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A Espanha em Bossa Nova, capítulo 2

Andar a média de 15 km por dia pelas ruas de Valência – algo traduzido pela média de 20 mil passos – não significa que você a tenha conquistado. Ao contrário. Valência revela-se aos poucos. É ela quem chega a você e te seduz, sem que ao menos você perceba aquele mar no olhar. Assim como a bossa tão bem interpretada por Caetano Veloso (assista a “Samba de Verão” aqui) repete, falamos sós ao céu, pois chegamos durante uma calada noite de domingo e muito mal recebidos pela anfitriã, paga via Airbnb. Com as malas no meio da rua, despertamos a atenção de Natália, garçonete de um bar bem longe dali. Como notou algo estranho, ofereceu ajuda e ligou para a dona do apartamento, dando-lhe severa ordem de nos receber naquele momento.

Meia hora depois, conseguimos adentrar à espelunca, que, justamente por assim ser, forçou-nos a ficar a maior parte do tempo possível na rua. A partir daí, Valência nos engoliu. O ritual matutino do trio desta viagem aqui era tomar café da manhã no Bar Pasaje, boteco enfiado em uma galeria que, sim, era uma passagem prática para cortar caminho. Combinação mágica: ovo, bacon, café preto, suco de laranja, pão, manteiga e os deliciosos “fartons” valencianos – um tradicional pão doce que eles costumam mergulhar na orxata de xufes ou horchata de chufes (leite doce e sem graça produzido a partir do tubérculo da junça, típico da região). Isso aí segurava a gente na primeira etapa do dia, o turismo histórico pelas ruelas medievais da cidade. Algo que sempre terminava à mesa de um bar com cerveja local, já que detestamos a tal “Água de Valência”, uma combinação de cava com suco de laranja (o famoso Hifi-só-que-não).

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Pós cerveja, partíamos para qualquer ponto turístico indicado por guias ou amigos. Podiam ser torres medievais com vista panorâmica da cidade, como igrejas erguidas em 1200 com padres fazendo sermões de 1200 também. Podia ser ainda o tradicional mercadão – FECHADO! É claro que chegamos na hora errada, mas fomos salvos por mais cerveja local e um incrível “bocadillo” de morcilla ou, como diz um dos integrantes deste trio, linguiça do mais puro purê de sangue. Iguaria saborosíssima servida nas barraquinhas em frente ao prédio histórico.

Outra opção era a praia, com aquela extensa faixa de areia animando o Verão europeu. Mais uma desculpa para sentar em um boteco da playa Malvarrosa e experimentar cervejas. Ok, aqui rolou muita sangria também. Bom, na eleição do melhor goró entre uma filosofada e outra de botequim, a vencedora foi a cerveza Tyris. Mas calma! Esta ainda não era a nossa Valência (parafraseando aquele rico lá do programa de viagens). Tinha muita sola de tênis para caminhar ainda.

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Estávamos à busca de um bom jantar de despedida. Indicaram o famoso Roberto. Após muita caminhada na quente noite valenciana, encontramos o tal lugar fechado por vacaciones – durante as férias de verão, muitos estabelecimentos fecham na Espanha, justamente porque a vontade de ver turista é zero. Sem rumo no lindo bairro de Gran Via, simpatizamo-nos com as cadeirinhas na calçada do restaurante Los Madriles. Optamos pelo menu do chefe, com uma impecável sequência de tapas e, assim, finalmente, Valência abriu seu coração.

Depois de duas garrafas de vinho branco e nem sei mais quantas doses de Mistela, um vinho de sobremesa da região, fizemos o longo caminho de volta a pé, até o outro lado da cidade. Naquela madrugada, Valência ouviu muita cantoria e muita gargalhada. Assim como viu uma ou outra disputa de corrida no meio do Jardim dos Turias – um imenso parque público que corta toda a cidade e que, no passado, era o leito do rio Turia, aterrado após uma grande enchente na década de 1950.

Foi nesse ritmo sem compromisso, sem hora, sem ter o que perder, sem ter o que fazer, que chegamos aquele lugar onde passávamos todo santo dia, independentemente aonde iríamos mais tarde ou de onde vínhamos. Nosso porto-seguro era a famosa Cidade das Artes e Ciências, projeto do incrível arquiteto Santiago Calatrava. Em uma área de 350 mil metros quadrados, o equivalente a dois estádios do Maracanã, o complexo reúne um grande jardim público (que se une ao Jardim dos Turias), planetário, museu interativo de ciências, o maior aquário da Europa e uma Casa de Ópera. Lanço a polêmica aqui e apelido todo esse conteúdo de “pura bobagem”. Não precisava ter nada lá, sendo bem purista. Nunca vi construção tão harmônica, tão bela.

012ce11a057aefe28287875f3f720c6a9fb96144ffAgora, dá para entender por que, ainda com a respiração ofegante dos tiros de corrida de brincadeira no parque, o que importava mesmo para nós era apenas ficar ali. Dizer ao céu. Contemplar aquela lua cheia, criada pelo universo exclusivamente para iluminar tamanha arte feita de concreto e bossa, muita bossa: “Nunca vi coisa assim. E passou, nem parou. Mas olhou só pra mim.”

***

Confesso que o kebab com Heineken do indiano a três quadras do nosso prédio foi um mata larica dos deuses naquela madrugada turbulenta de quando chegamos a Valência.  Aliás, esta deve ser a capital dos kebabs, nunca vi tanto boteco deles. Porém, há muitos pratos típicos da região e já adianto que vale a pena experimentar todos. Um deles, no entanto, ganha disparado tanto no quesito “Valência” quanto no “Espanha”. Não, não foi nem a orxata (ou horchata) e nem os fartons mergulhados nela o topo gastronômico da lista. Foi a paella valenciana! Esqueça tudo sobre paellas que você tem em mente, caso nunca tenha saboreado uma autêntica paella valenciana.

Esta é a paella original, criada pelos camponeses da região no século XVI, e contrariamente ao que se pensa por aqui, não comporta peixes nem frutos do mar. É feita com frango, coelho, escargots, e muitas verduras como alcachofras, ervilhas, vagens, favas, tomates, pimentões, azeite de oliva e açafrão. A receita original sofreu alterações conforme foi disseminada para as outras regiões, recebendo, então, ingredientes locais, como frutos do mar, na Costa Brava etc..

A melhor parte desta paella está em um detalhe de seu cozimento. Como o arroz não pode ser mexido, forma-se no fundo e nas laterais do tacho o que os valencianos chamam de “socarrat”, nada mais do que os grãos queimadinhos, que adquirem cor marrom e crocância indescritível. Confira no post da receita como se faz a autêntica Paella Valenciana.

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