Tags

,

Adoro cantarolar bossa nova pelas ruas do Rio, especialmente “Carta ao Tom 74”.Ela mistura o prazer daquele fim de tarde embebido de nostalgia, com a melancolia de um coração machucado e a esperança do que nós mesmos podemos criar de novo. Nada melhor do que voltar a qualquer lugar cheio de lembranças – boas ou nem tanto -, mas com a liberdade de pensamento para poder improvisar tantas outras histórias, jogar incontáveis conversas fora e, assim, perpetuar novas memórias. Jamais questionarei os mestres Vinícius e Toquinho, donos dessa entre as mais belas bossas… Jamais… Eles têm toda razão, é preciso inventar de novo o amor. Com suas rimas em sussurros, voltei ao Rio em busca de mais linhas para minha carta ao Tom (seja lá onde Tom Jobim estiver).

Sem memórias de uma Rua Nascimento Silva Cento e Sete, mas sim de uma Pedra do Sal animada com a roda de samba. O Rio que em 1974 estava “perdido” para os poetinhas camaradas, hoje, meu amigo, só resta a dizer que está falido. Mas entre tamanha tristeza, o samba continua com sua alma multicolorida, sendo a república mais democrática de todas as que já existiram neste planeta. Sentada à pedra, avistava dali o malandro, a gringa, o vagabundo, o rico, a nenê no colo do pai aprendendo a gingar, a paulista ensinando ao casal de idosos o que era cada batucada. Também vi o sorriso no rosto do garoto de cabelo blackpower, dono do gingado mais bonito da Pedra do Sal, enquanto dois olhinhos castanhos se emocionavam ao meu lado, por detrás das lentes do óculos. A dona de tantas visões dizia: “se isso não é a resiliência de um povo, não sei mais o que é não!”.

Já eu, suspirava a roda em poesia. Fitava o céu estrelado ao mesmo tempo em que os coloridos grafites me encaravam. “Ah, que tempo feliz”, parafraseava meus poetas. Não sei se era o gin vagabundo que havia comprado lá no comecinho desse beco, mas sentia o calor inundar a alma. Com ele veio as lembranças da Mureta da Urca e de todo o encanto que tenho por aquele lugar. Diga-se de passagem, o meu cantinho preferido no mundo inteiro.

Voltei àquele pôr de sol pontilhado por barquinhos no dia seguinte. Ah, voltei… Amores reais são atemporais, caros poetas de plantão, como bem sabem. Sem dúvida, pendurar os pés naquela mureta era dizer dizer “sejam muito bem-vindas” às lembranças de outros tempos, assim como, “o prazer é todo meu” às novas que ali se construíam. Truque do sol, feitiço do tempo. Gin no pé, rimas no copo.

É, meus amigos Tom, Vinícius, Toquinho: a roda de samba, a Urca, Ipanema continuam, sim, só felicidade, ah… e o Redentor! Se só resta uma certeza? Aquela, de que é preciso inventar de novo o amor? Também concordo. Temos seus versos a cantar sem pudor, o por do sol na Urca para sorrir, a democracia do samba para resistir, as boas conversas para bordar, biscoito Globo com mate gelado na praia e, claro, tantos corações corajosos em busca das mais belas memórias. Inventaremos sempre de novo o amor e escreveremos com as mais belas letras “Rio”.

***

De tudo que se pode comer aqui neste lugar incrível, sempre tenho as boas lembranças das comidas de boteco. Mas confesso que o que me pegou desta vez foi o delicioso café da manhã no hostel Selina, na Lapa, onde fiquei hospedada. Comi as panquecas com ovos e bacon mais incríveis que uma manhã poderia oferecer com um lindo sol entrando pela janela dando seu bom-dia a tantas histórias que estavam por chegar. Na revistinha do hostel tem a receita da massa e eu compartilho aqui, neste post: As incríveis panquecas do hostel Selina Lapa Rio.