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Ele fechou o olho direito e apertou o botão. De dentro do bateau-mouche, mirava a margem do Sena, atraído pelas luzes de seus postes. O disparo atravessou o rio em sincronia com o harmonioso movimento de barco, rio, luz e margem. Tons de amarelo, laranja e vermelho destacavam a copa das árvores e faziam mergulhar na penumbra uma pessoa sentada sozinha em um dos bancos que margeiam o trecho de Port de Suffren. Registrou, entretanto, uma história parisiense que se desenrolaria apenas seis anos depois.

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Paris e o rio Sena sob o olhar de Murilo Goes (Foto: Murilo Goes)

Pois, no dia seguinte, quem passou por ali fui eu. Ia em direção à catedral de Notre Dame, onde encontraria dois amigos que me aguardavam para uma caminhada e um café de fim de tarde. Um deles, o tal fotógrafo. Entre um registro e outro de nosso passeio, ele me mostrou, da tela de sua máquina digital, aquela fotografia tirada na noite anterior. Hipnotizada pela cena ali congelada, pedi, singelamente, a imagem digitalizada via e- mail. A ideia era fazer dela um quadro para o meu quarto. Prometeu-me, então, que entregaria em mãos, ampliada, de presente.

De volta a Paris, dois anos depois, recordara-me da foto. Ainda não tinha recebido o presente! Ora por encontros com esquecimentos. Ora por lembranças, mas com desencontros. Caminhei pela margem do Senna naquele dia, imaginando quem seria a pessoa escondida na penumbra de Port de Suffren. Será que estava por ali? Sentei-me, então, no tal do banco da foto e assisti ao entardecer. No dia seguinte, pegaria um voo rumo à Rússia e adiaria mais uma vez um possível encontro imaginário com seja lá quem pudesse ser.minha-volta-a-paris-em-2012-ed

Mais dois anos se foram, era 2014, e uma nova personagem entrou nesta história. Quem caminhava agora pelas margens do rio era uma grande amiga, também jornalista. Passaria a morar três meses na cidade. Não sabia da foto, muito menos da pessoa sentada naquele banco. Entre um de seus dias nesse novo cotidiano, sem saber, caminhou sobre aqueles meus antigos passos de outrora. Estava de mãos dadas com suas duas filhas em direção à Rue du Bac, nº 140, onde fica a capela de Santa Catarina Labouré. Do outro lado daquela portinha que protege o santuário, receberam das mãos de uma freira alguns exemplares da famosa Medalha Milagrosa de Nossa Senhora das Graças, medalhinhas que tanto Santa Catarina Labouré ajudou a difundir após ter uma visão, em 1830, da Virgem Maria.

medalha-milagrosa-de-nossa-senhora-das-gracasEntão, mais dois anos se passaram. Foi em São Paulo que reencontrei meu amigo fotógrafo e de suas mãos recebi dois presentes: “aqui está a foto, finalmente! Mas tomei a liberdade de fazer duas ampliações. Uma para você e a outra para alguém que queira presentear”. Lembrei-me da minha amiga que tanto ama Paris e que pelas viradas da vida estava reformando o seu apartamento após o divórcio.

Dois meses depois (sim, desta vez foram apenas meses), fui visita-la. Lamentou sobre o espaço branco na parede do quarto, aberto pós partilha. Não me aguentei e revelei a surpresa. Afinal, há seis anos um quadro era meu. Há seis anos o outro era dela (aliás, à época, nem nos conhecíamos ainda). Combinei que entregaria no dia do seu aniversário, 13 de fevereiro. Saí daquele apartamento com uma medalhinha milagrosa pendurada no pescoço. Segurei-a com a ponta dos dedos até chegar ao meu carro. O pensamento estava longe, em Paris… Elucubrava, depois de toda esta história, se um dia descobriria o que tanto Santa Catarina Labouré observava daquele banco à beira do Sena.

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Como já descrevi uma vez sobre Paris no post “Truques da Cidade Luz”, nada como comer um bom queijo de cabra nesta cidade que entardece em reverência a suas luzes artificiais. A Flávia Pegorin, minha amiga e dona de uma das fotos desta crônica, compartilha do mesmo gosto. O que tem de melhor para comer na França? “Queijo de cabra acompanhado de um bom vinho, apreciados ao entardecer”. Sendo assim, ensino aqui a montar uma tábua especial de queijos de cabra franceses. À bientôt.