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Victoria Falls (2)Não havia motivo para as passadas aceleradas. Aliás, nunca há. Eu apenas gosto tanto de andar rápido, que nem mesmo percebo. Desprende energia, aquece o sangue e me abre largos sorrisos no espírito. Apenas isso. Mas naquele fim de tarde em Livingstone, Zâmbia, até tinha uma razão. O sol já dava indícios de que iria se recolher em breve e não sabíamos o tamanho do caminho para chegar à “vista principal” das tão famosas Victoria Falls. Na aritmética entre racional e emocional, meu cérebro tentou juntar velocidade com habilidade para desviar de uma dupla que tirava fotos em uma das escadarias de acesso aos mirantes. Só que essa minha necessidade particular de se colocar no lugar do outro e não estragar a foto alheia, no fim, tornou-se um momento memorável para nosso grupo: oficializamos de vez Livingstone como a “presepada-da-viagem”. Porque toda viagem tem uma presepa, apenas temos que admitir e reconhecer que, bem ou mal, tudo vira história para contar.

O que aconteceu foi que, apesar de o meu pé levantar com precisão, não contou com a exuberante camada de musgo do degrau seguinte. Não só estraguei a foto, como causei um estardalhaço “à la tia Neide”, levando o maior tombo e estatelando as costas duplamente. O placar final ficou em uma quina de degrau para duas vértebras torcidas (“nem sei como consegui levantar dali, Mirtes”, diria “dona Neide” à amiga numa tarde qualquer de bolo com chá na Moóca).

Depois de checar se eu ainda sentia as pernas ou se as pontas dos dedos formigavam e, na negativa, a constatação de nada grave, autorizei as gargalhadas – a começar pelas minhas. Chorei de tanto rir – e de dor. Como também soltei a frase entalada há um bom tempo entre os integrantes do grupo: “só podia ser em Livingstone!”

Vou explicar o por que da exclamação. Em Livingstone, esta cidade fronteiriça e ex-capital da Zâmbia, deveríamos passar apenas uma noite. Porém, um erro de cálculo no nosso “papel de pão de planejamento de viagem” rendeu-nos uma dobradinha nessa cidade que lembra muito a fronteira Iguaçu-Ciudad del Este. Deu pra imaginar? Tudo começou, mais ou menos, assim. A polícia de fronteira demorou um século e meio para liberar a entrada do nosso caminhão-casa-ônibus-geladeira (o overland do safari, que você pode ler sobre por aqui). Primeiramente, para entrar na balsa que faz a ligação Botswana – Zâmbia. Depois, para entrar no país em si.

Nisso, os respectivos passaportes ficaram ao menos 1 hora longe de nossos olhos. Tivemos de esperar a liberação entre caminhões, comerciantes ambulantes vendendo de tudo em troca até de boné (escambo é uma prática comum), turistas e trabalhadores que só queriam passar “daqui até ali”. Entre o medo de ficar sem passaporte e a quantidade de esculturas de hipopótamo em madeira ofertada, nossos picos de ansiedade iam e vinham como se fossem trabalho de parto do estômago.

Passada a primeira fase, chegamos ao hotel, ou melhor, ao lodge. Não eram beeem quartos. Era uma tenda semi-chique, cheia de cortinado e daquelas fumacinhas espanta-mosquito. Para quem acabou de começar a “aventura” é bem divertido. Mas para quem passou os últimos 8 dias montando e desmontando barracas no meio da savana africana dá um certo desespero não ter paredes de alvenaria. Ainda mais quando ninguém avisa que o chuveiro quente tem timer e a segunda pessoa a tomar banho fica na água fria – e você tem que caçar alguém do hotel para dar uma forcinha e religar tudo.
Somado a isso, a noite zambiana de inverno é bem fria e pouco havia sobrado de roupa limpa.

Entre tanta imundice e passando frio, andar com roupas curtas, mas limpas, e com cobertor do quarto “à la mendigo” pelas dependências do lodge era uma ótima alternativa – claro, teve gente que olhou torto, mas o bom de ser turista brasileiro é que você tem autorização internacional para meter o louco e se fazer de exótico. Também tem passe livre para ir ao restaurante mais turístico de Livingstone preparado para experimentar todas as carnes diferentes do cardápio, o que inclui jacaré, impala, kudu (tipos de antílopes) e bode (isso no Brasil tem, gente, mas comemos também). Ok, ninguém arriscou a lagarta, a tal da “catterpillar”. Ótima experiência, especialmente a de enfiar uma pimenta empanada inteira na boca, jantar na parte descoberta do restaurante, a 10°C, ao som de músicas caribenhas. Senti-me em Cuba em alguns momentos, mas foi pela decoração do local. Noite inesquecível, assim como a cerveja da região (esqueçam os vinhos: Botswana, Namíbia e Zâmbia sabem fazer cerveja, fica a dica). Tão memorável quanto foi o check-out do hotel, quando tentaram cobrar a mais. Detalhes pequenos de nossa Zâmbia.

