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Trinta e um. Dezembro. Tarde de sol a pino no litoral. Ondas agitadas para aquele mar calmo. Dia para rituais. Três mergulhos nas ondas para agradecer o ano que se encerra. Três para limpar a alma. Momento para receber as boas energias daquele oceano quase sem fim, quase autossuficiente, quase último. Quase. Porque tudo se renova. Tudo tem depois. Seja deste lado da linha do infinito, seja do outro. É por aí que os mares unem todos. É o que dizem… Ah, trinta e um de dezembro!

Saí do mar, puxei a cadeira e estiquei a canga sobre ela. Peguei meu Jorge Amado para aquele bom e velho ritual de agradecimento, o de fazer o que gosto. Ler a obra de um bom escritor baiano, por exemplo. Hoje, agora. Ainda é 31 do mês 12, ué? Para que ter pressa?

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Enquanto Dona Flor casava com o farmacêutico, seu segundo marido, a vizinha de guarda-sol se hidratava com água Evian e ansiava pelo ano que batia à porta. Em 1º de janeiro, ela dizia, começaria o ano quando faria a bariátrica e pararia de fumar, como prometido. Também veria o filho casar, se o que passasse pela cabeça enquanto agradava a futura nora – e era paparicada também – se concretizasse. Porém, isso era só o começo. Após esse tão aguardado ano, cheio de mudanças e conquistas, eles fariam uma nova viagem de fim de ano. Um almejado novo 31 de dezembro. “Tive uma ideia agora! Vamos passar o próximo Réveillon no Rio! Quero ver os arcos da Lapa e aquele lugar onde as pessoas dançam… Como é mesmo o nome? Estudantina! Bem, a Estudantina existe, né?”, perguntava ao marido. “É que aparece em todas as novelas da Globo, sou louca pra conhecer… Está decidido, próximo Réveillon é no Rio!”

solA briga entre a Bahia de Dona Flor e o Rio de Janeiro da Dona-Senhora do guarda-sol ao lado foi árdua dentro da minha mente. O sol derretia as duas, mas suas palavras conseguiam fincar espaço na minha cabecinha. Antes de me enterrar na areia, reagi. Levantei da cadeira de praia e voltei para o mar. Alívio por ainda ser o último dia do ano. Ninguém tinha terminado de ler o livro, ninguém tinha operado o estômago. Ah, a magia do tempo.

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Aquele meu último mergulho continuava a ser sem planos, mas o sol já se punha. Apenas agradeci a valentia por poder estar naquele momento ali, olhando para o mar e para os meus dedos molhados. Por superar a resistência da água ou, apenas quando queria, sucumbir de joelhos por suas ondas. Agradeci pelo 31 de dezembro, o mestre de todos os outros dias. O que sobe aos céus, desce aos mares e te finca na terra para mostrar que, sim, o que vale é hoje.

Ah 31 de dezembro… Conta lá pra Dona-Senhora que ainda dá tempo de mergulhar no mar e sorrir, não por ser mestre do tempo, mas por ter a maestria de si.

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Feliz Ano Novo e, como eterniza Carlos Drummond de Andrade, “Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos olhos gulosos a um sol diferente que nos acorda para os descobrimentos. Esta é a magia do tempo.”

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Para o “momento receitinha”, vou passar aqui uma de RISOTO DE MARACUJÁ, de minha autoria, que combina muito bem com peixe ao forno (tipo salmão) ou camarões grelhados. Veja a receita no outro post.