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A ESPANHA EM BOSSA NOVA, CAPÍTULO 4

A luz do sol era tão forte que mal conseguíamos abrir os olhos, mas ainda enxergávamos o movimento das pessoas pela praça. O taxista havia nos escarrado no miolo do centro histórico de Sevilla, então, tínhamos de carregar as pesadas malas e achar o hotel por conta própria naquele emaranhado de ruelas medievais. Ali mesmo eu já deveria ter percebido que estava tudo muito estranho, mas achei que se tratava de puro golpe de sorte encontrar o nosso belo hotel boutique (Rey Alfonso X) em 5 minutos. Já acomodada, da enorme cama fofa, olhei para a janela e lembrei-me dos 45°C cravados no termômetro da rua. A pressão baixa e o choque térmico do ar condicionado a 20°C dentro do quarto me apagaram.

Momentos depois caminhava pelas ruas de Sevilla. Desta vez, quem ditava as passadas da era apenas o sol, não conseguia manter o meu costumeiro ritmo acelerado. Minha amiga Cris, eu não sabia mais onde estava, mas me confortava a sensação de que ela havia ficado no hotel mesmo. Sem entender direito como, conhecia cada canto daquela cidade. Podia descrever fachadas, indicar onde ficavam as tabernas mais conhecidas e as desconhecidas também. Enfrentava o sol com determinação, pois sabia exatamente aonde ir, mesmo sem a certeza do motivo.

Eu também ouvia vozes. Muitas vozes. Dos comerciantes, dos cocheiros perguntando se queria usar os serviços das carroças. Ouvia ainda o sino sob a escultura giratória (La Giralda) da Catedral de Sevillha anunciando a tarde. Parei diante da imensa porta e ouvi um sonoro “não, você não!”. Não podia assistir à missa, não podia sequer entrar.

sevilla-51Sedenta e com as pernas já bambas pelo calor, eu busquei desesperadamente por uma sombra. Passei por uma porta pequena, simples. Soube depois de que se tratava do Arquivo Geral das Índias, lugar que abriga os mais importantes documentos referentes às colônias espanholas. Estranhei a movimentação agitada em torno de um papel. Não conseguia ver direito o que era e, quando levantei um pouco mais o pescoço, um olhar fulminante atravessou a sala. Entendi, então, do que se tratava: era o Tratado de Tordesilhas.

Mesmo assustada com o fato, não contive a emoção do que tinha a minha frente. Percebi que não era, então, para eu estar ali. Corri. O portão se fechou às minhas costas em uma batida seca.

A alguns passos adiante, ainda na praça central, avistei os portões do Real Alcázar quase sem ar. Estes, no entanto, abriram-se sem a menor cerimônia para mim. Sentia-me, de alguma forma, acolhida. Meus dedos, então, fitaram aquelas desenhadas paredes por um bom tempo. Eu sabia de cor cada nuance de azul e cada detalhe em dourado de seus azulejos. A sensação é de que estava tudo do mesmo jeito. Mas do mesmo jeito de quê? De quando? Ainda olhando para o teto de um dos palacetes, pisei sem querer no veio d’água que percorria a canaleta em direção a uma delicada fonte. Refrescou-me um pouco.

 

Os pensamentos frescos me levaram ao imenso jardim. Sentei em um dos degraus que ligava a parte alta à baixa, daquele labirinto de arbustos e fontes.  Permaneci assim até anoitecer. Mal percebi a tempestade que se formara. Enquanto algumas gordas gotas despencavam do céu, a ventania trouxe uma música. Pareceu-me um concerto, apenas o som do piano e a voz de uma soprano. Lembrei que a Cris continuava lá no hotel, à minha espera. Hora de voltar.

Naquela noite “en los jardines del Real Alcázar”, entendi que encontrei a paz de Sevilla, e naquele azul de azulejos do qual é feita, deixou-me morar. Uma bossa que jamais esquecerei (assista e ouça aqui Só Tinha De Ser Com Você).

***

Os Reales Alcazares de Sevilla são Patrimônio da Humanidade pela UNESCO desde 1987, integrado ao complexo Catedral, Alcázar e Arquivo das Índias. Eles são, na verdade, um complexo palaciano construído ao longo de diferentes épocas. A fortificação original foi erguida sobre um antigo assentamento romano, e, mais tarde, visigodo. Posteriormente passou a ser uma basílica paleocristã (São Vicente Mártir), onde foi enterrado São Isidoro.

Além da parte aberta para o turismo, atualmente, membros da Família Real ficam hospedados ali, assim como diplomatas e chefes de estado que visitam a cidade. No entanto, durante todo o verão, a cidade promove concertos de música clássica em seus jardins à noite, são as chamadas “Noches en los jardines del Real Alcázar”. Tive o prazer de contemplar um deles. Nesta noite, havia uma homenagem a Shakespeare e Cervantes, 500 anos após suas mortes. Alternaram composições inglesas com espanholas e, ao fim, encerraram com a clássica de Sinatra “The Way You Look Tonight”.

sevilla-10O encanto daquele palacete e jardins também fez cenário para um dos reinos da série Game of Thrones. Soube durante um jantar no incrível no La Bulla, ao ser atendida pelo também incrível Dario. O belo português além de sugerir o melhor do menu da casa, ainda divide o encantamento por Servilha e, em especial, pelo Real Alcázar. Delicioso papo interrompido por sua namorada, a garçonete que atendia a mesa ao lado. Sobrou a mim e a Cris, outra hipnotizada pelo gajo, as colheradas no cheescake de Oreo, também sugerido por Dario. Passo aqui uma receita inspirada naquela do La Bulla, misturada às lembranças da calorosa Sevilla.