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GirafódromoPouco antes de amanhecer sempre ouvia um bicho diferente despedindo-se da madrugada. Era o sinal de que logo mais K.G. (King George) – o guia da melhor risada solta do mundo – acordaria a todos para já desmontarmos as barracas, tomar um café da manhã rápido e colocar tudo no 4X4 para dali partirmos. O destino era o próximo acampamento, mas o caminho era o objetivo desta viagem em si: a procura pelos animais que habitam a região que se estende do delta de Okavango, em Botswana, até a fronteira com o Zâmbia. Parece fácil, no início, entender esses tais “drive games” de um safári na África. Não fossem os 9 dias vivendo essa rotina com um grupo de 14 pessoas e rodeados por girafas, hipopótamos, chacais, leões, elefantes, babuínos, impalas, entre outros.

Com os dias, a cada acampamento que se erguia, era em volta do fogo que as conversas revelavam o quão fascinante e, ao mesmo tempo, assustador é o bicho homem. Isso porque o assunto nunca era a girafa te encarando ou o cão selvagem destroçando um impala, mas sim um pouco da história de cada um, dos hábitos de seus países de origem, a economia global e de como era difícil fazer cocô em um buraco cavado na terra (ué, detalhes de um acampamento selvagem). Assim, na maioria das vezes, o assunto “nós mesmos” passava a ser muito mais interessante do que falar sobre leões.

 

Concordo que eles têm muito a nos ensinar, mas enquanto a nossa “caça” cozinha na panela de ferro, muito já foi dito além dos rugidos deles, ouvidos lá ao fundo. Do contrário, o leão podia até escutar, de longe, as vozes tentando afugentar o frio, mas era impossível para ele entender tudo o que se passava nas entrelinhas daquelas conversas. Pensamentos vagos, lembranças, mentiras, meias verdades e aquelas boas e inteiras verdades escondidas em cada palavra. Como eu, todos ali enfrentaram os jogos de Botswana com as armas que tinham. Falavam-se coisas por falar, mas também colocações determinantes para uma vida inteira. Ouvia-se o que queria, o que deveria e o que não deveria também. Desafiava-se a vida, muito mais do que perseguir os rastros de um leão. Como já escreveu o escritor moçambicano Mia Couto pela voz de um de seus tantos personagens, “quando conto a minha história me misturo, mulato não das raças, mas das existências”.

Nessa toada, eu não faço ideia do que o alemão sentia quando contava paradoxalmente sobre o seu amor pelos animais, embora cace desde a adolescência. Só sei que ele é uma das pessoas mais doces que já conheci e não faz o menor sentido, dentro do meu julgamento superficial, pensar que, aquele homem de mais de 1,90 m e uns 110 kg que deixava todo mundo se servir antes de comer e, sem sombra de dúvidas, passava fome todo santo dia, possa sequer apontar uma arma contra qualquer ser vivo. Por outro lado, esta foi a primeira viagem que ele faz na vida sem caçar, apenas para observar os animais.

 

Respirei profundamente várias vezes antes de responder às infindáveis perguntas capciosas da bióloga australiana. Entre elas, a forma como as pessoas pegavam os talheres à mesa. Eu tinha de respeita-la da mesma forma que fazia ao ouvir suas histórias ao longo de seus 60 anos de estrada, muitas delas com uma coragem que eu jamais teria, como a de cruzar o Oriente por 3 meses em um overland. Também da Austrália vinha a norte-americana Tália e seus cabelos roxos. Ela viaja o mundo com a filosofia do “cada dia por vez”. Aos 33 anos, trazia no mochilão seu pós-doutorado sobre HIV. Já viu e já viveu muita coisa forte. O que explica também carregar consigo o pó roxo para tingir o cabelo, seja para onde for. O presente não pode perder a cor. A gente só tem ele.

zebraE se de um modo Tália tingia o cabelo, do outro eu ia perdendo toda a pintura do meu rosto. Sem maquiagem por 9 dias, a minha proteção contra questionamentos escorreu no primeiro banho de 5 minutos, este possível graças a uma tenda improvisada. Foi-se toda sobre a terra da savana, com umas gotas de lágrima junto. O choro quase contido não foi por ela, nem pelo banho quase indigno. Foi por saber quem estava ali sem armadura, tendo leões à espreita. Ser autêntica é uma coisa. Ser autêntica de cara lavada e sem maquiagem já é outra aventura. Enfim, estava solta aos jogos.

Num daqueles tantos dias, Tália ofereceu-se para trançar os meu cabelos, que já não via água há 4 banhos. Grata pelo gesto tão cordial, lembrei-me do espelho retrovisor do overland. Olhei ao redor, dobrei os joelhos e curvei o pescoço. Antes das tranças, deparei-me com a minha cara lavada. Fitei-a por um bom tempo. Ironicamente, naquele mesmo dia, um leão cruzou o nosso caminho na estrada. Observei cada detalhe da sua fuça, como fiz com a minha. Entendi, então, o que estava fazendo naquele safari. Não cruzei Botswana para ver girafas, elefantes e leões. Estava lá para viver o mais próximo do que eu sou. E que bom se sendo tantas. Estava lá pela terra seca, por aquele céu de inverno com cara de chuva e pelos inesquecíveis pores de sol, que pintaram o meu rosto, assim como tingiram os cabelos de Tália.

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Lunch time no acampamentoTodas as refeições no acampamento eram em volta da fogueira, preparadas pelo sorridente Oats Kebue, o nosso querido O.T. Entre suas especialidades na combinação lenha e panela de ferro está o guisado, seja de qual bicho for… Comemos carne bovina, de impala, de búfalo etc. Outra preciosidade era o pão, que ele assava em uma inacreditável combinação panela de ferro e brasa. Nunca comi tanto pão na vida, era incrivelmente bom. Em homenagem às nossas “paneladas” (que normalmente terminavam com o “Brazilian team” lavando a louça na bacia”, passo a receita do guisado com vegetais. Para acompanhar, um pão que não é o do O.T., mas é o mais tradicional de Botsuana e que experimentei em Maun, antes de partir para o Safari. Chama-se Phaphatha e pode ser apreciado só com manteiga, geleias ou com carne, como um bom guisado. Como é bem típico e é feito em forno convencional, é a melhor opção de se passar por aqui, confira no post as duas receitas: Carne guisada com legumes e pão Phaphayha.

FOTOS: Maurício Dal Poggetto, Priscila Dal Poggetto, Fernando Ferraz, Cristiane Ventura e Talia Motaman.