Tags

, , , , , , , , ,

A Espanha em Bossa Nova, capítulo 1.

Barcelona, quantas vezes me disseram que você seria meu grande amor. Foi quando assim, você sorriu para mim e não disse nada, porém é tarde. Já arranjei outro, como na batida da bossa de João Gilberto (ouça aqui, “Sorriu Para Mim”). Nada que estragasse nosso verão, pelo contrário! Sempre há uma interessante aventura a ser vivida por aí. No seu caso, digo isso porque, vejo-lhe como uma grande colcha de retalhos. Confusa sobre o que quer ser, mergulhada nesse seu catalão áspero, beirando o mal-educado.

 

Às vezes, olho para sua cara limpa e me lembro de lugares mais comportados, sei lá, Vancouver, Liverpool. Sabe, largas calçadas, tudo arrumadinho. Mas há seus cantos mais punk rock, como se fosse uma Berlim latina, onde rua não é uma simples “calle”, é catalã, é “carrer”! Também me acordava com seus cafés de esquina, como Buenos Aires. E teve também momento de extremo silêncio e reclusão, de fim de tarde às sete horas da noite, no Jardim Botânico. Solstício refletido no relógio solar, algo que romanos, gregos e egípcios faziam bastante.

 

Se é para falar de praia, fica ali ó, algo entre Miami e Nice. Naquele alto verão de agosto de gente empilhada na areia grossa, seios de fora e tangas largas, preferi beber seu sol em sangria, observando tudo do calçadão. Estava longe do meu saudoso Rio de Janeiro, mas o cafuné do seu torpor me afagou com maestria. Seria muita inocência da minha parte se duvidasse da malemolência de quem nasce com os pés no mar.

Não, você não foi o meu grande amor, porém inevitavelmente suas contradições com livre direito de ir e vir ainda mexem comigo. Lembranças e pensamentos que traspassam quaisquer paredes curvas de Gaudí, o famoso arquiteto que uniu por meio de esquadro e compasso homem, Deus e natureza ainda no início do século XX. Você, Barcelona, tentou me provar a perfeição de tais cálculos. Eu lhe desafiei e disse que faltava poesia. Nem mesmo o Parque Güell me comoveu, dono da vista daquela linda varanda envidraçada, que fez lindas as manhãs na casa do audacioso arquiteto. E olha que já tinha conhecido as encantadoras casas Milá e Batló dias antes, também projetadas por ele.

img_0025Irritada com tamanho desaforo, você, Barcelona, puxou-me pelos pés e levou-me de cabeça para baixo até a Catedral da Sagrada Família, a obra prima de Gaudí. Aliás, onde ele passou a morar até o fim da vida e, inclusive, onde está enterrado. Durante o caminho, ralhava comigo argumentando que o arquiteto-artista calculou tudo com finas correntes penduradas como colares, sobre um espelho. Se no mundo “real” tudo estava de ponta cabeça, na poesia do reflexo do espelho via-se ali a catedral erguida. E assim foi feita. E, da mesma maneira, você me carregou e bagunçou tudo. É… Fez exatamente daquele jeitinho de quem quer conquistar.

Quando me deixou fincar os pés no chão, já estava dobrada à sombra da imensa catedral sustentada pelos simbólicos cascos de tartarugas marinhas gigantes. Sim. Sucumbi. Era poesia. Pura poesia. Em poucos lugares vi tanta poesia. Aquele era o seu coração, Barcelona, completamente escancarado para mim.Vivi alguns dias naquele frenesi da sua paixão de verão.

Até que, na véspera da minha partida, as suas próprias contradições fizeram-na me perder. Foi entre os bairros Gótico e Born, em algum cantinho boêmio daquele miolo alternativo. Não sei exatamente onde. Só sei que lembrou-me Paris, esta sim meu grande amor. Já não dava mais para brincar de encanto. No dia seguinte, dei um abraço estranho em você. Na estação de trem, lembra? Seguiria para Valência. Você me disse algo em um catalão meio amargurado, meio revoltado. Como não consegui entender, respondi com a típica ironia com a qual se consagra estes desencontros da vida, “merci, de rien”.

***

Bairro Gótico - Carrer de las MagdalenasCalle de las Magdalenas. Este e um dos nomes das muitas ruas estreitas e boêmias do Bairro Gótico, em Barcelona. Ela pertence ao lado mais “beco-diagonal-do-Harry-Potter”, com menos glamour do que o bairro Born, mas não menos charmoso. Escolhi esta rua para ilustrar a receita deste post, pois ela foi referência na viagem de “onde era que ficava mesmo aquela loja legal que eu vi aquele vestido lindo?”. Perdi o vestido, pois deixei para ganhar depois, mas ganhei um cantinho no coração gótico deste bairro tão interessante. E o que tem a ver com a receita? Ah, as Magdalenas… Aqueles bolinhos fofinhos, que os americanos chamam de muffins, mas que o espanhóis sabem fazer como ninguém, a ponto de até aquele vendido no aeroporto ser incrivelmente bom! Veja aqui o post da receita de Magdalenas clássicas com recheio de chocolate.