perfumado, vestia alinhadamente roupas italianas dos pés à cabeça: mocassim marrom, calça capri branca e camisa xadrez. Provavelmente, ganhara o traje dos clientes italianos que guiava pela cidade. Puxou uma cadeira e nós, educadamente, oferecemos um copo. Precisou apenas um gole para o papo da vida triste em Cuba continuar e a gente entender exatamente o investimento primoroso no visual. Rodeando sobre família, casamento e um sonho de viver fora de Cuba, ele arrisca:

– Eu não gosto das mulheres cubanas. Elas só gostam de quem tem dinheiro para sustenta-las, porque aqui elas ganham muito pouco. Menos que os homens. Eu quero casar com uma mulher estrangeira. Como vocês, brasileiras.

– Claro, porque casar com uma estrangeira é ganhar a alforria de Cuba, né? – Respondi.

E, assim, o mel que restava no fundo do copo da canchánchara passou batido goela baixo. Restou o gostinho do limão na desolada boca do nosso guia, que apostou na roupa italiana e no perfume francês, mas acabou caminhando sozinho até a Casa de La Trova. Não sei como terminou a noite do amigo, mas quem sabe tenha encontrado a salvadora de seus sonhos entre uma dose e outra daquela facetada aguardente cubana.

(Fotos: Letícia Iervolino, Carol Iervolino e Priscila Dal Poggetto)

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A canchánchara se tornou o símbolo de Trinidad, onde foi criada durante o período da guerra de independência contra os espanhóis. Inspirada naquele jantar e na bebida, criei esta receita com camarão, limão e mel, acompanhada do tradicional arroz branco à moda crioula. Como já disse nos posts anteriores, a cozinha crioula surgiu da herança espanhola influenciada pela africana.