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DIA 5: A MONTANHA COLORIDA

Lica e Sassá (agora vou conversar com você também Sá, sua mãe me contou que anda ouvindo minhas histórias rs), hoje tive uma das experiências mais incríveis da minha vida por aqui. Enquanto, no Brasil, todos foram às ruas bater panelas pela preservação da floresta amazônica, eu caminhava por uns seis quilômetros em uma antiga trilha inca, contando ida e volta, para conhecer a chamada Montanha Colorida. Um dos lugares mais bonitos que eu já vi, sem dúvida, pois os minérios que formam este lugar desenham camadas que passam pelo vermelho, amarelo e verde.

Para chegar ao cume, a caminhada é um imenso desafio ao nosso corpo. Além de ser íngreme, o pico está a mais de 5 mil metros do nível do mar, o que fica cada vez mais difícil para respirar conforme sobe, sem contar o frio desafiando a jaqueta e o vento forte. Então, toda essa busca pelo alto da Montanha Colorida é, na verdade, um momento importante para ficar com você mesmo, respeitar os seus limites, superar seus medos e limpar seus pensamentos.

O foco é a montanha. Há momentos em que você oferece ajuda, há outros que recorre ao cajado que lhe dá apoio e há a hora de pedir auxílio. O ser humano, no fim, sobrevive em comunidade, que pode ser uma pessoa ao lado ou na sua mente. Lembrar de todas vocês e de tudo que poderia contar depois, por exemplo, era uma das minhas forças para seguir nessa aventura.

Encarar limites como os dessa caminhada também significa ficar sozinho nos próprios pensamentos ao mesmo tempo que tenta controlar as limitações físicas do seu corpo. É uma fase um pouco mais evoluída de quando a gente conquista o direito de cantar no chuveiro sem ser interrompido. O diálogo entre sua mente, seu pulmão e sua perna pode chegar a conversas nunca imaginada antes, enquanto seu mundo era apenas água quente, sabonete e alguém batendo à porta para você desligar o chuveiro logo. O papo agora é: “já cheguei até aqui, está bom….. ahhh mas se só faltam 500 metros, consigo mais um pouco de fôlego até o topo”. Ou mesmo: “nossa, as pontas dos meus dedos estão congelando”.

Passo a passo esse diálogo foi superado e entrei em total harmonia comigo e com aquela paisagem tão plena. Quando cheguei ao cume, contemplei a natureza e observei a comemoração de tantos que também estavam lá. Essa emoção e essa devoção a uma natureza à qual pertencemos revela muito sobre a gente.

Sabe, meninas, os Incas nunca viram a Montanha Colorida porque ela sempre esteve coberta pela neve. Com o aquecimento global, há uns cinco anos o gelo derreteu e as cores se revelaram. Faz três anos que sequer cai neve nesta trilha. Ou seja, a beleza natural é vista pelos nossos olhos, hoje, em consequência de uma relevante mudança no ecossistema. Apesar de tudo, assim como a beleza dessa montanha, o silêncio dos Andes nos faz olhar além.

A natureza nunca será destruída, pois ela sempre se refaz. Prova disso é a consciência ecológica que esta antiga trilha inca causa nas pessoas. O que me chama mais ainda a atenção é sobre nós mesmos, seres humanos, pois somos natureza também. Por que destruímos tanto? A resposta também foi soprada pelos Andes durante essa viagem. A natureza se conhece. A gente ainda caminha em busca de si.

Beijo enorme para vocês e cantem muito no banho!

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Pouco antes de embarcar rumo ao Peru, minha sobrinha-afilhada por escolha do coração, Lica (Olivia), perguntou à mãe dela o que exatamente a “tia Pri” iria fazer no Peru. Essa garotinha de 9 anos – e de voz tão doce quanto sua imaginação – lançou, assim, uma ideia na cabeça de sua mãe: “Pri, por que você não escreve pra gente todo dia contando os encantos desse país?!”. Achei a ideia incrível. Nunca tinha escrito relatos de viagem sob um olhar infanto-juvenil. Assim, não só contei para a Lica dia por dia o que foi o Peru, como também passei a compartilhar com Sabrina, sua linda irmã de 14 anos, cada detalhe dessa história de 8 dias. Então, veio a ideia de publicar aqui, no Volto Pro Almoço, um diário de viagem especial. Linhas dedicadas às irmãs Lica e Sasá, aos amáveis irmãos Gabriel e Nina (cujo sonho do pai é retornar a Machu Picchu com os dois) e, claro, ao meu serelepe sobrinho João Pedro, o “Jotinha” (que um dia entenderá quem foi Indiana Jones). Todos eles representam aquelas crianças inteligentes, curiosas e cheias de vida que a gente fez questão de carregar para qualquer aventura pelo mundo.