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img_4787Meu céu preferido é aquele de chuva de Verão. Daquele bem carregado por nuvens que brigam ferozmente contra os tão dourados raios de sol. Eles resistem. Desafiam aquele denso azul cobalto que, de repente, invade a tarde. Talvez, seja tal nobre malemolência dos dois lados o que atraia tanto o meu olhar. Passaria horas observando este caos que, na verdade, para mim, traz a enigmática serenidade de um simples e profundo sentimento bom. Perco-me nestes céus, é fato. E foi assim, com a mente perdida em nuvens, que passei os últimos dois meses entre idas e vindas de Itatiaia a Porto Real, no interior do Rio de Janeiro, região onde existe o mais belo céu de chuva já visto por mim.

Quem pega a estrada que liga a Rodovia Presidente Dutra à antiga colônia finlandesa de Penedo entre os meses de outubro e janeiro vai entender. Das incontáveis vezes que fiz este caminho sob nuvens, tempestades, ventanias e quentes fins de tarde, demorou um pouco para eu reparar em uma briga travada muito além do belo céu carregado. É que à esquerda desta estradinha, já é possível avistar uma jovem índia deitada no alto da serra de Penedo. Seu nome é Jandira. Se você traçar uma linha em diagonal até a cidade, encontrará um suntuoso casarão onde poderá ver casualmente, apoiada sobre o parapeito de alguma daquelas janelas coloniais, uma outra mulher, Maria Benedita Gonçalvez, mais conhecida como “Rainha do Café”.

A guerra não é entre elas – nem sequer vivem na mesma época. Apenas lutam sob as tais carregadas nuvens de chuva por suas convicções, atravessando o tempo.

A bela Jandira arrasta a corrente de ser bela. Todos os homens da tribo a desejam e, por isso, ela foi prometida ao mais forte deles. Decisão tida como a “mais sábia” por seu pai, o cacique Caboacu. Mas ela não amava Gurupema. Amava Jatyr, habilidoso arqueiro. Os dois foram, então, submetidos a um duelo e, assim, Jatyr espantou Gurupema com uma humilhante flecha atravessada na orelha de seu rival. Mas Gurupema voltou. Ah, voltou. Não para buscar Jandira. Precisava resgatar seu orgulho, afinal, por que Jatyr não o matou? Armou uma emboscada para Jatyr e o executou a irônicas flechadas.

Não contente, regressou à tribo e disse a Caboacu que Jatyr havia traído a todos e que estava a caminho com os Emboabas, a tribo inimiga embebida de vingança por ter sido expulsa daquelas terras. Diante do alarde, o pajé e guia espiritual da tribo ordenou a morte de Jandira e a imortalidade de seu corpo, transformado em pedra, com a forma das cordilheiras que cerram aquele vale. Desde então, Jandira faz força hercúlea para destruir as armaduras petrificadas por orgulho, vaidade ou mesmo medo daqueles que tentam se proteger de suas doces e frágeis essências. Talvez seja exatamente por isso que essa índia seja tão temida na região, afinal, Gurupema ainda usa as flechas de Jatyr e pode atingir um desavisado coração aberto.

Mas o que acontece quando Jandira consegue tocar o coração das pessoas e, assim, tirar suas proteções? Bom, alguns escapam das setas cuspidas em meio à tempestade, mas outras não. Aqueles pegos de surpresa e abatidos por conflitantes sentimentos tombam por terra. No entanto, antes que o pajé os petrifique na Serra da Índia, uma jovem senhora ordena a seus empregados que resgatem os feridos e os levem a seu casarão. Esta é a Rainha do Café, nascida em Resende em 1809, filha de uma índia e de um tropeiro que, mais tarde, tornou-se um rico cafeicultor e ganhou o título de comendador.

Maria Benedita nasceu sem armaduras e, por isso, sempre olhou diretamente nos olhos de Jandira, sem medo. Por ter como grande paixão a humanidade em si, ela simplesmente fazia o bem. Tal paixão destemida a tornou uma mulher muito diferente para os padrões de sua época. Entre seus feitos estão uma campanha de vacinação em massa contra a varíola em 1876, a construção e a manutenção da Santa Casa de Misericórdia de Resende, a manutenção de escolas públicas da região (pagando o salário de professores, inclusive) e alfabetização de escravos. Ensinou-os também a ler partituras e, assim, sem imaginar, de sua orquestra nasceriam as primeiras notas da música popular brasileira: com a abolição, tais músicos se juntaram a outros no Rio de Janeiro, que consolidaram o Choro e o Samba como genuínos ritmos.

Tudo muito poético até aqui, o exato momento quando o meu carro passou pelos calcanhares da índia Jandira. Para começar, ela teve de me tirar à unha do carro. Puxou-me pelos cabelos através da janela mesmo, enquanto eu me debatia na tentativa de seguir em alta velocidade, rumo à cervejaria mais próxima – Penedo, aliás entrou na briga para ser agregada ao roteiro oficial do país de cervejas artesanais.

Diante de guerreira tão bem treinada, Jandira teve de dar um golpe certeiro e estraçalhou o meu elmo. Até tive tempo de olhar para trás e estudar as pegadas de Gurupema, mas meu olhar desviou-se, mais uma vez, para o céu cobalto e, inevitavelmente, fui hipnotizada pelas nuvens de chuva.

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Despedida do Casarão

O trovão escondeu o som da flecha atravessando o ar que, em segundos, já cortava a mecha dourada de cabelo que timidamente escondia a ponta da minha orelha. Acordei já no Casarão, sob os cuidados da Rainha do Café. Ela me estendeu um pano branco umedecido e me fez aliviar o rosto:

– Jandira te presenteou com o “desapego”. Dou-te agora o frescor da “serenidade”. Bom retorno.

E como choveu naquele dia…

(Fotos: Priscila Dal Poggetto, Luís Camargo, Juliana Cassini e Cléa Tiepo)

***

A serra de Penedo foi batizada de “Serra da Índia” justamente por ter a forma de uma mulher deitada e, assim, ganhou o charme da lenda sobre a índia Jandira. Uma das mais belas vistas que se tem deste lado da cidade é da pousada homônima, que atrai muitos hóspedes pela deslumbrante vista que se tem de Jandira, a índia petrificada, e pelo aconchegante isolamento do burburinho do centro. É impossível não ficar em paz em um lugar tão inspirador como este.

Na pousada Serra da Índia há também um excelente café da manhã, onde pude experimentar um incrível pão de ervas. Obviamente, lancei o clássico “como faz? ”. E, gentilmente, dividiram com o Volto pro Almoço. Confira aqui a receita do Pão de Ervas da Serra da Índia.

Outro café da manhã inesquecível é o da pousada Rainha da Mata, que traz como especialidade o já famoso bolo de achocolatado com café solúvel. Confira aqui o Bolo Rainha da Mata.

Serviço
Pousada Serra da Índia
http://www.serradaindia.com.br
contato@serradaindia.com.br
(24) 3351-1185 / 3351-1804

Pousada Rainha da Mata
http://www.rainhadamata.com
contato@rainhadamata.com
reservas@rainhadamata.com
(24) 3351-3592