Tags

, , , , , ,

Se você está deprimido,
Você está vivendo no passado;
Se você está ansioso,
Você está vivendo no futuro;
Se você está em paz
Você está vivendo no momento presente. Lao Tzu

Orquestra compassada entre a chegada do menu, a dos talheres e o posicionamento dos copos do aperitivo. A bailarina de número “1” passou direto pela mesa. Tinha um peixe colorido gigante de organdi adornando a cabeça. Véspera de Carnaval. O bailarino 2 permaneceu ao lado da mesa. Trajava chapéu “porky pie”. Entregou o menu do que seriam os 12 tempos de uma refeição que prefiro chamar de balé, mas bem que poderia ser uma daquelas marchinhas de Carnaval, das mais animadas. Abriria qualquer ala para tão habilidosos foliões passarem. Estava tudo equilibrado: equipe da cozinha, equipe do salão e equipe da clientela. Neste último bloco, inclui os dois personagens principais e o pessoal da figuração (vulgo aqueles desconhecidos nas narrativas, sentados às mesas ao redor). Tudo pronto, começam as passadas: 5 entradas.

Às primeiras mordidas, nada despretensiosas intenções, afinal, a questão era o que fazíamos naquele lugar. Buscávamos uma experiência gastronômica única, daquelas que misturam texturas, sabores, cores e movimentos. De fato, tínhamos tudo isso disponível. Difícil era estar ali. Havíamos chegado àquele refúgio na Vila Madalena de Uber, já com meia garrafa de vinho rosé cada um na cabeça e nada no estômago. Suficiente para o drink de cachaça subir rapidamente aos olhos e aquele peixe de organdi começar a flutuar no ar a cada gole da harmonização de vinhos. Falávamos algo sobre viagens próximas e das mais adiante. Portanto, já estávamos muito longe dos pratos. Até que me encantei pelo mil-folhas de cucurbitáceas. “Sabor tão delicado… O adocicado da ricota, com a pequena acidez do vinagre de mel e da abobrinha combinam. Mas essa fragilidade da massa folhada entre os dentes…”, pensei. Apenas pensei. O importante é que eu estava de volta ao presente.

Menu 12 tempos do TujuAo engolir o último pedaço, desviei o olhar. Cismei com o chão. Gostei. Tudo era em cimento e ladrilho hidráulico. Tons sóbrios na escala do preto para o cinza. Mas a cor âmbar do vinho branco traspassava e rendia-lhe certo tom diferenciado. Lembrei-me de um caso do trabalho e coloquei à mesa. Experiências novas, precisava dividir. Porém, de forma rápida. O momento a ser vivido era aquele à mesa. Nem passado, nem futuro. Embora a mente sempre tentava boicotar. Por isso, sempre era tão bem-vinda a chegada dos bailarinos-foliões:

– Senhores, as próximas etapas!

Ah a manjubinha… Jamais imaginei que diria isso um dia. Aquele filezinho branco chegou mergulhado em um mar verde. A cumbuca era bem bonita, “coisa fina”, diriam os amigos irônicos no happy hour de botequim. O desafio era fazer uma foto tão poética quanto o prato, entre luz, sombra e tais bailarinos. Estes se revezavam na troca de talheres, copos e vinhos. Explicavam cada garrafa que chegava para colorir as taças. Não deixávamos nenhuma ir embora, aliás. Era uma espécie de coleção momentânea. Uma maneira de não permitir o presente ir embora? Talvez, mas o fato é que, de forma objetiva, os vinhos eram bons e, enquanto isso, mais 2 tempos vinham: os dois pratos principais do menu.

Sobre esses, o peixe estava delicadamente bom, mas não me lembro tanto de seu sabor assim, confesso. Já tive outros inesquecíveis. Sua suavidade contrastou, no entanto, muito bem com o choque do pombo, o outro prato. Já havia saboreado dessa carne outrora, mas não com a sua perna em exibição. Achei graça. Coloquei de lado e ignorei a garra decorativa. Torpor ou Carnaval, não sei. Mas me manteve bem presente ao prato. Se esse foi o objetivo, fez o que foi necessário. Pedimos para repetir o vinho da rodada. Era bom e precisávamos.

O chapéu-peixe-de-organdi passou reto pela nossa mesa, mas o porky pie parou. Fez um sinal e os outros bailarinos trouxeram o clímax da história, a sobremesa:

– Senhores, peço, por gentileza, a atenção de vocês.

Embora fossem os “tempos” finais, aquela mistura de sabores, que começou com o salgado da escala de queijos e culminou, nesta sim, inesquecível e indiscutível sequência de bombons de chocolate, resgatou lembranças bem guardadas. Das primeiras risadas às daquele exato momento. Paramos nos olhos do último brinde. Mas pedimos repetição do chocolate… Parafraseando uma grande amiga, se tem uma palavra que descreve perfeitamente estar no momento presente esta palavra é “degustar”. E, assim, degustamos um por um daqueles chocolates, como também degustamos 12 tempos de palavras, taças, vinhos, risos, chão, foliões e bailarinos.

***

Degustar um bom chocolate não deixa de ser meditação. É, sem dúvida, estar no momento presente, deixando derreter cada segundo entre a língua e o palato. Compartilho aqui a minha receita de Trufas de Chocolate. Longe de ter a preciosidade dos ingredientes das do Tuju, mas elas carregam a essência de quem busca por uma vida interessante, de momentos presentes.

Serviço
Para saber mais sobre o premiado Tuju e seu menu de Doze Etapas, acesse tuju.com.br