Nem preciso dizer a pressa para ir embora e embarcar rumo às Ilhas Maurício. Ao mesmo tempo, o pânico de presepar novamente e continuar na Zâmbia. Aqui terei de ser mais específica pelo motivo de tanto receio, a presepada da viagem passada. Vale um adendo:

Era uma vez o aeroporto de Valência, na Espanha. Ano 2016. Destino, Mallorca. Nosso time chegou extremamente cedo ao check-in para “não perder o voo”, mas, hipnotizados pelas provas de remo das Olimpíadas do Rio – com o grande agravante de que ninguém ali se interessa por qualquer esporte (salvo curling, nos Jogos de Inverno) -, confundimos o nosso voo com o “dos amiguinhos da outra companhia aérea”. Só que o deles foi adiado. Conclusão, nós que estávamos no saguão de embarque e não ouvimos os nossos nomes serem chamados CINCO vezes, perdemos o voo e tomamos uma entubada de uns 500 euros para pegar o do dia seguinte – obrigados, assim, a passar uma noite num hotel de beira de estrada na famosa (só que não) cidade de Torrent.

Victoria Falls (18)Voltemos à Zâmbia. Como eu disse, bem ou mal, toda presepada traz boas histórias. Como contava aqui, meus pés estavam ansiosos por um por do sol, lembra-se? E mesmo com as costas arrebentadas – ok, ligeiramente anestesiadas pelo vinho barato de caixa que compramos para o brinde na trilha -, encharcada pela água das cataratas que não economizam espirro para ninguém e já vítima do frio zambiano, meus pés acharam o que tanto queriam. Lá estava aquele sol cor-de-rosa, emoldurado pelo eterno duplo arco-íris que abençoa este que é considerado um dos lugares mais bonitos do mundo. Como em Mallorca, ao som de bossa nova provido pelo iPhone, fizemos nosso último brinde àquele dia. Mudos. Sabe-se lá o que se passava pela cabeça de cada um. Mas conto na minha: “puta que o pariu que dor!”. Só que a lágrima, a que ninguém viu, esta foi pelo por do sol, pelo duplo arco-íris, pelo vinho, pela cerveja, pelos amigos, pela travessia… Zâmbia.

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Nada muito memorável ficou da gastronomia em Livingstone, para ser sincera. O tombo ganhou a vez, sem sombra de dúvida. Porém, os 9 dias de savana fizeram a gente dar aquela valorizada nos vegetais. Descobrir, então, que folhas refogadas fazem parte da gastronomia básica zambiana, rendeu-me lembrança eterna de um acompanhamento típico, o “bondwe”, nada mais do que um refogado de folhas de abóbora, presente entre todos aqueles pratos que pedimos no tal Cafe Zambezi. Pode ser feito com espinafre também, a receita está separada no outro post: Bondwe, o refogado da Zâmbia.

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Sobre o Parque Nacional das Cataratas de Vitória (Moasi-Oa-Tunya)
Considerada uma das sete maravilhas naturais do mundo, esta reserva abriga 5 cascatas formadas pelo Rio Zambezi. David Livingstone, explorador inglês do século XIX, batizou as cataratas com o nome da rainha, Vitória, em 1855, daí o nome nada africano. Faz mais sentido sim a versão local: o parque é conhecido também como Mosi-Oa-Tunya, que significa “a grande nuvem trovão” – que remete à “nuvem” que pode ser vista a 20 Km de distância em épocas de chuva formada pela maior cortina d´água do mundo, com 1,7 km de extensão e 200 metros de queda. Pena que eu não pude presenciar, mas além do arco-íris duplo, em noites de lua cheia, dizem que é possível contemplar o arco-íris noturno, um fenômeno incrivelmente único.

FOTOS: Maurício Dal Poggetto, Priscila Dal Poggetto, Talia Motaman, Fernando Ferraz e Cristiane Ventura.