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Toda vez que o avião pousa no Santos Dummond, meu coração acelera: está tudo ali! Lapa, Corcovado, Santa Teresa, Ipanema… Ufa, o Rio de Janeiro continua lindo, com ou sem trilha sonora de Gilberto Gil. E como é lindo o nosso querido “Érre Jota”! O que posso dizer é que de boas histórias a meu respeito o Rio está cheio, assim como também das crônicas de todos aqueles que por lá passaram e puderam se beneficiar da atmosfera indescritível desta cidade.

Justamente por isso, nessa miscelânea das mais variadas e interessantes vidas, tendo como plano de fundo o bom e velho RJ selecionei, então, quatro personagens que vez ou outra se cruzam na cidade para jogar meia dúzia de risada fora. A brincadeira de agora é a seguinte, responder à inquietante pergunta: o que é o Rio de Janeiro para você?  Assim, gratuitamente, só pelo prazer de ouvir a Giselli cantarolando a felicidade de usar qualquer roupa, a Flávia balançando as pernas na muretinha da Urca e o Fábio, como sempre, desafiando-me com a frase que já virou jargão em nossos diálogos: “ô garotinha…”.

img_1509A Urca de Flávia Pegorin
Flávia (ou Flá Wonka, para quem já teve o prazer de planar sobre as linhas do Garotas Que Dizem Ni) é uma devoradora de mapas. Adora estudar cada cantinho da cidade e traçar destinos com planos A, B e C, a gosto do freguês que a acompanha. Sambista nata, mesmo que não assuma e sabendo sequer uma letra inteira, entrega-se ao ritmo carioquês como ninguém. Mesmo assim, não é a sonoridade da Lapa que comove as pestanas desta escritora que se fez jornalista (porque a gente inventa destas, sabe). O Rio de Janeiro para Flavia Pegorin são os pezinhos soltos, balançando ao ar livre da mureta da Urca, em frente ao famoso Bar Urca, apreciando a pinga macerana no açúcar e no limão. Caso tenha a felicidade de avista-la na mureta, sugiro admirar um pouquinho aquele sorriso leve sentindo o por do sol tombar no rosto. Vale tanto quanto uma golada de caipirinha do Bar Urca.

img_1478Fábio, o ipsis litteris da botecagem
Quando um paulista boêmio muda de endereço, tenha certeza de que ele vai honrar a roda de cerveja no novo CEP. Fábio levou isso tão ao pé da letra, que já conhece mais boteco da Lapa ao Vidigal do que qualquer outro carioca. Ah… Conhece! Jornalista que é, jamais abriria mão de uma boa roda de bate-papo com bolinhos e cervejinha gelada. Boteco com ele é certeza de boas risadas, boa comida e chorinho na saideira. Se quer ter uma tarde memorável, fica a dica: escolha bons amigos (mas tem que ser bom mesmo, seja de papo, garfo ou xaveco) e vá até o Adega Flor de Coimbra  discutir a última partida de futebol, o sexo dos anjos, o empoderamento feminino ou o último divórcio mesmo. Na saída, aproveite a bela e poética Escadaria Selarón para curtir o fim do leve pileque causado pela combinação de vinho verde e cerveja com bolinho de bacalhau. Ah, e se escutar de longe um “ô garotinha..!”, olhe para trás. Pode ser o Fábio tirando uma da minha cara.

img_1723Giselli, shorts e camiseta
Alta, linda e dona de um sorriso sarcástico que engole o mundo de tão encantador. Filha de inglesa, Giselli segue à risca sua origem ao se vestir impecavelmente para o dia a dia paulistano. Gosto de chama-la de Rita Hayworth. Nada melhor a define até a página “Rio de Janeiro”. É só pisar naquela terra que a nossa inesquecível Gilda arremessa  longe o drama noir e veste as sandálias de couro para finalizar o look shorts- camiseta baby look-bolsa carteiro. Não importa aonde vá, Giselli atravessa os quatro cantos da cidade, incluindo o cheio de frescos e frescuras Aprazível (restaurante badaladinho de vista inesquecível e comida nem tanto assim). E posso falar? Continua Rita, Gilda ou, simplesmente, aquela prática Giselli que me disse: “ai, Pri, de verdade? o Rio para mim é não me preocupar com que roupa eu vou. O Rio é desencanado, sabe, é fazer sucesso de shorts e camiseta”. Só posso concordar. Se  “nunca houve uma mulher como Gilda”, também nunca houve um look shorts e camiseta como o de Giselli.

img_6761Priscila na casa engraçada, que tem teto e se chama ‘Amarelo’
Meu coração e toda poesia que bate nele mora na Casa Amarelo. Um hotel butique no centro do meu bairro preferido no mundo, Santa Teresa. Não sei mais viver sem aquele pé direito enorme, as janelas coloridas, a mobília retrô chique, o piso de taco de madeira e aquele elevador de mil novecentos e bolinha, que precisa puxar a grade-sanfona de ferro para conseguir sair do lugar. Se um dia eu casar, se um dia eu morrer (acho que vou, não sei ainda), se um dia eu tiver R$ 2 milhões para comprar um imóvel, será lá onde brindarei, ao pó voltarei ou me aposentarei. Até lá, prometi a mim mesma que me hospedarei naquele lugar ao menos uma vez por ano. Boas histórias não me faltam. Desde os papos madrugada a dentro – daqueles de doer a barriga de tanto rir – com a Flávia Mureta da Urca e a Giselli Shorts Camiseta (obviamente, regados a vinho e abençoadas cigarrilhas baianas), até o surrupio de uma banana na cozinha para curar a larica causada pelo vinho. Evento este que acordou o plantonista da recepção na alta madrugada, que saltou do quarto com os seus 2 metros de cabelo e de barba,  rendedo-lhe o melhor apelido do mundo: a Mulher Barbada do Casa Amarelo.

Ah… o Rio…

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img_6709O café da manhã na Casa Amarelo é uma daquelas lembranças gastronômicas que guardarei para o resto da vida. Seja pelo sol batendo no taco de madeira, seja pelo misto quente ou pela bossa-nova tocando baixinho de trilha sonora do tradicional debate matutino “o que faremos hoje mesmo?”. Os trajes? Shorts e camiseta, naturalmente. Sendo assim, publico no post da receita desta história a de misto quente. Sim, quentiiiiinho. Mas é do jeito que eu mais gosto de comer, acho que vale a pena dividir este segredo

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Os nossos lugares

Bar e Restaurante Urca (fundado em 1939
Patrimônio Cultural Carioca desde 2012)
Rua Cândido Gaffrée, 205 – Urca

Adega Flor de Coimbra (onde beijos ousados são proibidos, segundo a placa)
Rua Teotônio Regadas, 34 – Centro

Aprazível (vale pela vista e pelo palmito pupunha assado)
Rua Aprazível, 62 – Santa Teresa

Casa Amarelo (é um estilo de vida e onde mora meu coração)
Rua Joaquim Murtinho, 559 – Santa Teresa