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Prieiro nascer do sol de 2018, Klo de braços abertosConfesso que a madrugada já havia fatigado o meu copo de gim. Balada de Réveillon no Guarujá.  Bem clichê. Luzes intermitentes e uma legião de bêbados que acabara de sair da puberdade. Música boa (devo reconhecer que festas eletrônicas de Réveillon nunca me decepcionam neste quesito). Só que em festas-de-Réveillon-na-praia não é tão simples assim, pegar-o-táxi-e-ir-embora. É quase sacrilégio sair antes do primeiro amanhecer do ano. Como havia deixado o celular no apartamento para evitar a preocupação com golpistas de balada, não tinha como checar a hora. Apelei para o método egípcio de perguntar à amiga “que horas são?”. Trinta minutos vão, outros vêm, eis que um Pierrot surge no horizonte e muda toda a história desta festa de virada para 2018.

Dizem que como você começa o ano indica muito sobre o que você viverá nele. Sou agnóstica, só acredito vendo. Pode ser que eu saia de Colombina no Carnaval. Pode ser que eu veja Pierrots por aí, de janeiro a dezembro, abastecendo o carro, passeando com o cachorro, tomando uma cerveja em Pinheiros. Pode ser. O fato é que aquele Pierrot roubou a minha noite e fez com que o amanhecer chegasse não só rápido, mas com mais sentido.

Exuberante, de maquiagem e de espírito, o Pierrot tem nome. É “Klô”. Descobri por um amigo, que na euforia do momento, puxou-o pela gola para uma foto coletiva. Foi assim que Klô perguntou o meu nome e apresentei-me à Drag Queen mais apaixonante desde « Priscilla, a Rainha do Deserto ». Klô era contratada da festa para anima-la. E pode apostar, fez toda a diferença. Todos queriam foto com Klô, todos pulavam com Klô. Pena que as balinhas psicodélicas dão certa miopia às pessoas. Poucos puderam realmente aproveitar aquele lindo espírito que agradece todo o dia o dom que tem, o de amar a si mesmo.

Klo e euChega uma hora na vida que a gente tem que escolher entre ser o personagem que inventamos para tentar agradar os outros e quem nós realmente somos (o que não deixa de ter diversas faces, já que cada pessoa desperta nuances diferentes da gente). E “Klô”, que, embora seja um nome artístico e leve horas para produzir suas maquiagens com maestria, jamais será um personagem. Ah, os paradoxos da vida… Entre tantos adereços, ela nunca esconde o coração. Disse que o amor pelo que faz, o amor pela vida, e toda sua « finesse » aprendeu com a mãe que, infelizmente, falecera há poucos meses. « Cuidei dela até o último segundo» , lembrou com saudade na voz. Klô, assim como a sua mãe, carrega uma única verdade, amar. Para ela, temos de ter a autenticidade de fazer o que gostamos, viver como gostamos e distribuir beleza por aí. « Somos abençoados . Olha como somos lindos!».

Despediu-se, assim, Klô, que saíra aos rodopios para mais fotos. Posicionei-me, então, na mureta à beira da praia para receber o sol, que já dava seus primeiros sinais. Puxei o celular da minha amiga para bisbilhotar as redes sociais dessa drag já de tempos beirantes aos “novos anos 20”. E não é que aquele Pierrot, como mágica, vira Chapeleiro Maluco, leão, um cidadão de cara lavada e um colorido Doutor da Alegria, passeando pelos hospitais da Baixada…?!

Sorri para a luz de 2018, que, para mim, começava com gargalhadas entre amigos, a beleza de Klô, raios de sol sobre o mar e um prato de risoto de sobra de ceia me esperando na volta. Da muretinha, avistei Klô reluzente, abrindo os braços para o sol. Como disse, Klô é sempre Klô.

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Bom, para encerrar esta crônica, chegamos em casa às 8h e comemos sim todo o risoto que sobrou da ceia. Entre as especialidades na cozinha da minha amiga Renata, este risoto de camarão leva um toque especial de queijo de cabra na finalização. Confira a receita: Risoto de camarão e queijo. Ah, e para quem quiser conhecer o trabalho de Klô, seu Instagram é @klo_performance_