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A ESPANHA EM BOSSA NOVA, CAPÍTULO 3

A tarde não era em Itapoã, era em Mallorca, mas o repeat acionado na tão inspiradora bossa de Vinicius e Toquinho (assista e ouça aqui “Tarde em Itapoã) traduz o clima daquelas tardes. Em pleno solstício de Verão, o sol recolhe-se apenas às 21h no Mediterrâneo. Isso garantiu certo tom de eternidade àquelas conversas jogadas na orla, às risadas cheias de areia, aos pensamentos perdidos na tempestade vista lá longe, no mar. A argumentação era com doçura, mas na ausência da cachaça de rolha, muníamos-nos do vinho rosé local de 3 euros. Dias pra vadiar.

Dias que amanheciam num apartamento arejado em Palma de Mallorca, daqueles onde as cortinas flutuam com a brisa que entra pela porta da extensa varanda. Mas a calmaria matutina era sempre quebrada ao tirar o carro da garagem apertada. Fora as 350 manobras – que no quinto dia já eram apenas 10 – a despedida da rotina fazia-se na na estrada, ao explorar esta enorme ilha espanhola. A lista de destinos era extensa. Aliás, conseguimos cumpri-la com a campainha da garganta esganiçando versos de rock a soul, em uma mistura bem interessante de Iron Maiden, Tim Maia, Alicia Keys, entre outros clássicos.

Culpa das paisagens, que de tão estonteantes faziam o espírito flutuar. Ficam na memória, então, as Coves Del Drach e suas estalactites, estalagmites e todo aquele vocabulário quase esquecido das aulas de geografia. Também o gracioso vilarejo de Valldemossa, fincado nas rochas e desenhado pelas ruas estreitas, feirinha de comidas típicas e cafés para sentar e assistir às vidas a desfilar.

A lista da saudade ainda tem o belo lago no meio do chamado Caminos de Mallorca, um caminho de viajantes na rota de algum lugar legal por ali a se conhecer. O silêncio mais aconchegante que já senti, quebrado apenas pelos passos dos dois burricos que passavam.no momento. E vimos castelos fortificados. Vimos ainda a bela praia escondida de Sa Calobra.

Lugar, inclusive, onde fizemos a farofada típica de “panadas mallorquinas de carne e sobrasada” (um empadão com massa de empanada e recheio de carne misturada a um embutido local) e ensaimada – pão doce feito de massa de brioche e creme de baunilha ou nata no recheio. Não gostamos muito de nenhum dos dois, pra dizer a verdade.

 

Ah, e vimos faróis. Os apaixonantes e intrigantes faróis. Capdepera e Formentor foram os que chegamos bem pertinho. Este último, Formentor, rei de uma das paisagens mais incríveis que já vi na vida e onde encontrei aquele hipnotizante céu de chuva brigando com os raios de sol.  

Muitas vivências, muitas histórias, mas nada seria tão memorável sem os tais pores-do-sol na Playa de Palma, que ficava a uns 500 metros do nosso apartamento. Eles não eram só a cereja do bolo. Eram a cereja com marshmallow e calda de brigadeiro do bolo.

Esticávamos a canga na areia, sentávamos e abríamos a garrafa de vinho. A graça era entregar-se ao pôr-do-sol, defronte ao mar, e ouvir Bossa Nova em alto e bom som, do aplicativo do celular mesmo. Uma paz um tanto quanto subversiva para o mundo praiano europeu, mas não estávamos muito preocupados com isso. Era muito mais interessante olhar a rota dos aviões que riscavam o sol. Era muito mais divertido rir do pileque do Vinicius e do Toquinho que, como nós, àquelas horas já sentiam a terra toda a rodar.

***

palma-de-mallorca-8Palma de Mallorca (ou Maiorca) é a capital desta que é a maior ilha do arquipélago das Ilhas Baleares, localizado a leste da Espanha. Foi onde alugamos um belo apartamento de um casal de russos. O lugar cheirava a amaciante de roupa e tudo era impecavelmente organizado para nos sentirmos em casa. Fomos tão bem acolhidos pela doce mamãe russa, que a apelidamos carinhosamente de “mamuska” – obviamente sem ela saber, até porque jamais entenderia a piadinha dos brasileiros engraçadões cuja língua nativa é a portuguesa.

Como tínhamos um apartamento para chamar de nosso, fazíamos as compras no supermercado ao lado para prepararmos os cafés-da-amanhã e jantares (se é que podemos chamar um brunch às 17h de jantar). Contudo, num belo dia, resolvemos tomar um brunch – esse sim, às 11h – no café ao lado do prédio. Era de alemães – aliás, tem tanto alemão por lá que há mais barraquinha de cachorro quente berlinense do que bar de tapas. Inesperadamente, fomos abençoados por batatas acompanhadas de ovos mexidos, meio espanhol, meio alemão. Advinha, o melhor brunch do universo!

Ao lembrar-se disso e da nossa despedida de Mallorca, pois misturei aos ovos restantes na geladeira tudo o que sobrou das compras – leia-se queijo top com presunto cru top -, inventei esta receita especial para brunch: ovos mexidos com batatas “quase bravas” (por ser a base da tradicional batatas bravas) e jamón serrano. Confira no post anterior!

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