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ff8bfe25-1583-486d-a7af-1e306adc3bd2.jpgE é quente. E é frio. E chove. E fica só nublado. E abre um sol pra cada um. Verão pra deixar qualquer andorinha atordoada. Não digo que eu seja como elas, exploradora de terras quentes. Procuro, sim, terras interessantes. É que, normalmente, essas aí são quentes. Cabral que, no caso, só procurava por terras, assim disse. Gauguin que procurava pelas nativas das terras, idem. Se para qualquer verão voto na Bahia, para os de “andorinhas atordoadas” Trancoso é a primeira opção. Motivos tantos, a começar pela brisa mansa, o reflexo nas nuvens de um pôr do sol colorido, a paz da lua cheia, boa música, comida melhor ainda e o charme do “Quadrado”, aquele incoerente centrinho turístico. Digo incoerente porque vende vestidos a R$ 2.000, mas convence qualquer hipster a largar a vida cosmopolita e se mudar pra lá com uma pequena mala composta por shorts, regatinha, chinelo e, claro, colares de miçangas.

Dentro de todo esse contexto conheci Rafaella, esta que ao desfrute da brisa de uma tarde, simplesmente, decidiu ficar. Não queria o bem sucedido emprego na gestão financeira de uma companhia aérea, muito menos a vida em São Paulo. A Rafaella de verdade só queria um cachorro, uma bicicleta e um emprego em uma encantadora pousada, que, incrivelmente neste caso, a “Jardim das Margaridas” é fruto do sonho de um casal de franceses que só queria o mesmo (e olha que eles deixaram Paris para trás).

Bom, felicidade é algo bonito de se ver. Chama a atenção. Qualquer um do Quadrado ou sabe quem é a Rafa ou quem é o “cachorro da Rafa”. Achei curioso, contudo, eu me atentar à bicicleta em si. Minha mente se perdeu por uns instantes no garfo daquela bike, por me fazer lembrar da última que tive. Ficou dois anos parada na garagem a coitada, pelo simples fato de eu ter medo de ser atropelada no caminho da minha casa até chegar à avenida Paulista. Qual é a graça de pedalar sem sentir o caminho? Vendi novinha em folha.

Rafa pedala à vontade em Trancoso. Assim ela quis. Enquanto isso, eu pingo de lá acolá entre um voo e outro. Sem cachorro ou bicicleta. Mas sempre dou um jeito de voltar, tem essa. Um pouco Cabral, um pouco Gauguin.

Numa dessas voltas, encontrei Rafa, o casal de franceses e todo o Quadrado em seu devido… quadrado! Imersa nessa paz, sentada a uma mesa e já embriaga de “pôr do sol com espumante” observava um gentil garçom se aproximar e, com educação e delicadeza, mirar o olhar para iniciar um discurso pra lá de cortês: “vocês me dão licença? Desculpa interromper a conversa. É que todas aqui são muito bonitas… Só que a sua beleza – mirando para uma das quatro – tem um brilho diferente, eu nem sei explicar… É encantadora. Desculpa, mas eu precisava te falar.”

A cena trouxe-me Marcel Proust à mente. Ele que dizia que as coisas são tão belas em serem o que são, e a existência é uma beleza tão calma espalhada em torno delas. Acho que o garçom viu essa tal felicidade descrita por Proust. Essa que paira em ouvir Rafa contar sua história, nas risadas entre amigas, na borbulha do espumante, nas lembranças do pôr do sol e naquele bicicleta que, graças a Deus, eu vendi.

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Entre as especialidades do Nordeste brasileiro, o camarão com jerimum merece todo o meu respeito (vamos dizer que o camarão na moranga é uma leitura do Sudeste desta receita). De um estado para outro, ele sofre ligeiras alterações, do coentro ao dendê. Tentei ser democrática e fazer a minha, ao combinar a magia baiana com um pouco do que já vi de beleza gastronômica por aí, envolvendo todos os sentidos, do olfato ao paladar. A receita você confere neste post: Camarão com jerimum (abóbora) e um toque de castanha de caju.

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