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DSC03230 - CopyBuenos Aires teve uma estranha noite de calor em junho último. Acostumada a congelar nesse período do ano na úmida cidade banhada pelo Río de la Plata, fiquei frustrada pelo excesso de bagagem de frio na minha mala, sem quase opção para o tal veraneio. Por outro lado, foi um bom momento para trocamos o socialista mate dos pampas pelo gelado Campari com suco de laranja. Não gosto muito de bitters, mas o contraste do doce ácido da naranja me fez olhar para o copo e reconhecer: “coisa boa, não?”.

IMG_2145 - CopyO terraço do Club Cultural Matiezo, onde a madrugada vai longe com uma baladinha alternativa, era o lugar mais fresco para ficar e, assim, encostamos os copos em uma mesa de canto. Entre goles, tragadas e refrãos de rock argentino, um médico, uma farmacêutica, um cientista político e uma jornalista transformaram a balada em um boteco à la 1960. As profundas discussões políticas não eram mais sobre planos contra ditaduras ou a solução comunista. Refletíamos sobre nós, latino-americanos que flutuam entre as gerações “x” e “y” e tentam fugir do status quo.

Em outras palavras, discordamos das ostentações do “America Way of Life”, não nos prendemos a empregos estáveis, altos cargos e salários não nos seduzem, somos avessos às políticas atuais e acreditamos que a humanidade precisa se reinventar. E é exatamente essa reinvenção de nossas vidas que buscamos. E onde? Em mestrados, doutorados, viagens, intercâmbios e carreiras profissionais que nos traga algo mais importante do que salário – sentido.

Após tanta filosofia de boteco, o médico despediu-se. Dentro de alguns meses pegará um voo para Nova York. Fará seu mestrado na área em que trabalha no governo argentino, saúde pública. Já o cientista político termina agora o mestrado em Buenos Aires para, logo em seguida, fincar o pé na Alemanha e concluir seu doutorado. Tinha aula de alemão no dia seguinte, logo cedo inclusive, mas fez questão de perder meia hora de seu precioso sono para dar uma incrível aula sobre seu objeto de estudo – uma comunidade paralela que, simplesmente, se nega a votar. No caso da farmacêutica, que odeia frio, concluiria no mês seguinte o MBA na Califórnia em gestão corporativa. “Vou pra Califa!”, animava-se.

A jornalista? Bom, eu fui consultar no já gelado dia seguinte o reduto dos… Jornalistas. Passei uma boa parte do meu dia no boêmio bairro portenho de San Telmo. Sentei-me ao lado da querida Mafalda, amiga de outros quadrinhos. Porque se tem alguém neste mundo com perguntas e respostas pertinentes, esse alguém é a Mafalda!

Pensei muito em Quino, o seu criador, assim como em tantos outros jornalistas/escritores/poetas/críticos/autênticos. Filosofei um pouco sobre a lembrança da minha última visita ao Malba (Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires) quando deparei-me mais uma vez com a brasileira Tarsila do Amaral e seu Abaporu. Ainda com a Semana de Arte Moderna na cabeça, arrumei uma mesa no disputado café La Poesia, o símbolo daquela letrada esquina oriunda da união da calle Chile com a Bolívar.IMG_2117

La Poesia é praticamente um templo para os coleguinhas (como nós jornalistas nos referimos uns aos outros), fundado em 1982 pelo também periodista e poeta Rubén Derlis. O local ficou consagrado ao fim da ditadura militar argentina, por reunir intelectuais e artistas a contemplar a democracia. Pedi um expresso, acompanhado de pão com doce de leite e manteiga. Combinação que os argentinos entendem como ninguém!

O que começou com o amargo Campari, terminou com uma colherada bem doce. Finalmente achei o caminho que procurava. Após 5 meses de imersão em uma profunda América Latina (ColômbiaCubaBrasil – Argentina), encontrei um novo sentido. Abri o mapa e marquei com o dedo grudento de doce de leite lambido o meu novo caminho.

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O café La Poesia foi, na verdade, fechado em 1988, mas jamais esquecido pelos intelectuais socialistas. Por isso, o casal de empresários Pablo Durán e Laura Carro o resgataram em 2008, juntamente com toda mobília, registros e memórias.

O prato mais pedido em qualquer restaurante em Buenos Aires são os milanesas – bife de coxão mole ou patinho empanado na farinha de rosca e frito. Tão típico que existe até uma rede de restaurantes chamada “El Club de La Milanesa”, que oferece o prato com tudo o que é tipo de cobertura, como se fosse pizza paulistana. Na noite com amigos argentinos estivemos lá e provamos alguns dos sabores. Muito bons para quem gosta de bife à milanesa bem fino e sequinho.

Porém, foi no La Poesia que o prato me chamou mais atenção, por ser servido como sanduíche: pão – milanesa – cobertura – pão. Criei, assim, a minha versão desse sanduíche em homenagem ao bom humor tão bem engajado politicamente dos queridos hermanos e coleguinhas argentinos. Veja no post da receita – Sanduíche de milanesa com queijo e molho especial.