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A Espanha em Bossa Nova, capítulo 5.

cordoba-espanha-22Aos pés da Santa Cruz amanhecia. E a gente pegou um trem de Sevilla rumo a Córdoba só para vê-la. Ninguém jurou nada, nem em nome de Jesus e nem de Alá, muito menos pretendia. A gente fez é questão de conhecer aquela tão famosa mesquita-catedral aos pés de um bairro judeu, que nasceu da iluminação de invasores-invadidos. Na Andaluzia de todos os credos, duas viajantes sem religião, mas de enorme fé no conhecido e no desconhecido, puderem ajoelhar-se diante de uma das construções mais inspiradoras que deuses e homens já colocaram em pé.

Como “o coração tem razões que a própria razão desconhece”, o nosso nos guiou logo cedo a esta inesperada vivência. Primeiramente, porque a Espanha acorda tarde e nós, madrugamos conforme o horário do trem. Da estação ao hotel foram 10 minutos. Do hotel ao nosso objetivo naquela cidade, 30 segundos, pois era só atravessar a rua. Estávamos, então, de frente para a grande porta da mesquita-catedral antes das 9h. Ela ainda estava aberta para a missa e, por isso, todos podiam entrar sem ter de pagar o ingresso de 8 euros.

Eram as últimas orações, mas foi tempo suficiente para conhecer as 900 colunas de perspectiva quase infinita, capaz de fazer a gente se esquecer do mundo fora dele. Com o fim da missa, restou apenas o som da própria respiração e dos flashes dos visitantes. Dez minutos de paz interrompidos pelos guardas, que iniciaram o ritual de expulsar todos que ali estavam – afinal, era a hora de cobrar os 8 euros caso quisessem retornar e continuar a admirar o local.

Mas a gente não precisava… Ah não… Os 15 minutos foram suficientes. Saindo dali, ainda tínhamos muita Córdoba para viver. Adentramos na “La Judería”, as floridas ruelas que formam o bairro judeu. Ainda dava tempo de ver um senhor espanhol cantarolando bom dia aos conhecidos, enquanto subia ladeira. Ou de ver o caminhão manobrando ao abastecer um das dezenas de restaurantes que se tem por ali. Também houve tempo suficiente para fugir da cigana que tentara nos abordar como a desculpa de dominar a quiromancia .

Porém, minha mão só estava disposta a segurar uma boa xícara de café – duplo -, acompanhada daquele melão dulcíssimo, que só a Espanha tem. Sentadas numa cadeira de plástico safado de um desses tantos boteco-restaurante das praças da Judería, tivemos tempo ainda de ver o sol chegar mansinho ao ponteiro das 10h. Chegamos à conclusão de que se café preto combina com melão, se mesquita pode receber missa cristã, se viajante nem sempre tem linhas nas mãos, a Espanha pode ser muito bem cantarolada em Bossa Nova (ouça aqui Aos Pés da Cruz).

cordoba-espanha-4Sobre a Mesquita-Catedral de Córdoba
Também conhecida apenas como Mesquita de Córdoba ou Catedral de Córdoba, ela data do século X. De Basílica católica foi transformada em mesquita quando a cidade de Córdoba atingiu seu apogeu, sob o governo do emir Abderramão III, um dos maiores governantes da história islâmica. A mesquita, por sua vez, foi consagrada como catedral cristã em 1236, quando Córdoba foi reconquistada pelos espanhóis sob reinado de Ferdinando III de Leão e Castela, o Santo.

A ordem era manter tudo do jeito que estava, pois, segundo o Rei Ferdinando III, nenhum cristão tinha o direito de derrubar um templo de outra religião. Então, a catedral foi construída dentro da estrutura da mesquita. Foi também este rei, canonizado posteriormente, que encorajou a convivência das diferentes fés. É por isso, também, que a presença dos judeus é tão marcante na história da cidade.

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cordoba-espanha-5Come-se muito bem por toda a Espanha, mas Córdoba tem suas peculiaridades como o saborosíssimo rabo de toro, muito mais suculento e condimentado do que a nossa rabada brasileira, os “torrones” de todos os tipos e o salmorejo. Este útlimo é uma cremosa sopa de tomate, servida gelada, que cai muito bem no calor de 40°C do verão andaluz. Sabor indescritível e que impressiona. Confira no outro post a receita do Salmorejo Cordobés.

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