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15 - 1 (4)Não estavam de meia-calça listrada, mas despistaram alguns chapeleiros e, entre um sorriso e outro de um Gato de Cheshire, as três Alices acharam o País das Maravilhas fincado no coração do Rio de Janeiro. Como esta crônica tem todo o direito de entrar e sair de um livro a hora que sua autora bem entender, digo aqui que não foi tão difícil perseguir o coelho do relógio e encontrar o tal santuário onde o Rio também é lindo, mas poucos conhecem. Foi assim: caíram na toca, tomaram o líquido da garrafinha e entraram na porta que nada tem de pequena – os 23 metros de pé direito do Gabinete Real Português de Leitura.

Trata-se de uma biblioteca pública, considerada a quarta mais bela do mundo, atrás apenas da George Peabody Library, que fica na universidade Johns Hopkins; da Biblioteca Real de Copenhague; e Clementinum, em Praga. Sendo assim, os olhos das Alices brilharam. Até ali, nenhuma rainha mudou as cores das rosas. O País das Maravilhas das três continuava intacto.

É impossível descrever a magnitude deste edifício neomanuelino que abriga 350.000 livros em suas paredes, sendo milhares deles obras raras (entre elas, edição princeps de “Os Lusíadas”, de 1572, e o manuscrito do Amor de Perdição). E sim, qualquer um pode consulta-los. Inaugurado pela Princesa Isabel em 14 de maio 1887, o Gabinete Real Português é ainda a associação mais antiga criada pelos portugueses do Brasil após a independência de 1822.

15 - 4 (2)Para jornalistas/escritoras/leitoras como são estas três, entrar neste mundo isolado no centro do Rio de Janeiro causou paralisação maior do que encarar o julgamento do Valete de Copas pelo roubo das tortas da rainha. Com a pele arrepiada, as Alices recém-saídas de um daqueles tantos livros passaram a contar quantas letras, páginas, fantasias, personagens e fragmentos de vidas de seus próprios autores flutuam naquele lugar que permanece eterno em 1887:

– Vocês repararam como ficamos mudas?, disse Alice baixinho.
– Sim… – respondeu a outra Alice, após respirar fundo para recuperar a voz.
– “Templo” é aquele lugar que faz a gente falar baixinho sem pedirem, né? Acho que achei o meu.

Após o sussurro, a terceira Alice, então, puxou as duas outras pelas mãos. Voltaram para a estante, onde a Lebre de Março as esperava para mais um chá, acompanhado de um bom pedaço de torta – da confeitaria Colombo, claro.

Nota de quase rodapé: A obra Alice no País das Maravilha foi publicada em 4 de julho de 1865. É uma das mais célebres do gênero literário nonsense. Seu autor é o britânico Charles Lutwidge Dodgson (27 de janeiro de 1832/ 14 de Janeiro de 1898), que usou o pseudônimo Lewis Carroll para assinar a obra.

(FOTOS: Flávia Pegorin, Giselli Cardoso e Priscila Dal Poggetto)

Gabinete Real Português de Leitura
Rua Luiz de Camões 30, Centro.
Telefone: (21) 2221-3138
Site: http://www.realgabinete.com.br/
Horário de Funcionamento: Seg a sex, de 9h às 18h.

Confeitaria Colombo
Rua Gonçalves Dias, 32 / Centro – Rio de Janeiro
Tel.: 21 2505.1500
Site: http://www.confeitariacolombo.com.br/site/

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Toda em jacarandá e mármore italiano, a Confeitaria Colombo reflete em seus espelhos belgas mais de 100 anos de história. Aberta em 1893, este outro ponto histórico do Rio de Janeiro é o símbolo da belle époque da cidade e até hoje inspira quem quer viajar no tempo e em seus doces. O mais famoso de todos é o Bolo Rivadávia, criado em homenagem a Bernardino Rivadávia, presidente argentino entre 1826 e 1827. É um pão de ló recheado com doce de leite. Confira a receita no post anterior.

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