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A luz do sol atravessava como flecha a copa das árvores. A ponta da lança mirava os alvos rostos, que se entreolhavam entre sorrisos. Era fim de verão. Época de chuva forte nos fins de tarde. Porém, tão divertido quanto desafiar o calor do sol, era atiçar a tormenta das nuvens. De desafios entendiam bem, inclusive. Gostavam. Sejam os das palavras, sejam os das ações.

Assim, sem temer o vento, estenderam as cangas coloridas sobre a grama ainda úmida, lavada pelas águas do dia anterior. Armaram uma mesa para os quitutes, estes ignorados pelas crianças entretidas com as inúmeras possibilidades de brinquedos. Balanços, patins. Gangorras. Metáfora propícia para o mundo dos adultos, tentando equilibrar experiências dentro de copos que ainda tilintavam o espumante que sobrou do dia anterior. Pelas bolinhas etílicas, apagavam-se as lembranças. Entregavam-se às risadas. Tocava Beatles.

Enquanto o sol os distraía com a simplicidade das alegrias, as nuvens preparavam seu ataque. Sorrateiramente, muniam o céu. Deitada sobre a canga estava eu. Joelhos dobrados para o pé encostar na grama. Observava cada segundo desse inebriante saber-viver. Especialmente, o céu. Mirei o acaso, fechando um dos olhos. As desafiadoras nuvens responderam. Sorri. Era o meu céu preferido, assustador para muitos, maravilhoso aos meus olhos.

Assim, logo formou-se uma ciranda sobre mim, entre nuvens, folhas de árvores e rostos queridos. Passei a fitar o futuro. O que viria depois, indaguei? Jamais perderia tempo no aguardo da resposta. Levantei e fui brincar de patins com as crianças. Fitei o passado, desafiando o futuro, é verdade. Enquanto as pequeninas superavam seus medos, eu recordava da minha infância ensinando alguns truques daquela brincadeira. Porém, olhava também para as nuvens, de canto de olho e sorriso astucioso. Elas jamais nos prenderiam ao destino delas.

Vieram mais risadas e, então, caiu a primeira gota de chuva. O som do céu falou mais alto. Os Beatles se calaram, mas não as gargalhadas. Espíritos livres são ágeis e o céu não esperava por isso. Recolhemos o piquenique. A tempestade, ansiosa, caiu. Lavou quase tudo: sorrisos, Beatles, patins e olhares, esses já estavam longe.

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Um bom drink para piquenique é a mimosa. Basicamente, espumante com suco de laranja, servido sempre em uma taça flute. A receitinha você pode ver aqui: Mimosa para um bom piquenique.