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Aos poucos fui entendendo aquela comida com pouco sal, pimenta ou qualquer outra especiaria que realçasse seu sabor. A cozinha cubana de simples sabor reflete exatamente uma nação que não pode ser o que almeja, porém dona de um povo de personalidade tão forte que não precisa de tempero. Eles mesmos o são. Divido aqui meu amor pelo povo cubano. Aos poucos cada um trouxe o seu sabor à série de 5 crônicas desta viagem que me fez repensar sobre a vida em si, de complexos assuntos políticos ao amor familiar. Agradeço ainda as incríveis amigas e companheiras de aventura Carol Iervolino e Letícia Iervolino.

–LEIA TAMBÉM: O Salgado de Cuba, O Picante de Cuba e O Azedo de Cuba

572Entramos no táxi de Camilo naquela noite. Ainda um desconhecido. O destino era Varadero, a 3 horas de Havana. Sou uma apaixonada por carros e até aquele momento eu só lamentava que se tratava de mais um Geely a nos levar, não um Buick ou um Cadillac. Até que Camilo parou no primeiro posto para abastecer. Depois, no segundo. E no terceiro:

– Senhoritas, desculpe. Vou ter que ir até a minha casa pegar um galão de diesel. A Venezuela não tem mandado pra cá. Quase não há postos com diesel em Havana.

Aceitamos o desvio na rota. Fazer o quê? Ele nos guiaria pela noite por três horas. Se fosse alguém perigoso, o risco já havia sido assumido ao entrar naquele carro chinês com um globo enfeitando o retrovisor. Confiamos.

Rapidamente ele adentrou em um bairro de casas bem ajeitadas. Surpreendeu-me um Hilux estacionado em frente a uma delas (lembrando que a importação de carros em Cuba foi liberada em 2013, o que facilitou a compra de quem tem parente no exterior – leia-se ganhando em dólar um bom salário). Mas a realidade de Camilo, ainda naquele momento apenas um taxista, era outra. Vivia em uma casa bem simples, que deduzi dividir com outras famílias no bom e velho estilo cortiço. Abriu o portão enferrujado e pegou o galão. Abasteceu, guardou o restante do combustível, fechou o portão e anunciou:

– Vamos.

De certo, nosso maior perigo na estrada foi a falta de cintos de segurança no carro.

Camilo é um bonito cubano. Ainda não chegou aos 30 anos, mas já sentencia que não pretende casar. Cuida da mãe e da vó e já acha preocupação demais. Formou-se em educação física, era jogador de polo aquático. Mas, como a maioria, não sabe o que é exercer a profissão escolhida. Trabalhou por muito tempo como ajudante em uma oficina mecânica até que conseguiu comprar um carro e se tornar taxista. “Aqui em Cuba, taxista é o que mais ganha. Mais que médico”, lamentou.

O silêncio deixado pelo rancor das palavras só foi quebrado quando Letícia, minha amiga que é médica, indagou sobre a saúde pública. Camilo sentenciou o regime castrista: “A saúde aqui faliu faz tempo. Turista tem hospital bom, nós não. Remédios? Minha avó é diabética, precisa tomar três remédios. Nunca acho todos no posto (onde há medicação subsidiada pelo governo) tenho que pagar muito caro.”

Carolina, ao meu lado no banco de trás, questionou, então, sobre a educação. Camilo apontou outro falência. “Os jovens hoje nem querem estudar. Pra quê? Não vão trabalhar com o que querem mesmo. E se forem, vão ganhar muito pouco”. Camilo enumerou diversos problemas da situação atual de seu país. Da luta de poucos jornalistas para manter publicações clandestinas à famosa caderneta de alimentos. “Chegaram a ver o que vendem nas bodegas?”, sugere.

998 999 1000[Conferimos o sistema em Trinidad – FOTOS À ESQUERDA. Cada família tem uma cota de alimentos que pode comprar, porque é a forma de distribuir igualitariamente os produtos para todos. Justo se os valores não fossem tão altos e se a qualidade dos alimentos fosse garantida. O que vimos foram depósitos imundos e a manipulação deles sem algum rigor sanitário. Pela caderneta, a dieta mensal é basicamente de carboidratos. Não à toa a venda clandestina de carne se torna um dos principais problemas sociais em Cuba]

As palavras de Camilo se misturavam com a sonolência que eu sentia da cansativa viagem. Tentava me manter acordada de olho na estrada e de ouvido na sabatina promovida por Letícia, esta já com lágrimas nos olhos.

Passávamos por Matanzas, a cerca de uma hora de Varadero, quando bati a lateral da cabeça contra a janela durante meu último cochilo. Eles falavam sobre a falta de esperança de melhorias econômicas, mesmo com o fim do embargo norte-americano. Foi quando vi um outdoor com a figura de Che Guevara estampada: “Hasta la victoria siempre!”. Indaguei Camilo sobre todo o ideal de um mundo mais justo:

– O que deu errado, Camilo?

– Quem carregava o ideal no peito era Ernesto Che Guevara. Fidel foi um gênio liderando tropas. Não precisava e nem precisa de dinheiro, mas foi corrompido pelo poder de mandar em seu povo. Hoje, o que me difere de alguém como o Che, é que ele podia e foi o que queria ser. Eu não posso ser um simples professor de polo aquático. Eu não tenho a liberdade de ser eu. E sabe o que isso significa? Eu não construí nada. Nem meus pais, nem meus avós.

CHEA amargura de Camilo invadiu meu cérebro como um shot de café puro. Despertei de vez. Só não vou dizer que restara apenas silêncio, porque o motor a diesel daquele Geely fazia um barulho danado.

Para amenizar um pouco o clima, ele mesmo resolveu mudar de assunto: “Mas me falem do Brasil! Adoro as novelas… Avenida Brasil, Duas Caras, A Favorita”. É, ele pingou umas 10 gotas de aspartame naquele café já amarguradamente torrado. A última novela que vi foi Rei do Gado. Sabe?  Aquela da boiada correndo poeticamente para o… abate. Aquela que abordava uma tal de reforma agrária. Aquela que tinha um “senador Caxias” em eterna briga por um país mais justo.

– Como fazer dar certo, Camilo?

(Fotos: Letícia Iervolino, Carol Iervolino e Priscila Dal Poggetto)

***

Tive a feliz oportunidade de conhecer uma antiga fazenda de café no sertão de Varadero. Serviram aquele café deliciosamente passado do coador para um bule de ágata. Para acompanhar, nada como um bom mantecal cubano – sim, eles superaram os colonizadores espanhóis na primazia desta bolachinha. Passo aqui uma adaptação da receita tradicional: mantecais de café.