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DIA 4: CUSCO, UM JOGO DE TABULEIRO GIGANTE!

Lica, muito frio aí? Aqui em Cusco faz uns 24 graus de dia e 8 graus à noite. Essa diferença de temperatura para quem é de São Paulo nem incomoda tanto. A gente estranha mesmo é a altitude da cidade, o que por outro lado torna-se uma de suas características mais divertidas. Posso dizer que Cusco é uma mistura de falta de ar, com coração acelerado e nariz seco. Como isso pode ser legal? Vou lhe explicar tomando uma boa xícara de chá de folha de coca, bebida verde com gosto de mato que ajuda no aumento da oxigenação no sangue e diminui a ação do ar rarefeito (falta de ar, dor de cabeça, tontura, enjoo e até “piriri” dependendo da pessoa).

Mas vamos falar de Cusco! Imagine essa cidade como um jogo de tabuleiro gigante. Você é apenas uma pequenina peça que caminha entre as ruas estreitas, de piso formado por grandes pedras redondas bem lisas. Essas vias são delimitadas pelos muros das grandes construções, sejam de casas, hotéis, restaurantes ou igrejas. Muitas delas são ainda antigas ruínas incas – o povo que fundou a cidade e tornou Cusco sua capital – o tal do “umbigo do mundo”.

Se você reparar bem, nesse jogo, o desafio é superar todo o labirinto de história e chegar ao seu objetivo. No meu caso e da minha amiga Cris, uma hamburgueria. Então, a aventura começou em um desses corredores do labirinto, tendo a gente de controlar o coração e sem escorregar na ladeira que se estendia até uma grande catedral.

Mesmo ofegantes, conseguimos encontrar a próxima etapa a ser superada, uma enorme procissão de peruanos fantasiados com roupas folclóricas empurrando a imagem de uma santa até a igreja do outro lado da praça. Entre cantoria, dança e bandeirolas, aquele corredor humano parecia não acabar nunca. À medida que tentávamos atravessá-lo, a multidão nos puxava para o lado oposto ao nosso destino.

Já desorientadas na tentativa de desviar de todos, acabamos entrando na rua errada e nos perdemos entre tocadores de flauta, pintores de aquarela e vendedores de bijuterias típicas. Gastei muito do meu “riquíssimo” espanhol neste momento para me livrar de tantas abordagens: “muchas gracias, pero no quero pendientes” ou “yo soy brasileña, no tengo euros señor” ou ainda “yo no quiero tomar fotos con llamas, gracias”. Enquanto isso, a Cris se enroscava no mapa, tentando achar começo, meio e fim. Mas labirintos nunca os tem!

Continuamos a caminhada e, olhando de loja em loja à procura de uma referência, percebi que estávamos sendo seguidas por um homem bem alto, aparentemente de uns 50 anos. Olhei para a Cris e disse: “tem um cara seguindo a gente, não fala nada. Entra nessa loja!” Era um típico batedor de carteiras, querendo nosso dinheiro – percebeu que estávamos ligadas e foi embora. Ficamos uns 30 minutos na loja e, tudo o que ele não conseguiu roubar, gastamos em bala, chocolate e milho gigante!

Superada essa parte, pegamos uma ruela à esquerda e caímos bem pertinho de um sítio arqueológico inca, onde tinha uma índia dando comida para sua llama bebê. A tal da fofíssima llama chamava-se “Blanca”, que significa “branca”. Seu pelo era bem clarinho e contrastava com a roupa toda colorida de sua dona. Obviamente, a senhora cobrava dos turistas que quisessem dar leite para o bicho ou tirar foto com a pequenina. Eu apenas mentalizei um pedido à Blanca: “me ajuda a sair daqui!”.

Tenho aqui comigo que cruzar o nosso destino com o de Blanca nos deu sorte, pois logo na esquina seguinte encontramos a hamburgueria! Além de matar a fome, descansar os pés e recuperar o pique, tivemos o prazer de curtir uma das vistas mais bonitas da Praça das Armas, o ponto central de Cusco (que carinhosamente eu apelidei agora de “o umbigo do umbrigo do mundo”). O tal restaurante fica em uma sobreloja, o que permite ver tudo do alto. Assim, obstáculos antes tão desafiadores se transformaram em um belo cartão-postal.

Aqui em Cusco, o coração muitas vezes acelera pela falta de oxigênio, mas também pela emoção de conquistar esse jogo de tabuleiro com lendários personagens, que brinca com a gente em labirinto. Acredite, doce Lica, é mágico. ❤

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Pouco antes de embarcar rumo ao Peru, minha sobrinha-afilhada por escolha do coração, Lica (Olivia), perguntou à mãe dela o que exatamente a “tia Pri” iria fazer no Peru. Essa garotinha de 9 anos – e de voz tão doce quanto sua imaginação – lançou, assim, uma ideia na cabeça de sua mãe: “Pri, por que você não escreve pra gente todo dia contando os encantos desse país?!”. Achei a ideia incrível. Nunca tinha escrito relatos de viagem sob um olhar infanto-juvenil. Assim, não só contei para a Lica dia por dia o que foi o Peru, como também passei a compartilhar com Sabrina, sua linda irmã de 14 anos, cada detalhe dessa história de 8 dias. Então, veio a ideia de publicar aqui, no Volto Pro Almoço, um diário de viagem especial. Linhas dedicadas às irmãs Lica e Sasá, aos amáveis irmãos Gabriel e Nina (cujo sonho do pai é retornar a Machu Picchu com os dois) e, claro, ao meu serelepe sobrinho João Pedro, o “Jotinha” (que um dia entenderá quem foi Indiana Jones). Todos eles representam aquelas crianças inteligentes, curiosas e cheias de vida que a gente fez questão de carregar para qualquer aventura pelo mundo.