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DIA 7: ÁGUAS CALIENTES

Lindinhas,

A história de hoje é sobre Águas Calientes, a última parada antes de chegar a Machu Picchu. De inca não tem nada, já adianto. Na verdade, a cidade surgiu como ponto de apoio para os viajantes desesperados por uma noite de descanso. Chegando por trem, bicicleta ou a pé, aqui começa a subida final até a famosa “Cidade Perdida”, o que exige muito esforço de corpo e mente. De verdade, odiei. Embora ela não tenha testado o limite das minhas pernas, Águas Calientes desafiou a minha paciência.

A começar porque para tirar proveito comercial dos turistas, muitos peruanos ou mesmo chineses, americanos, brasileiros, bolivianos, entre outros estrangeiros, decidiram explorar o lugar de todas as maneiras. Então, o vilarejo cresceu desordenadamente à beira do rio e as coisas por aqui são caras e sujas. Nada se produz localmente, tudo é trazido via ferrovia.

Quando não se tem identificação por onde vive, não se tem apreço. Os prédios sobem sem pintura nas paredes, há galinheiros nas lajes e os hotéis não se preocupam em chamar seus hóspedes pelo nome. Afinal, quem vai voltar? Comida é farta no desperdício. Claro, para o turista que tem dinheiro para pagar por isso. Vi muitas crianças como vocês jogando bola em uma quadra da prefeitura, mas todas elas moravam em habitações como as favelas do Brasil. Aliás, onde a maior parte da população local habita.

Só descobri isso, pois minha amiga Cris e eu estávamos à procura das tais águas termais que dão nome à cidade. “Águas Quentes”, em português. Na teoria, essas águas saem da fonte carregadas de nutrientes e bem quentinhas, fruto do longo caminho que percorrem sob pressão em camadas bem profundas da terra. Aqui, no caso, elas são canalizadas para uns tanques onde enfiam um monte de gente ao mesmo tempo. Em outras palavras, uma das principais fontes de renda locais são verdadeiros piscinões coletivos.

Para quem passou dias nas trilhas até Machu Picchu, dar uma relaxa nisso aí deve garantir uma sensação de alívio enorme. Eu como fiz o tradicional passeio “vou de trem e vou de ônibus também e deixo a parte da meditação lá pro alto”, podia abrir mão de tal vivência e investir meu tempo em algo com mais sentido à viagem. Optei, então, por assistir à garotada jogando bola e refletir sobre tudo nesse lugar e o pelo que passei até este ponto da viagem.

Poderia ser uma cidade linda, próspera em cultura de todos aqueles que passam e deixam um pouco de suas histórias, mas as pessoas que por alí ficaram talvez tenham se esquecido ou sequer entenderam o que significa aquele rio que corta a cidade. Já não há mais peixes, apenas entulho e uma vegetação ao redor que tenta resistir ao comércio de bugigangas “made in China” ou à mistura do som da flauta peruana com reggaeton e Rihanna. Talvez naquela partida de futebol alguém ainda esteja enxergando Mayu, a Via Láctea inca, e consiga vislumbrar Machu Picchu lá no alto. Quem sabe…

Beijokas!

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Pouco antes de embarcar rumo ao Peru, minha sobrinha-afilhada por escolha do coração, Lica (Olivia), perguntou à mãe dela o que exatamente a “tia Pri” iria fazer no Peru. Essa garotinha de 9 anos – e de voz tão doce quanto sua imaginação – lançou, assim, uma ideia na cabeça de sua mãe: “Pri, por que você não escreve pra gente todo dia contando os encantos desse país?!”. Achei a ideia incrível. Nunca tinha escrito relatos de viagem sob um olhar infanto-juvenil. Assim, não só contei para a Lica dia por dia o que foi o Peru, como também passei a compartilhar com Sabrina, sua linda irmã de 14 anos, cada detalhe dessa história de 8 dias. Então, veio a ideia de publicar aqui, no Volto Pro Almoço, um diário de viagem especial. Linhas dedicadas às irmãs Lica e Sasá, aos amáveis irmãos Gabriel e Nina (cujo sonho do pai é retornar a Machu Picchu com os dois) e, claro, ao meu serelepe sobrinho João Pedro, o “Jotinha” (que um dia entenderá quem foi Indiana Jones). Todos eles representam aquelas crianças inteligentes, curiosas e cheias de vida que a gente fez questão de carregar para qualquer aventura pelo mundo.