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centro-historico-de-sao-paulo-ccbb-2Estavam sentados os dois, um de frente para o outro. A conversa era orquestrada pelas mãos enfáticas dele. Um casal de namorados ou amigos. Talvez. Não dava para saber. Irmãos? Provavelmente, não. O que chamava a atenção era a delicadeza com a qual ela fitava, com a ponta dos dedos, o docinho que repousava no pires do café expresso. O assunto deixava-os tensos, pelo jeito, mas o açúcar que envolvia aquele frágil quitute protegia-o de qualquer palavra proferida entre as profundas trocas de frases e olhares.

Curiosamente, ele ignorava o que estava em seu pires. Apenas concentrava-se em esfriar o gole, enquanto respondia aos questionamentos capciosos da bela que o acompanhava. Falavam algo sobre a exposição de Kandinsky que acabaram de ver, misturado a filosofias de vida como expectativas, medos e realidades de um mundo on-line. Dava para pescar algumas daquelas palavras que buscavam o alto do guarda-sol, que, por sua vez, protegiam-os dos raios da manhã.

Como o já acordado centro histórico de São Paulo misturava os seus sons aos da conversa, algumas das argumentações perdiam-se para os demais ouvintes, distribuídos pelas outras mesas da cafeteria. Entendia-se que a questão esbarrava no bom e velho amar e ser amado, na liberdade para sorrir sem preocupações em um passeio de domingo como aquele, por exemplo, e no poder do respeito ao “viver o hoje”.

Enquanto isso, os docinhos no pires permaneciam protegidos, embora o dedo dela, já açucarado, titubeasse… Ah, sim. Da mesma forma, o fato de ele ignorar quaisquer cores de Kandinsky, assim como o brigadeiro em seu pires, dizia muito sobre aquela conversa.

Ambos apreciaram o café sem açúcar. Ele tomou a água gaseificada, esta que naquele copinho de shot conseguia expressar-se mais do que a garçonete, pelo tanto que demorava para trazer a conta. Aproveitaram, então, um pouco da brisa geladinha da manhã, sempre abençoando aquelas mesas distribuídas pela calçada isolada do Centro Cultural Banco do Brasil.

Quando a conta chegou, ele fez questão de pagar. Enquanto praticava o ritual do “cartão-senha-obrigado-de nada”, ela suntuosamente colocou o delicado quitute sobre a língua e o saboreou. Ele sequer percebeu. Levantaram-se.

Assim que a moça virou, ele passou a mão pelo pires, sacou o brigadeiro e o colocou de supetão na boca. Aproveitou o atraso nos passos para esticar o braço e, carinhosamente, aborda-la com um abraço de lado. Rendida, ela retribuiu com um carinhoso sorriso. Ganhou ainda um adocicado beijo na têmpora.

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centro-historico-de-sao-pauloArte, bate-papo e um cafezinho. Está aí um dos rituais que mais gosto de fazer em São Paulo. Endereços não faltam para isso: Centro Cultural Banco do Brasil, Instituto Tomie Ohtake, Masp, CineSala, Casa das Rosas, Sala São Paulo, Pinacoteca do Estado de São Paulo,  livrarias, cinemas, teatros etc. Seja para falar sobre arte, sobre a vida ou sobre os personagens desconhecidos que sentam à mesa ao lado e passamos a observar como se fosse uma obra de artista renomado, a hora do cafezinho é um daqueles pequenos prazeres que mudam a gente. Deixam impressões, lembranças e lições como quadros de Kandinsky ou qualquer que seja o artista pode deixar. Porém, desde que venha um docinho no pires da xícara. Porque, convenhamos, café expresso sem quitute de agrado cortês não tem alma. É como um beijo, mas sem o abraço.

Para este post, uma doce receita de Rosquinhas de Pinga para acompanhar o cafezinho. É um dos biscoitinhos que mais gosto, por sinal, para acompanhar um bom expresso sem açúcar.