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Quase sem combustível no tanque, a matemática entre acelerar, frear e deixar o carro fluir na banguela em meio a curvas de uma estrada desconhecida foi tarefa hercúlea. Para apimentar a complexidade do desafio, cruzávamos um verdadeiro “nada” em mata fechada, sob chuva e em mão inglesa. Tudo ao contrário. Tudo ao contrário mesmo, pois não se trata da descrição de um filme escolhido aleatoriamente no Netflix durante um pacato dia de fim de férias no sofá. Refiro-me aqui ao meu último dia de férias nas Ilhas Maurício. Portanto, esqueça a partir de agora aquela linda fotografia tropical do Discovery Travel & Living.

Tínhamos, então, um tanque de combustível tão vazio que a autonomia já havia sumido do painel há uns 15 minutos. Você tinha ideia onde estava e qual era a distância para o posto mais próximo? Eu muito menos. Para aumentar o frio na barriga, a nossa meta era chegar ao topo de uma montanha na praia de Le Morne a tempo de assistir ao por do sol e coroar o fim da viagem. Era o último dia em Mauritius, oras! Antes de suar frio e de ter um ataque de riso ao parar em um casebre e receber a grande notícia de que o próximo posto de combustível ficava dali a 10 quilômetros, muito aconteceu (o que justifica a falta de combustível, aliás). Vamos lá.

Port Saint Louis (3)

Tudo começa à mesa do tradicional café da manhã bem posto na casa que alugamos em La Preneuse, enquanto saboreávamos as garfadas no ovo mexido para curtir a luz do sol refletida na água da piscina. Traçávamos todo o plano e a primeira parada seria um templo dedicado ao deus Shiva, que fica às margens do lago Talao. Interessante para nós por se tratar de uma ilha de colonos holandeses, ingleses, franceses e indianos, cuja maioria é hindu e fala francês. O caminho era longo, mas saímos animados, pois passaríamos por todos os pontos que queríamos conhecer. Foi quando veio a pergunta: “como estamos de combustível?”.

“Está óooootimo, temos meio tanque. Dá pra passear hoje e chegar ao aeroporto amanhã, aí a gente abastece para entregar o carro”. Metade do carro concordou que estava ótimo, os outros 50% queria parar o mais rápido possível no posto. Ganharam os 50% que ocupavam os dois bancos da frente, o que inclui a minha pessoa (a motorista, no caso). Então, foi só acelerar em direção ao templo, que o panteão hindu tratou de providenciar a chuva. O tempo virou daquele jeito.

Era longe e deu trabalho chegar, mas conseguimos ver o templo através de densa neblina. De nada surpreendeu, vou dizer a verdade. Não sei se era o céu fechado, o azulejo da década de 80 ou a tinta desbotada, mas a gente não se impressionou muito com o templo e nem com o Mangal Mahadev (composto por uma estátua de Shiva e outra de Durga Maa Bhavani com mais de 33 metros de altura) e logo tratou de puxar o carro.

 

 

Mas o passeio compensou pela descida da serra em meio ao Black River National Park, pois a imensa vontade de fazer xixi nos levou a um lindo mirante à beira da estrada, habitado por macacos. Ele escondia o vale onde nos encontrávamos. Não fosse a chuva e, claro, aquele tanto de nuvens, a paisagem estaria incrivelmente mais incrível. Mas valeu, animou o caminho para a próxima parada, a Terra das Sete Cores.

Como todo caminho traz uma surpresa, neste aqui tivemos duas. E surpreendentemente boas. A primeira foi um restaurante de comidas típicas e paisagem deslumbrante. Ficava no alto da serra e o sol resolveu brindar o âmbar do copo de cerveja, espiando pelo fecho entre as nuvens. Eu, sem beber, curti a claridade na minha água como se fosse rodela de laranja. O que foi muito bom ter aproveitado cada um daqueles minutos de paz, porque ao ligar o carro para sair do estacionamento foi exatamente quando o indicador de autonomia da reserva apagou.

 

 

Sem desistir da Terra das Sete Cores, seguimos na esperança do posto de combustível. E assim surge a segunda surpresa: a destilaria de rum da vila de Chamarel. Passamos batido por ela, mas segundos depois, soltou-se a pergunta: por que não? “É só parar mesmo, gastar mais combustível não vai”. La Rhumerie de Chamarel realmente nos surpreendeu. Com espírito de vinícola, experimentamos os runs – um dos mais famosos fora do circuito caribenho -, mel e geleias produzidos ali. Se o rum é a bebida nacional da ilha, lojinha de ponto turístico etílico foi a nossa embriagues. Resumindo, fomos às compras e perdemos por ali mais de uma hora, facilmente.

Rhumerie de Chamarel

Deixamos a encantadora destilaria naquele empolgado “agora vai”. Até lembrar que não tínhamos ainda combustível e que o rum no tanque não faria o carro andar. Mas nos mantivemos rumo à Terra das Sete Cores e lá chegamos. É uma propriedade privada onde é possível apreciar a beleza de um tipo de solo raro, colorido. Na contra luz do sol da tarde, aquilo não causou tanta comoção. O rum superou disparado, confesso. Aquele quadrado de terra parecia, na verdade, uma daquelas garrafinhas de areia do Nordeste do Brasil (sabe, aquelas de “lembrança de João Pessoa?”) em proporção gigante. A ideia era aproveitar e tomar um café, mas chegamos tão tarde que ao darmos as costas para tirar a “foto oficial”, a cafeteria fechou as portas e tivemos de ir embora a seco.

 

 

Voltamos à estrada e chegamos ao ponto quando o morador aponta o posto mais próximo “dali a 10 km”. Um ataque de riso profundo tomou conta da gente. Uma chuva torrencial despencou e, por sua vez, tomou conta do para-brisa. Para ajudar ainda mais, um semáforo quebrado tumultuava o trânsito, juntamente com os policiais que não sabiam organizar aquele caos. Quando já estava na hora de começar a chorar e ajustar a fivela do cinto da calça para ter a mínima dignidade ao empurrar o carro, o posto apareceu, a chuva parou e até um arco-íris fraquinho apontou no céu. Era alívio em forma de felicidade que não cabia no peito.

Na volta, mal prestamos atenção no lindo por do sol a nos acompanhar pela estrada. Beiramos a orla repetindo inúmeras vezes a história toda, recheada de risos e cutucões irônicos entre “time A” – pró-tanque cheio – e “time B” – pró-presepada. Naquele momento, sequer nos demos conta de que havíamos perdido a despedida em Le Morne. Mas o entardecer estava ali, como sempre. Batia em meu rosto graças à mão inglesa, que me colocava entre o sol, a estrada, as piadas e o mar.

 

 

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Terra do rum, da baunilha e, sim, do curry e do chá. A culinária nacional é a mistura de influências da cozinha Criola, Chinesa, Francesa e Indiana. Por isso, tem-se de tudo um pouco combinado em seus pratos típicos. Curiosamente, a melhor experiência da gastronomia local tivemos no “quintal de casa”. Nossos anfitriões de Airbnb ofereceram uma refeição completa a preço módico, que contemplava uma enorme posta de atum azul envolto de gergelim e um gratinado de um vegetal que até hoje não sei ao certo o que é. Mas algo entre batata doce e fundo de alcachofra. Grelhamos o atum na churrasqueira à beira da piscina e fizemos nosso último brinde nesta incrível viagem por 4 países africanos. Veja a receita aqui:Atum com crosta de gergelim e batata doce gratinada.

Fotos: Maurício Dal Poggetto, Priscila Dal Poggetto, Fernando Ferraz e Cristiane Ventura.

Mauritius (1)