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Aos poucos fui entendendo aquela comida com pouco sal, pimenta ou qualquer outra especiaria que realçasse seu sabor. A cozinha cubana de simples sabor reflete exatamente uma nação que não pode ser o que almeja, porém dona de um povo de personalidade tão forte que não precisa de tempero. Eles mesmos o são. Divido aqui meu amor pelo povo cubano. Aos poucos cada um trouxe o seu sabor à série de 5 crônicas desta viagem que me fez repensar sobre a vida em si, de complexos assuntos políticos ao amor familiar. Agradeço ainda as incríveis amigas e companheiras de aventura Carol Iervolino e Letícia Iervolino.

–LEIA TAMBÉM: O Salgado de Cuba, O Picante de CubaO Azedo de Cuba e O Amargo de Cuba

697Talvez seja o azul daquele cantinho do Mar do Caribe que mexa tanto com a alma de quem pisa naquela areia branca. Só sei que uma suave marola invadiu a minha vida avassaladoramente e, simplesmente, mudou tudo. Pela primeira vez, chorei ao partir a caminho de casa. Eu não queria voltar. Guardei cada flor de papel que ganhamos dos garçons dos hotéis no café da manhã, assim como cada bilhetinho de camareira desejando boa estadia. Quando completei 15 dias em Cuba e passei pelo detector de metais do aeroporto , lembrei-me do primeiro abraço de despedida, entre tantos que haveria durante a viagem e eu mal imaginava.

Foi graças a um tornado que passou por Cayo Largo que conhecemos Jesus e Rudy, nossos amigos cubanos. Entre jogar uma partida de xadrez gigante (quase todos os resorts cubanos têm um, vai entender) e assistir ao show do hotel, optamos pela atividade mais próxima a uma noite caribenha: encher a cara de mojito e ir dormir com a dignidade de uma cabeça rodando em um travesseiro quase fofo.

No entanto, nem havíamos bebericado meio copo, quando um dos dançarinos da equipe de entretenimento do hotel veio puxar papo e nos convidar para o show. Em menos de meia hora já estávamos falando com o grupo de dança inteiro. Jesus sonha em morar em Amsterdã. Um mundo que conhece pelo clandestino acesso à internet, algo próximo a uma hora a cada 15 dias. Cubanos “comuns” não têm acesso livre, nada mais do que natural almejar o local mais liberal do mundo.

Já Rudy sonha em viver somente da escola de dança que abriu com sua esposa em uma pequena cidade a quatro horas de Cayo Largo. Sim, porque ele vai e volta de barco. “Morro de medo de avião”. Mostrou a foto da filha com orgulho: “ela já diz que será bailarina”. Rudy também é adepto ao mercado negro de internet. “Nos falamos por e-mail, quando conseguirmos nos conectar”, disse no último abraço. Um e-mail voltou. O outro ainda está sem resposta.

Outro adeus inesperado foi quando coloquei a mão no bolso para tirar as moedas e passar pelo raio-x. O papel com o e-mail de Amanda perdeu-se entre tantas malas. Esta canadense de 20 anos foi nossa companheira de rali pelo sertão de Varadero. Havia brigado com as amigas na balada da noite passada e, sozinha, resolveu enfiar-se nos cafundós daquela cidade tão famosa pela praia mais bonita que já vi na vida (Cayo Blanco). Assim como nós, acabou enternecida pela linda gruta azul de água doce e cristalina escondida no meio de pastos e plantações. Virou nossa irmã mais nova e curou a ressaca com um mergulho gelado.

280Da mesma terra de Amanda, os profundos olhos castanhos de Riley também ficaram para o lado de lá do detector de metais. Ele passou as 24 horas de cada um de seus 7 dias de estadia em Varadero completamente bêbado. Nunca mais vou me esquecer – além daquele olhar – de duas frases carinhosamente sinceras que dissera em um pequeno intervalo de quase sobriedade: “saudade da minha mãe” e “adoro sopa”.

Ainda ali antes do embarque, quase escutei as palavras de esperança do seu Arcênio, cubano que aguarda pacientemente a autorização do governo para ver o filho mais velho casar em Budapeste (foram separados após o divórcio e nunca mais se viram). Por um minuto, achei que ele havia gritado “consegui!”, mas era apenas o guarda da alfândega pedindo para eu liberar o caminho.

Despedi-me também do inacreditável Ford T estacionado no fundo do ateliê do brilhante ceramista Daniel Santander, em Trinidad. Chichi, como é conhecido, revelou-me contente a relíquia quando no bate-papo descobriu que sou apaixonada por carros. Foi a hora, então, de ouvir as últimas notas de Guilherme, o cuidador do museu de Varadero que dedilhou e cantarolou Roberto Carlos em um velho piano antigo para agradar as amigas brasileiras: “Só me resta agora dizer adeus/ E depois o meu caminho seguir/ O meu coração aqui vou deixar/ Não ligue se acaso eu chorar/ Mas agora adeus”.

Como dizem meus amigos argentinos Gabriel e Juan, “Cuba és mágico”. Sim, é um lugar mágico. Porque quem vai a Cuba, inevitavelmente, torna-se um pouco cubano. Ao passar por aquele detector de metais, meus olhos marejados decoraram o chão. Experimentei o doce de Cuba e, em troca, deixei lá o meu eterno sorriso.

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Os mais tradicionais doces cubanos são muito parecidos com os brasileiros. Entre eles, pudim de leite, goiabada com queijo, cocada e manjar. Mas já que estamos falando aqui de doce, passo uma receita com um ingrediente mais típico do que qualquer outro destes. Afinal, não existe nada mais doce do que doce de batata-doce (perco o leitor, mas não perco o trocadilho infame).