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a-chave-no-ashramChovia muito na fria noite de fevereiro de Carnaval. Os chalés no ashram* já estavam todos de luzes apagadas. Uma ou outra lareira ainda resistiam por brasas. Era a hora do bichinho alongar as patas e disparar pelo gramado. Habilidoso, em segundos chegou à varanda do chalé mais isolado para xeretar o que tinha ficado do lado de fora (a exemplo das casas indianas, sapatos não podiam entrar). Foi assim que os passos do bicho invadiram o meu sonho e, nele, entre uma fuçada e outra, gostou bem do meu All Star branco cano alto, abandonado do lado de fora. Abraçou-o como se fosse um cacho de banana. Subiu o telhado com a mesma destreza de um gato. Acordei na hora: “o macaco-gato pegou o meu tênis!”.

Já desperta, ouvindo as patinhas do que talvez fosse um gambá no telhado, dei risada tanto pelo meu apego ao calçado no sonho quanto pela tal espécie “macaco-gato” que havia criado. O fato é que o bicho no telhado acordara-me horas antes ao Bhakti-Yoga, práticas no Templo com os moradores e devotos daquele ashram. Lembrei-me, então, que tinha de me levantar às 5h para iniciar o meu ritual pessoal: escovar os dentes, fazer xixi e tomar banho – quase gelado, por sinal, já que a madrugada fria colaborava bastante com a baixa temperatura do sistema hidráulico. Demorei para pegar no sono outra vez, mas consegui.

Às 6h, então, de banho tomado e com tudo pronto, era hora de abrir a porta amarela do chalé pela chave adornada por um chaveiro de coração de madeira e, ao passa-la, caminhar 10 minutos até o templo, no ponto mais alto do ashram. Durante o Bhakti-Yoga todos cantam, dançam e estudam as escrituras sagradas de acordo com a tradição vaishnava.  Neste caso, orientados pelo monge Maharaj. Estas práticas (ao todo, duas por dia), juntamente com as duas aulas de yoga, também diárias, assim como as meditações e as 4 refeições lacto vegetarianas compunham a rotina no ashram.

Essa era a minha nova rotina. Eu, como toda Colombina que se preze, soube a hora de guardar a fantasia. Optei por passar batido pela ala dos repiques e assoprei os confetes para os bloquinhos lá no passado. Outros carnavais. Troquei, o compasso do samba pelo bem dos mantras, naquela vida alternativa “auspiciosamente” – como eles mesmos dizem – fincada em  uma chácara em Campos do Jordão.

Lá estava, então, desapegada da saia de tule e sentada na posição de lótus, já com o pé formigando. Olhei para os dedos dos meus pés e lembrei-me do tal “macaco-gato”, que até hoje não sei que bicho é na verdade. No entanto, ele passara a nos visitar todas as noites e a me arrancar do meu subconsciente. Às vezes me tirava de sonhos bons, às vezes nem tanto. Como durante a meditação ele não podia entrar, tentava-o tirar dos meus pensamentos o tempo todo. Recorria, então, à respiração controlada pelas rimas sagradas e as palmas compassadas durante a entoação coletiva dos mantras. Isso fez  com que minha mente parasse na ponta do meu dedão descalço.

Olhei para o polegar dormente e me perguntei o por que de ele estar assim. Que incômodo era aquele? Nossa mente vive criando atalhos para nos fazer mentir para nós mesmos. No chalé, era o bicho com o meu tênis. No templo, um dedão dormente. Porém, quantas não foram as vezes que isso ganhou o nome de “medo da morte”, “decepção amorosa”, “conta negativa no banco”, “doença”. Enfim, ilusões… Nada mais do que mentir para a gente mesmo. Porque a gente sabe o que nos fez chegar até ali.

A gente sabe o que trouxe a falta de fé; o  que destruiu um relacionamento que, ao certo, nunca existiu; o tanto que fomos relaxados com a nossa saúde ao comer, ao respirar e ao alimentar pensamentos ruins. A gente sabe o por que a conta não fecha. Temos total consciência de quando tudo está a perder. E, muitas vezes, nos deixamos perder! Paradoxalmente, é a mesma consciência que nos faz pegar o carro para chegar até aquele  ashram em pleno Carnaval. Por que, então, se eu tanto quis ir, é tão difícil ser sincero com o meu dedão do pé?!

Olhei em direção à porta do templo. Ventava nos cabelos de quem preferiu ficar do lado de fora. Pedi discernimento. Encerrou-se o ritual com um encantador mantra. Era a última noite que ouviria os passos do “macaco-gato”. Talvez, devolveria o meu tênis. Não estava mais preocupada. Eu já estava sem tênis, não havia mais desculpas. Em outras palavras, não precisava mais mentir para mim. Sabia muito bem o que estava fazendo ali. O mantra, enfim, tirou-me do torpor e findou a minha passagem por aquele local sagrado:

“Hare Krishna Hare Krishna,
Krishna Krishna Hare Hare,
Hare Rama Hare Rama,
Rama Rama Hare Hare”

* Ashram, na antiga Índia, era um abrigo de eremitas hindu onde os sábios viviam em  tranquilidade em contato com a natureza. Hoje, o termo ashram é, normalmente, usado para designar uma comunidade formada intencionalmente com o intuito de promover a evolução espiritual dos seus membros, frequentemente orientado por um místico ou líder religioso.

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Fui carinhosamente recebida neste feriado de Carnaval de 2017 no Krishna Shaktí Ashram, filial no Brasil do Sri Chaitanya Saraswat Math de Navaduip, da Índia. Tive o imenso prazer de conhecer os idealizadores deste retiro – a Mestra Regina Shakti, presidente do Instituto de Yoga de São Paulo, e o monge iniciado na ordem de sannyasi,Sripad B.V. Trivikram Maharaj, representante no Brasil de Sua Divina Graça Srila Bhakti Sundar Govinda Dev-Goswami Maharaj -, assim como devotos queridos, que me ensinaram muito, e visitantes tão especiais  quanto (entre eles, a professora de ashtanga yoga Dany Sá).

Entre tantos mundos, quatro vezes por dia todos reuniam-se em volta de uma mesa para compartilhar algo muito comum em livros sagrados: o pão. As refeições lacto vegetarianas (com ingredientes totalmente orgânicos) deste ashram está entre as melhores que já comi na vida. Como diz Regina, “é porque tem muito amor”. Tudo, aliás, é energizado por mantras. Mas aqueles pães caseiros, preparados todo santo dia… Inesquecíveis! Saíam quentinhos do forno e iam direto à mesa, lambuzados de manteiga ghee ou alguma pasta especial (ricota, babaganuche, azeitonas etc.).  Nunca mais vou me esquecer… Bom, lá no retiro me falaram mais ou menos como se faz o pão. A Malati me passou a receita do pão vegano caseiro e eu coloquei umas dicas da minha avó de como ela sova a massa e deixa crescer. Passo aqui para vocês, neste post: Pão vegano do Krishna Shaktí Ashram.

Krishna Shaktí Ashram
Horário de atendimento: Das 9h às 18h
Telefone: (12) 99727.4293 – WhatsApp
contato@ashram.com.br
Endereço: Estrada da Tabatinga, Caixa Postal 386
Campos do Jordão – SP
http://www.ashram.com.br/

(Créditos das fotos: Fernando Ferraz/Priscila Dal Poggetto/Tathiana Sé/Brunna Bragaglia/Regina Shakti)