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img_5890Fazer nada é tão bom que Deus criou a praia. Mar, areia, brisa na cara, sol torrando o sapê e o sapê fingindo que protege os pés estirados para o alto, fitando a mão, que, por sua vez, segura a caipirinha. Deu para entender, né? Esta era a tal da “vida muito mais ou menos” na Praia de Itacarezinho, a última viagem desta série na Costa do Cacau, como é conhecida a região do litoral sul da Bahia. Honrando Jorge Amado, regionalizei meu dulcíssimo fazer nada com uma caipirinha do fruto do cacaueiro (tem cara de cupuaçu, mas o sabor é completamente diferente).

Para continuar este ensaio sobre praiafazer nadaembriaguez, é importante esclarecer aqui que minha amiga Chris e eu chegamos bem cedo e inspiradas à praia mais cara da região. Além da linda paisagem, lá existem apenas o caríssimo  Txai Resort e o caro Restaurante Itacarezinho. Por uma equação simples do famigerado “é o que tem pra hoje”, optamos pelo adjetivo sem superlativo e sentamos elegantemente – e de frente para o mar – à mesa de madeira com guarda-sol de sapê da segunda opção. Começamos às 9h da matina justamente porque o local lota e não trabalha com reservas.

 

O que posso dizer, senhores, é que nesse ritmo nada mal de caipirinha e vinho rosé matinal, quando o sol atingiu o pico do meio-dia, nós duas já tínhamos fome o suficiente por toda a nau de Cabral, sensibilidade zero na sola do pé para perceber que a areia estava escaldante e aquele bom e velho sentimento de gente riiiiiiiiiiiiicaaaaaaaaaaaa:

– Mais duas caipirinhas, por gentileza. Ah, para o almoço, L-A-G-O-S-T-A.

Pensar na conta numa hora destas é estragar o que chamo de “pequenos prazeres impulsivos da vida”. E como todo pileque transforma qualquer assalariado em acionista majoritário no tabuleiro do “Banco Imobiliário Jr.” (gostava da versão Júnior porque era mais rápida), a lagosta chegou logo após os dadinhos de tapioca que abriram os trabalhos e foi brilhantemente harmonizada com a sobremesa, na sequência. Refiro-me à cocada de forno inesquecível tombada ao lado de uma bola de sorvete de não-me-lembro-mais-do-que. Obviamente tudo brindado a:

–  Mais R-O-S-É, por gentileza.

Conforme a digestão evoluiu e a vida voltou a rodar menos, chegara, então, o momento poético de caminhar pela orla. Sou daquelas que tira um momento eu e o mar, o mar e eu. A gente se respeita, sabe. Encaro-o sem titubeios e sem firulas. Da sua parte, ele pega meus pensamentos e leva lá para a linha do horizonte, onde ninguém mais pode nos ler. Só que essa serenidade entre a gente foi tempo suficiente para a Chris se aventurar naquele paraíso. E sabe como é mulher, né? É só a amiga se distrair para sair se perdendo de amor por aí. Dito e feito!

De Biusch - Trabajo propio, CC BY-SA 3.0Naquele finalzinho de dezembro, a costa baiana fora invadida por caravelas-portuguesas. E elas fisgaram o coração de Chris. Não, não eram barcos com marinheiros estilo propaganda de desodorante. Aliás, fui saber o que era uma caravela-portuguesa quando me deparei com a minha amiga hipnotizada pelas cores berrantes deste bicho transparente em contraste com a areia clara.

Na verdade, ela é uma colônia de 4 animais inseparáveis e que lhe dão a mistura de roxo com azul ao corpo transparente semelhante ao da água viva. As caravelas-portuguesas têm este nome porque podem usar o vento para se movimentar. Extremamente venenosas, uma fisgada pode ser fatal. Ou seja, tão perigoso quanto se apaixonar por um tripulante bonitão de qualquer jangada perdida por aí.

– Amiga, eu estou apaixonada… Será que posso levar o meu amor de verão comigo?

– Vai nessa, encosta nisso aí pra ver que beleza de paixão você arrumou.

O sol já ensaiava se por e a brisa do dolce far niente começava a passar de vez. Era a hora de pagar a conta riiiiiiica, despedir-se de Itacarezinho e de todos os perigos que o mar, os pileques, as caravelas e as paixões podem trazer. Era o momento de ouvir Tim Maia e retornar a Itacaré.

***

Como sou da filosofia de que lagosta se come em restaurante, a receita que passo como lembrança da brisa na Praia de Itacarezinho é a dos dadinhos de tapioca com molho agridoce apimentado. Uma forma de homenagear o calor da Bahia, das caravelas-portuguesas, das pimentas, das músicas de Tim Maia e, claro, dos corações apaixonados que passaram por estas estradas e mares, nesta viagem planejada para dizer adeus ao incrível ano de 2015 e que, como ele, deixou muita saudade.

Quer ler toda esta trilogia baiana? Aqui estão as outras duas crônicas: Itacaré tem sua Bahia e Tim Maia e a BR-030